Capitulo 94

— Nossa, daria um dedo para dar um mergulho nessa piscina...

— Entra, ué... os gatos não estão aí, deixa os ratos fazerem a festa!

— Cuidado, Julinha, essa casa aqui tem ouvidos e olhos em todos os lugares, hein!

Quando ela falou essa porra na hora meu cu trancou. Sabe quando a pessoa não tá só te dando um conselho, mas ela sabe de alguma coisa e não pode falar abertamente? Então. Na hora eu me liguei, não teria sido o tio Rubens que mandou ela só pra ver o negócio do cofre? A minha surpresa se confirmou na hora, porque depois disso ela levantou e falou.

— Amor, aqui tá tudo certo, eu vou lá na suíte dele pegar um terno dele pra deixar no escritório.

— Eu vou com você... — me ofereci.

— Precisa não, amor... pode ficar aí — aquilo não era um pedido.

Ela levantou calmamente e saiu pela porta e no mesmo instante eu peguei meu telefone e liguei pra Mariana rezando pra aquela filha da puta atender ou parar de transar quando a mulher passasse pelo corredor. Mas eu estava com sorte.

— Mariana, se tu tiver no quarto do Tomtom se esconde e se finge de morta.

— O que foi Julinha? Eles voltaram?

— Não, porra, a secretária do tio Rubens vai passar em frente à porta do quarto e vai querer saber quem tá aí com o Tomtom, essa mulher eu tenho certeza que veio espionar a gente.

— Será, caralho Julinha e se for só isso?

— Não sei... pergunta pro Tomtom se isso é comum, mas manda ele se arrumar logo e descer pra almoçar e parecer um menino feliz e bem cuidado, por favor.

Eu fiquei ali embaixo na sala, o coração ainda acelerado da tensão com a secretária, olhando pro teto como se as respostas fossem cair dali. Os dois desceram a escada juntos, Mariana veio correndo pro meu lado com aquela cara de quem tá segurando bomba, olhos arregalados e mão na boca pra não soltar tudo alto, enquanto o Tomtom foi direto pra mesa da cozinha, se jogando na cadeira como se nada tivesse acontecendo, esperando a cozinheira encher o prato dele — o moleque era um inútil até pra servir a prórpia comida sozinho, tipo um bebê rico. Mariana me puxou pelo braço pro canto, voz baixa e nervosa roçando na minha orelha, o hálito quente me arrepiando o pescoço.

— Julinha, a mulher entrou na suíte da tia e fechou a porta, o Tomtom foi lá ver e a porta tava trancada!

Puta merda, só me faltava essa. Meu estômago deu um nó, a mente rodando louca imaginando ela fuçando o quarto secreto, achando nossas digitais nos brinquedos, ligando pro tio na hora. Mas, devia ter outro cofre ali, coisa de documentos importantes, de repente ela só estava guardando merda de trabalho, sei lá. Meu peito apertou de pânico, um suor frio descendo pela nuca, mas aí respirei fundo, sentindo o cheiro de comida no ar, e pensei comigo mesma: ah, foda-se, melhor relaxar e não pirar nisso. Nem foi crime grave, a gente só ficou curiosa pra caralho, se ele descobrisse não ia poder armar escândalo sem contar pro mundo que curte putaria pesada. Cruzei os braços, o corpo relaxando aos poucos, e fui pra mesa me sentar com todo mundo, chamando a cozinheira que mexia na panela:

— Vem sentar com a gente, tia!

Ela me olhou de cara feia, soltando um "nem a pau!" alto que ecoou na cozinha, virando as costas como se eu fosse maluca.

O almoço rolou leve, pratos cheios de arroz soltinho, feijão fumegante e frango assado cheirando a alho, mas todo mundo ansioso pra cacete com a secretária do tio Rubens solta pela casa, o ar estava pesado de expectativa. Foi o Tomtom quem jogou outra bomba, ele passou o almoço inteiro com a cara enfiada no celular, garfo na boca sem olhar pra ninguém — eu odeio isso pra caralho, me deu uma coceira nos dedos pra arrancar o troço da mão dele, mas eu não sou mãe dele pra ficar brigando. De repente ele levantou os olhos, voz casual como se pedisse refrigerante.

— Julinha, eu queria hoje de tarde ir pra casa de um amigo meu, o motorista vai me levar, eu falei com minha mãe. Tá? Eu acho que eu vou dormir lá.

— Se tua mãe deixar... eu não tenho nada a ver com isso...

Meu cérebro travou na hora, o garfo parado no ar, cheirando o molho no prato. Estranho pra cacete: o virjão que nunca comeu ninguém, acabou de transar com duas gurias bonitas tipo eu e a Mariana, e agora quer sair pra jogar videogame com amigo? Se fosse um cara normal tava grudado na gente, tentando trancar nós duas no quarto pra mais uma rodada. Olhei pra Mariana do outro lado da mesa, conversando com os olhos num código nosso de sempre, e ela franzia a testa, confusa que nem eu. Mas se eu não tenho papas na língua, ela tem menos ainda, e eu vi o carão vermelho subindo.

— Que porra é essa, Tomtom? Vai dispensar a gente??

Ele baixou os olhos pro prato, garfo mexendo no arroz sem graça, voz baixa.

— É que eu já tinha combinado, eu dei minha palavra... né?

— Vai trocar buceta por videogame? — Mariana soltou direto, vulgar pra caralho, voz afiada cortando o ar, e meu coração pulou temendo que a cozinheira tivesse ouvido aquilo.

Ele ergueu o olhar, tentou argumentar com cara de culpado, e virou briga ali na mesa, sussurros tensos, talheres batendo nervosos. Pelo menos Mariana tinha o tato de não deixar ninguém ouvir, inclinando o corpo pra frente. O que me estranhava era ela puta de ciúmes dele, olhos faiscando raiva, punho cerrado no colo. Eu ainda estava encucada com aquilo, que era esquisito o moleque trocar a chance de comer nós duas por joguinho — não que eu quisesse de novo ou que fosse rolar, mas porra, pensa na oportunidade que ele iria perder!

Do outro lado da mesa, a treta acabou com Mariana vermelha que nem pimentão, dentes de baixo à mostra na raiva que não cabia na boca. Tomtom largou o prato sujo na mesa, comida pela metade, que nem rico folgado, e subiu as escadas batendo o pé. Se eu deixo um grão de arroz pra trás, minha mãe até hoje manda voltar e engolir tudo com sermão daqueles que dura horas.