Eu gosto de lembrar dessa época. O coração aperta, mas de um jeito bom, sabe? Como se eu voltasse a ser aquela menina magrinha de rua, chinelo de dedo batendo no asfalto quente, cabelo grudado na nuca de suor.
A gente morava num subúrbio daqueles que todo mundo se conhece. Depois da aula era só descer a ladeira correndo, jogar a mochila em casa e já voltar pra rua. Brincava de pique-esconde até escurecer, rindo alto, suada, com as pernas raladas de tanto cair. As meninas ficavam de um lado da rua, os meninos mais velhos do outro, jogando bola no campinho improvisado. A gente fingia que não olhava, mas olhava.
E eu olhava pro Lu.
Ele era o mais bonito de todos. Cabelo bagunçado, pele morena do sol, aquele sorriso que fazia a barriga da gente dar cambalhota. O pai dele deixava ele dirigir a velha Saveiro de vez em quando, e isso já era o suficiente pra ele ser o rei da rua. Tinha namorada, claro. Uma menina mais velha, de outra rua, que aparecia às vezes de mão dada com ele. Eu morria de ciúme escondido.
Uma tarde minha amiga foi fazer fofoca, como sempre. Voltou correndo, olhos brilhando:
— Falei pra ele que você gosta dele!
Eu quase morri. O coração batia tão forte que parecia querer sair pela boca. Fiquei vermelha, as mãos suando, e passei o resto do dia me escondendo atrás das meninas toda vez que ele olhava pro nosso lado. Ele nem ligou. Passou por mim suado da pelada, shorts colado nas coxas, camisa levantando um pouco mostrando a barriga tanquinho de quem corre o dia inteiro. Nem olhou.
Mas eu olhava. Meu Deus, como eu olhava.
À noite, quando todo mundo dormia, eu deitava na cama, luz apagada, e era nele que eu pensava. A mão descia devagar por baixo do short do pijama. Eu já estava molhadinha só de lembrar dele suado, o peito subindo e descendo depois de um gol. Imaginava ele entrando no meu quarto sem bater, ainda com o cheiro de grama e suor, shorts baixinho, e falando baixinho:
— Vem cá, você é minha agora.
Meus dedos deslizavam fácil, eu estava encharcada. O grelo inchadinho, sensível, latejando. Eu circulava devagar no começo, mordendo o lábio pra não gemer alto. Depois ficava mais rápida, imaginando ele me beijando, a mão dele grande apertando minha coxa, subindo. A periquita pulsava, quente, molhada pra caralho. Eu enfiava um dedinho, só a pontinha, e apertava as pernas em volta da mão, fingindo que era ele me comendo devagar.
O tesão subia quente pelo ventre, os peitinhos ficavam duros, o corpo inteiro tremia. Eu rebolava contra a própria mão, imaginando ele dizendo no meu ouvido:
— Eu te amo, safadinha...
Aí vinha. Forte. As pernas tremendo, a barriga contraindo, um calorzinho molhado escorrendo entre os dedos. Eu ficava lá, ofegante, olhando pro teto com um sorrisinho bobo no rosto. Depois vinha a tristeza. Porque ele tinha namorada. Porque ele nem me via. Porque eu era só uma menina da rua que ficava olhando de longe.
Mas no dia seguinte eu voltava pra calçada, coração palpitando de novo toda vez que ele aparecia. E à noite... repetia tudo. Siririca atrás de siririca, sempre pra ele. Sempre imaginando aquele corpo suado, aquele sorriso, aquela voz rouca dizendo que me queria.
Eu ainda tava com a cabeça quente quando cheguei em casa aquele dia. A última conversa com a minha amiga nesse dia na rua não saía da minha mente.
— Clarice, você devia ir na casa dele dar uma incerta nele...
Eu ri na hora, nervosa.
— Tá maluca? Dar incerta como assim, doida?
Ela explicou bem devagar, com aquele sorrisinho safado:
— Você chega lá, vê se tem oportunidade... dá uns beijinhos, vai que rola. Ninguém vai saber.
Meu coração já começou a bater mais forte só de imaginar. Eu não queria ser amante de ninguém, juro. Já pensava na namorada dele, grandona, o dobro do meu tamanho, me puxando pelo cabelo e esfregando minha cara no asfalto quente da rua. Mas... a ideia ficou martelando.
Eu sabia os horários dele. De manhã ele ficava sozinho em casa antes de ir pra aula.
No dia seguinte eu fiz uma coisa que nunca tinha feito: me atrasei de propósito pro primeiro tempo. Em vez de virar pra escola, meus pés foram sozinhos pro caminho da casa dele. O sol ainda tava subindo, o asfalto quente já queimava a sola do sapato. Meu coração parecia um tambor dentro do peito, as mãos suadas, a boca seca.
A cada passo eu pensava em voltar. “O que eu vou falar? Que desculpa eu dou?” Mas a periquita já tava me traindo. Só de imaginar ele abrindo a porta de short, sem camisa, suado de ter acordado agora... eu sentia um calorzinho subir pela barriga e descer molhado entre as pernas.
Cheguei na frente da casa dele. A rua tava quieta, só um cachorro latindo longe. Parei no portão, mordendo o lábio. A blusinha fina grudada no corpo por causa do calor, calça jeans do uniforme marcando minha bunda. Eu sentia os biquinhos dos peitos duros roçando no tecido.
Respirei fundo, empurrei o portãozinho que não trancava nunca e bati palmas baixinho.
— Lu? Tá em casa?
Silêncio. Meu coração quase parou. Dei mais duas palminhas.
Aí a porta abriu.
Ele apareceu de short de basquete folgado, sem camisa, cabelo bagunçado de quem acabou de levantar. O corpo ainda com marca do lençol no peito. Olhou pra mim surpreso, mas com aquele sorrisinho de canto de boca que me derretia.
— Clarice? Que que você tá fazendo aqui, garota?
Eu senti o rosto queimar.
— Eu me atrasei pro colégio e não deixaram eu entrar, e não tem ninguém na rua acordado e eu sei que você acorda cedo...
Ele olhou a rua por cima da minha cabeça parecendo ver se alguém viu eu ali e mandou eu entrar rápido.
— Desculpa, eu te acordei?
— Não, eu estava deitado, mas estava mexendo no telefone...