Capitulo 95
Mariana empurrou o prato pra longe, cruzou os braços na mesa e ficou ali emburrada, no maior bico, olhos cravados no vazio como se o mundo tivesse dado um fora nela. Meu estômago estava pesado da comida já, terminei o último garfo, me levantei devagar sentindo as pernas moles do dia anterior, peguei meu prato e o do Tomtom. Caminhei até a pia, a cozinheira já estava virando com cara de "nem pense nisso mocinha", protestando que ela lavaria tudo depois, e eu larguei os pratos sujos ali, para a cuba me deixando com coceira de quem não aguenta bagunça. Olhei de novo pra Mariana, que se ergueu num pulo de prato na mão sabendo que alguém ia lavar a louça e jogou na pia com barulho, soltou um "obrigada tia" falso pra cozinheira e subiu as escadas pisando forte e o rabo balançando irritado. Eu sabia na hora: ela estava indo direto pro quarto do garoto, pra despejar mais bostas na cabeça dele.
Descendo as escadas, Laura apareceu, papéis na mão e dois sacos de terno pendurados no ombro, equilibrando tudo como se fosse leve.
— Julinha, terminei aqui, eu vou embora, mas antes... — ela olhou o ambiente como se não pudesse falar em público — Vamos no escritório para conversar?
Olhei ela ali, braços cheios de tralhar, o corpo alto se inclinando pra não derrubar nada e com uma cara de quem ia me foder muito. Eu sabia que eu tinha feito merda, e ela sabia de tudo.
— Tá bom, eu já terminei, vamos agora.
Ela soltou os ternos em cima do sofá e foi com os documentos para o escritório. Ela esperou de pé na porta eu entrar para poder fechar a porta atrás de mim depois fechou as cortinas que davam visão para o resto da casa e sentou na poltrona que ficava na frente da mesa principal do tio. Eu estava morrendo de tão nervosa, e ela não fez suspense nenhum.
— Você sabia que toda vez que aquele cofre é aberto, o Rubens recebe uma comunicação no celular dele avisando?
Eu sabia… no fundo eu sabia que ia dar merda.
— Olha só, a gente só estava curiosa, queria ver só! A gente não roubou nada.
Entrei meio que em pânico. Já tava imaginando a tia Kátia ligando pra minha mãe falando que eu arrombei o cofre dela e entrei. Liguei o modo falação de criança, explicando detalhadamente, mas sem conseguir formar um raciocínio lógico que a moça entendesse, e comecei a chorar feito uma idiota.
— Calma, amor, calma!
Ela veio pro meu lado na poltrona e me deu um abraço, me reconfortando, mas eu chorava de soluçar, eu já me via algemada saindo da casa por roubar itens de putaria.
Até que eu olhei pra cara dela e vi que a safada tava rindo da minha cara.
— Se acalma, vai…
Eu enxuguei as lágrimas agora com raiva de mim mesma, porque pelo visto eu me entreguei antes da hora. Essa mulher tava calma demais pro meu gosto.
— Olha só. Como eu disse, o cofre quando é aberto o Rubens recebe uma notificação. E adivinha o que aconteceu assim que ele cruzou o portão?
Eu não entendi direito a pergunta, não tava batendo. Fiquei quieta e preferi deixar ela falar pra não me entregar mais.
— O molequinho safado entrou lá e foi direto nos remédios e quando saiu não fechou direito.
Na hora eu me toquei. Era o remédio que o Tomtom usou pra ficar de pau duro. Mas quando ele foi com a gente, parecia que nunca tinha entrado ali. Se bem que não fazia sentido o garoto não saber que tinha um cômodo daquele na casa, por maior que a casa fosse.
— Esse garoto não vale o chão que pisa. Vocês fiquem espertas com ele.
Eu fiquei pensativa tentando remontar tudo, parecia que eu morava naquela casa fazia mais de dez anos.
— E como você sabe que ele entrou lá pra pegar remédio? — perguntei curiosa, querendo confirmar o que eu já suspeitava.
Ela não fez mistério.
— Pelas câmeras!
— Ah meu Deus... então... você... você...
— Sim, eu vi vocês entrando e pegando um monte de... “brinquedos”.
A mulher quando terminou a frase começou a gargalhar na minha cara. Eu não sabia se ficava com medo, puta ou com vergonha. Olhei pra ela com cara de peixe morto, era só me enterrar porque não existia mais nada de mim viva.
— Mas olha, tudo bem... eu apaguei tudo.
Eu fiquei olhando pra ela piscando. Como assim apagou? Que diabos ela ia querer com aquilo. Diante do meu silêncio de perplexidade ela continuou:
— Ah! Eu apaguei, você não foi a única que pegou coisinhas ali dentro e a Kátia não ia se importar de dar um monte daquelas coisas se você pedisse.
— Calma moça! É muita informação pra minha cabecinha de pombo! Você também já pegou coisinhas de lá?
— Sim, algumas sem a Kátia saber inclusive.
— Ué... Minha tia sabe que você sabe? Vocês são tipo um clube secreto de sexo de gente rica por acaso?
Ela riu, sabia que eu tava brincando, e continuou.
— Amor, a sua tia é dona de uma rede pequena de sex shop, ela gosta e muita coisa ali é presente de fornecedor... e ela guarda algumas coisas pra ela, não quer dizer que ela use tudo... Bem, isso não sabemos né!
Quando ela falou isso, tudo fez mais sentido pra mim, mas tinha uma coisa que não batia.
— Mas por que um cofre?
— Aí eu não sei, pra deixar longe das vistas dos filhos e empregados, mas a moça da limpeza sabe, entra lá uma vez por mês. O quarto não é secreto assim como você pensa não. E aquilo lá nem cofre é, é só uma porta escondida mais por estética que qualquer outra coisa.
— Tá, mas o que o meu tio sabe? Ele sabe que eu entrei lá?
Ela se reclinou pra trás na poltrona, procurando alguma coisa dentro da bolsa e falou:
— Não, ele acha que o Tomtom entrou lá e só. A câmera é de presença e quase nunca funciona. E eles nem estão muito preocupados de você entrar lá, daria muito mais problema se você entrasse na adega deles lá embaixo.
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