Capitulo 93
Eu tinha ido pra aquela casa trabalhar. Até então tinha sido só uma colônia de férias da putaria, mas a realidade bateu forte na manhã seguinte.
Acordei cedo, o corpo todo dolorido — cu ainda ardendo de leve, nádegas com marcas roxas que latejavam quando eu sentava, pernas fracas como se tivesse corrido maratona. Vesti um jeans simples, camiseta larga pra esconder as marcas na cintura, e peguei a lista que tia Kátia e tio Rubens tinham deixado. Muitas coisas ali eu não tinha feito no primeiro dia: checar todas as janelas, testar o sistema de segurança completo, conferir os sensores de movimento. Corri logo pra resolver essas prioridades e fui matando o resto no decorrer do dia, uma tarefa de cada vez.
A casa era grande pra caralho. Se vocês são pobres que nem eu, não têm ideia do que é uma casa grande de verdade. Só nesse dia apareceram: o jardineiro podando as plantas do jardim externo, um moço limpando os muros internos com mangueira de pressão, dentro de casa uma cozinheira preparando almoço, e a faxineira passando pano nos pisos de mármore como se a vida dela dependesse disso. O motorista ficava disponível só caso o Tomtom quisesse ir ao shopping ou sei lá onde. Eu ficava no meio de tudo, coordenando sem ser chata, tentando parecer profissional.
E o telefone não parava de tocar. Como não achavam meu tio no escritório, as pessoas ligavam direto pra casa. Eu tomava nota de todos os recados — nomes, horários, assuntos — e passava pra ele por mensagem. As entregas também não paravam: pacotes chegavam um atrás do outro, empilhando na entrada. O povo gosta de comprar pela internet, e a tia Kátia, que ainda tinha aquele espírito de pobre guardado no peito, ficava ansiosa trocando mensagens o dia inteiro querendo saber se tudo tinha chegado direitinho.
— Julinha, o pacote da Shein chegou? E o da Amazon? Tem que conferir se não veio amassado!
Eu respondia tudo com paciência, tirava foto dos pacotes, confirmava com os entregadores. Conhecendo o que aquela safada da Kátia tinha no quartinho lá em cima, eu nem acharia estranho se essas encomendas não fossem tudo coisa de putaria. E enquanto isso, os dois lá em cima dormiam tranquilamente. Depois que eu me levantei, a Mariana foi pro quarto do Tomtom, e eu tenho certeza que a desgraçada estava dando pra ele quando eu passei em frente à porta do quarto. Eu não quis abrir pra não me irritar, ou pior, pra não pular no meio. Nunca se sabe.
Fiquei com medo dos funcionários, achei que eles iam ficar testando minha paciência, mas não. Eles me ajudaram com tudo, eu nem precisava mandar nada e eles já sabiam o que fazer. Entediada, eu sentei na mesa da cozinha e ajudei a cozinheira a cortar as coisas. A mulher me olhou com os olhos arregalados quando percebeu que eu sabia usar uma faca, ela devia estar achando que eu era uma parente rica ou algo assim, mas quando se deu conta que eu era pobre que nem ela, ficou mais relaxada comigo na cozinha.
O almoço já estava quase pronto quando eu estava me levantando pra chamar os dois pombinhos, quando a campainha tocou.
— Deve ser a dona Laura, Julinha.
Laura era a secretária do Rubens, provavelmente ele mandou ela vir xeretar pra ver se eu não tinha colocado fogo na casa. Tinha uma nota sobre ela bem clara no cartão: “A Laura tem acesso à casa inteira livremente”. Eu pensei, essa tem moral pra cacete. Quando eu vi ela descendo do carro eu me assustei. Ela estava de um short jeans largo e uma blusa de linho solta, uns cordões dourados e óculos escuros. A mulher era muito alta, uns pernões lindos, cabelo pretinho de índia, pele branca, bundão e peitão. Aquilo não era roupa de quem estava trabalhando, era roupa de uma tarde no shopping, mas também ela deve ter vindo assim porque sabia que meu tio não estava aqui, né?
Assim que ela desceu, abriu a porta traseira e pegou uns papéis. Eu, que sou intrometida desde que nasci, gritei do degrau:
— Ei, quer ajuda?
Ela olhou pra mim rindo, com uma feição curiosa pra saber quem eu era.
— Ahn, eu quero. Tem uma caixa aqui, tá meio pesada.
Eu desci correndo, sentindo o corpo ainda meio mole da trepada de ontem, e peguei a caixa sem reclamar. Era pesada mesmo, mas nada que eu não aguentasse. Enquanto carregava, o perfume dela subiu forte, doce e caro, misturado com cheiro de pele limpa que me deu um arrepio besta na nuca. Laura perto de mim era mais alta ainda, me olhava de cima, e por algum motivo aquilo me deixou com um frio gostoso na barriga.
Ela tirou os óculos devagar, guardou no bolso do short e sorriu de canto.
— Você deve ser a Julinha, né? A sobrinha da Kátia que tá cuidando da casa.
— Isso mesmo — respondi, tentando não olhar pro decote dela que balançava a cada passo. — E você é a Laura, secretária do tio Rubens?
Ela riu baixo, um riso rouco e gostoso.
— Secretária, assistente, faz-tudo… depende do dia. Ele me mandou trazer uns documentos que ele esqueceu e dar uma olhada se tá tudo em ordem por aqui.
Entramos juntas. Eu coloquei a caixa na mesa da sala e virei pra ela, limpando as mãos na calça. A cozinheira já tinha sumido pra dentro, provavelmente pra não ficar no meio do fogo. Laura olhou em volta, os olhos parando nas escadas que davam pro andar de cima, onde Mariana e o Tomtom ainda tavam dormindo ou trepando, vai saber!
— Tá tudo tranquilo? — perguntou ela, a voz macia mas com aquele tom de quem tá acostumada a mandar.
— Tranquilo demais — menti com um sorriso safado. — O menino tá lá em cima dormindo.
Ela ergueu uma sobrancelha, reprovando o menino com um movimento de cabeça, ela devia conhecer bem a peça.
Fomos para o escritório do primeiro piso, ela me passou um monte de documento para eu assinar o recebimento e pegou uns pacotes que chegaram para levar para o escritório. Me deu mais ordens e quando tudo acabou, ela se jogou para trás na cadeira e olhou lá para fora. A vista era de um céu azul e uma piscina mais azul ainda, convidativa.
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