Capítulo 87

O Tomtom empurrou a porta devagar e, assim que ela abriu, as luzes automáticas acenderam com um clique suave, revelando tudo de uma vez. Meu coração deu um salto tão forte que senti na garganta. Fiquei parada na entrada, boca entreaberta, olhos arregalados, tentando entender o que meus olhos estavam vendo. Mariana, do meu lado, congelou também, o corpo inteiro rígido, como se tivesse levado um choque.

O lugar era um pedaço secreto do closet, amplo, iluminado por luzes brancas frias que deixavam tudo ainda mais exposto. Extremamente organizado. Tudo no lugar, tudo limpo, tudo arrumado com uma precisão quase obsessiva. Parecia um showroom de prazer, não um canto escondido de quarto.

Demorei uns segundos bons pra meu cérebro processar. Não era possível. Não podia ser real. Mas era.

Na parede da direita, penduradas em cabides de metal preto, fileiras de roupas de látex e borracha brilhante: macacões inteiros com zíperes estratégicos, corsets apertadíssimos, máscaras com buracos só pra boca, luvas longas até o cotovelo, botas de cano altíssimo. Tudo preto, vermelho sangue, roxo escuro. O cheiro de borracha nova misturado com um leve perfume caro pairava no ar.

Do lado oposto, uma parede inteira dedicada a chicotes. Chicotes de couro trançado, de camurça com várias tiras, de borracha fina, de couro grosso com nó na ponta. Alguns tinham cabos de madeira polida, outros de metal frio. Abaixo deles, em um aparador de madeira escura, uma fileira de plugues anal com joias encrustadas na base. Algumas pedras brilhavam demais pra serem só vidro — vermelho rubi, azul safira, verde esmeralda. Eu juro que por um segundo pensei: essas joias são de verdade? Prata e ouro de verdade? Meu estômago deu um nó esquisito de choque e curiosidade.

No chão, três caixas abertas de lubrificante. Não eram vidrinhos de farmácia. Eram frascos enormes, daqueles de litro e meio, transparentes, com rótulos em letras douradas. Tinha quantidade suficiente pra encher uma banheira pequena. Sério. Uma banheira. O cheiro doce e levemente químico subia deles, misturando com o resto do ambiente.

E então eu vi o armário de gavetas. Abri a primeira sem nem pensar. Meu Deus! Vibradores! Todos os tipos, todos os tamanhos e todos os formatos; rosas, roxos, pretos, transparentes, com veias marcadas, lisos, com bolinhas, com sucção, com aquecimento, com controle remoto. Tinha um ali, deitado na gaveta como se fosse a coisa mais normal do mundo, que sem sacanagem devia ter quase um metro de comprimento e era grosso como meu antebraço. Eu fiquei olhando praquilo, sem conseguir desviar, sentindo um calor subir pelo pescoço e descer pela barriga ao mesmo tempo. Era assustador e… excitante.

Muito excitante.

Tomtom estava ao meu lado, completamente congelado. A cara dele era de quem acabou de entrar num filme que não pediu pra assistir. A boca entreaberta, os olhos indo de um lado pro outro, tentando absorver tudo. Ele nem piscava.

O silêncio pesou tanto que quase doía. Até que Mariana, ainda na porta, soltou a voz tremida, tentando quebrar o clima:

— Eita, tia Kátia sabe mesmo se divertir…

A piada saiu fraca, a voz morreu no final, engolida pela surpresa que ainda estava estampada na cara dela. Ela deu um passo pra dentro, mas parou de novo, como se o chão pudesse engolir quem avançasse mais.

Eu comecei a mexer nas coisas quase por instinto, tocando de leve, sentindo a textura fria dos metais, o couro macio dos chicotes, o vidro gelado dos frascos. Meu coração batia tão rápido que eu sentia na ponta dos dedos. Era choque puro e vergonha. Era tesão crescendo devagar, traiçoeiro, me fazendo apertar as coxas sem perceber.

Ninguém falava mais nada. Só o som da nossa respiração acelerada e o zumbido baixo das luzes automáticas.

Tomtom pegou um dos vidros grandes de lubrificante, daqueles potes grossos e transparentes que parecem caros, e olhou pra gente muito sem graça. Na hora eu saquei que a surpresa não foi muito legal pra ele: o garoto que até um minuto atrás devia imaginar que os pais nem transavam agora tava no quarto da putaria deles, vendo a coleção inteira de brinquedos e potes abertos como se fosse uma loja de doces proibida.

— Eu peguei aqui, vou esperar lá fora, vocês fecham aí? — falou ele mais sem graça que o normal e foi saindo sem falar mais nada, o pau meia-bomba balançando triste, o rosto vermelho que nem tomate cozido.

Quando ele saiu do quarto, Mariana veio cochichar do meu lado, a voz baixa e cheia de graça:

— Ih, esse daí acho que brochou mesmo entupido de remédio, prima.

— Coitado... homem tem dessas coisas né? Mas imagina só tu descobrir que teus pais são os maiores devassos da face da terra?

— Amor, você não sabe o que eu ouço de noite vindo do quarto deles — Mariana soltou e caiu na gargalhada, cobrindo a boca com a mão pra não fazer barulho demais.

— Vamos pegar alguma coisa? Eu quero testar tudo.

Mariana foi percorrendo as gavetas e fazendo bagunça, separando tudo como se tivesse num supermercado de putaria: plugs brilhantes, vibradores de vários tamanhos, algemas de couro, uns potes de gel com nomes em inglês que eu nem sabia o que era, e ela comentando cada um como se fosse especialista.

— Ei garota, não sai tirando as coisas de lugar não porque depois a gente tem que colocar de volta, e não precisa pegar tudo de uma vez que a gente vai ficar quinze dias nessa casa — falei, tentando ser a voz da razão, mas foi quando eu terminei de falar isso que meus olhos caíram sobre uma coisa que fez meu chão tremer...

Um [[ep-07-O viadinho que ela despertou em mim|cintaralho]].

Grande, preto, com veias marcadas, parecendo me chamar. Fiquei parada olhando, sentindo um calor subir do grelo pro peito, uma mistura de choque com curiosidade doida. Mariana viu minha cara e veio do lado, olhando também, e soltou um assovio baixo.

— Caralho, prima... isso aí é pra quem gosta de mandar ou de levar?

Eu não respondi na hora, só fiquei encarando aquilo, imaginando como seria usar aquilo com Mariana.