Capítulo 21

Depois daquilo, a gente não conseguiu ter muito sossego, sabe? A casa pareceu acordar do nada, no meio da tarde, um monte de gente começando a chegar e andar pelo corredor do lado de fora do meu quarto, como se fosse uma estação de trem. E assim, não dava pra relaxar, mesmo que você saiba que a porta tá trancada com chave e tudo. Sempre fica aquela sensação de que alguém vai entrar de repente ou, pior, que vai ouvir tudo. Tipo, eu imaginava a tia Beta batendo na porta e gritando “o que vocês tão fazendo aí tanto tempo?”, e aí pronto, o tesão ia pro ralo junto com a vergonha que vinha depois.

E a gente aprendeu outra coisa dura nessa putaria toda: mesmo sendo duas mulheres e primas, as pessoas ficavam levemente desconfiadas quando a gente se trancava por muito tempo. Porque, no geral, a gente era sociável com a família, sempre no meio da bagunça, rindo das fofocas das tias ou ajudando na cozinha. Mas agora? Vinham um monte de perguntas estranhas, do tipo “por que vocês tão se escondendo tanto?”, com aquele olhar de quem já tá imaginando o pior. Como se duas meninas não pudessem só querer um tempinho pra conversar sem ser sobre meninos ou receitas de bolo. Ironia do caralho, né? A família que vive cheia de escândalos acha estranho duas primas ficarem sozinhas.

Como não dava mais pra ficar tranquilas, a gente se acalmou – o que significava manter as mãos longe da buceta uma da outra, pelo menos por enquanto. Nos limpamos do jeito que dava, com lenços úmidos que eu guardava na gaveta, daqueles que cheiram a bebê mas servem pra disfarçar o cheiro de tesão. Discretamente, uma a uma foi ao banheiro se lavar direito, eu primeiro, sentindo a água fria escorrer e levar embora o resto do calor que ainda latejava entre as pernas. Era como se o corpo ainda quisesse mais, mas o cérebro gritava “para, sua idiota, vai dar merda”.

Nós duas descemos e fomos ver quem estava lá embaixo. Uma era a tia Beta, que só vinha de passagem dar um oi e ir embora, ela mora longe pra caralho e sempre aparece como um furacão, beija todo mundo e some. E a outra? A vizinha do lado, a fofoqueira desgraçada. “Que ódio dessa mulher!”. Se ela estava ali na minha sala, certamente era fofoca. A mulher tinha uma rede de informantes no bairro inteiro, era impressionante. Costureira metida a irmã de oração, sempre com um monte de mulher na casa dela, rezando e cuspindo veneno puro. Ela olhava pra gente com aqueles olhos de coruja, como se soubesse de tudo, e eu pensava “se essa vaca soubesse o que rolou lá em cima, ia espalhar pro bairro inteiro que a Julinha é uma safadinha incestuosa”. Mas ela só ficou tagarelando sobre o preço do feijão e foi embora com a tia Beta, graças a Deus.

Elas se foram, eu preparei o jantar com a Mariana, nada demais, arroz, feijão e uma carne moída que sobrou do almoço. Sentamos na mesa: Mariana, minha mãe e eu. Minha mãe estava estranha, mais que o habitual. Ela ainda estava brigada com o meu padrasto, daqueles briga que duram dias, e ainda tinha brigado com meu pai por minha causa — alguma merda grave, sei lá, mas eu era o motivo, como sempre. Ela comia devagar, com aquela cara de quem tá mastigando raiva, e eu decidi que não era muito bom cutucar ela nesses dias. Tratei ela dentro da boa educação de filha comportada, que eu não era. “Sim, mãe”, “não, mãe”, “posso ajudar com a louça?”.

No fundo, eu tava morrendo de medo que ela percebesse algo no meu olhar ou no da Mariana, tipo um cheiro de culpa misturado com tesão.

Eu estava tagarelando sobre esmalte e Mariana teimando comigo que a mãe dela tinha no salão uma marca que nem tinha sido lançada ainda e a minha mãe, quieta olhando e prestando atenção em detalhes até que do nada, ela soltou sem misericórdia:

— Júlia, quem é o menino que você estava no carro com ele?

Eu quase engasguei no arroz. Meu coração já estava acelerado e agora minha mãe vinha com essa. Eu fiz as contas rapidamente, e o resultado não seria outro, a fofoqueira tinha vindo aqui em casa para me contar que eu estava no carro do moço do ônibus. Agora só restava saber o que ela tinha contado.

— É um menino que eu tô saindo com ele, mãe. — Mariana arregalou os olhos para mim nervosa, imediatamente.

Ela não expressou nada quando eu falei.

— Eu quero você namorando dentro de casa, ouviu bem? Quando você vai trazer ele aqui?

Minha mãe se inclinou para trás na cadeira, cruzou os braços terminando de mastigar, uma pose que me desafiava e metia medo.

— Ai, mãe! Não sei! Ele tá viajando, quando ele voltar eu trago ele aqui. Tá bom? — tentei sair pela tangente, pegando o copo d’água e fingindo que aquilo não era nada demais.

— Acho bom! — ela respondeu, me lançando um olhar afiado antes de voltar a cortar a carne no prato.

Achei que o interrogatório tinha acabado, mas então ela veio com outra.

— Mariana, você vai dormir aqui em casa com a Julinha hoje, tá?

Mariana levantou os olhos na hora, surpresa.

— Por quê, tia?

— Eu vou sair com a sua mãe e seu pai vai dar plantão.

Foi só ela falar isso que eu e Mariana trocamos um olhar malicioso. Mariana abriu um sorrisinho e não perdeu tempo:

— Ih, Mari, sua mãe ganhou uma vale night! As velhas vão saracotear!

Nós três rimos, mas minha mãe fingiu indignação no final.

— Me respeita, pirralha! Não sou sua mãe, mas te dou uma chinelada! — ela riu, mas dava pra ver que tentava disfarçar alguma coisa.

Eu arqueei as sobrancelhas. Tava mentindo. Minha mãe sempre foi ruim nisso. Quando ficava nervosa, ficava vermelha igual um pimentão.

— Mãe, cadê meus irmãos? — perguntei, já estranhando aquele clima.

— Estão com seu pai, voltam só segunda. E eu não quero ninguém dentro de casa, então nem pensem em falar que vocês vão estar sozinhas aqui, ouviram bem?

— A senhora vai dormir onde?

— No motel, sua burra! — Mariana soltou, debochada.

Minha mãe arregalou os olhos e apontou o garfo pra ela.

— Olha a falta de respeito!

Mariana só riu.

— Mas é verdade, tia, fala a real!

Minha mãe revirou os olhos, terminando de mastigar antes de responder:

— Vou dormir na sua cama! A gente vai ver um show.

Eu e Mariana trocamos um olhar de novo. Eu já ia soltar alguma besteira, mas ela foi mais rápida:

— Sei que show é esse que vocês vão ver!

Minha mãe ficou vermelha na hora. Quase sendo pega na mentira, igualzinha a mim quando tentava esconder alguma coisa. Eu quase senti orgulho dela.

A gente deixou o assunto morrer ali, mas o que me pegou foi Mariana. Ela me olhava de um jeito diferente, como se quisesse me passar uma mensagem por telepatia. Ela tinha alguma coisa em mente, e eu fazia ideia do que era. Meu coração deu um salto no peito. A noite prometia.