Capitulo 96

Fiz nota mental disso, porque eu bem que queria um vinho daquela adega. E agora um pouco mais aliviada, fiquei mais tranquila pela moça ter me ajudado. Mas eu ainda tava completamente desconfiada dela, não sei o motivo.

— E... o que você quer em troca me ajudando assim? Você meio que coloca seu emprego em risco mentindo assim pros seus patrões, não?

Ela olhou pra mim com cara de surpresa, levemente ofendida, mas era falsidade pura.

— Calma! Eu fiz pra te ajudar!

— Mas você nem me conhecia, desembucha! Alguma coisa em troca você quer. Eu não gosto de dever favor pra ninguém.

Ela cruzou os braços, me olhou mais séria.

— Garota, você é muito ingrata sabia? O que eu ia querer de você? Me fala!

— Não sei... mas se for dinheiro, tá fudida, porque eu não tenho! — falei sem papas na língua.

Aquela mulher não era da minha gente, eu tava acostumada a falar o que vinha nas ventas. Eu nem tava pensando nada demais, só estava jogando conversa fora implicando com ela. Eu gostei dela, tava agradecida de verdade, mas ainda tava muito nervosa.

— Tá bom, você me paga um jantar, tá bem? — disse ela tentando encerrado o assunto infantil.

— Ihhhh, eu disse que eu não tenho dinheiro, pode ser um iFood? — falei brincando.

— Eu não sou mulher de iFood. Tem que ser um jantar direitinho, lugar maneiro, vinho...

— Isso tá me parecendo um date! — falei olhando bem dentro dos olhos dela, querendo saber o que essa mulher queria de fato.

Aí minha gente, a coisa descambou pra sacanagem. Maldito o dia que eu peguei num pinto pela primeira vez, fui amaldiçoada! Parece que minha vida agora gira em torno de trepar com alguém.

— Hummm... — ela me deu uma olhada longa, mordeu o lábio devagar e soltou: — E se fosse?

Aí veio a porrada.

Olha, eu devia ser alguém na fila do pão, porque Mariana era linda, Diana era uma deusa na terra e agora essa mulher maravilhosa de graça na minha frente. Laura era quase panicat, só que natural e muito mais elegante. Sabe aquela mulher que pra você sair com ela você sabe que precisa de muito dinheiro porque ela tem gostos caros? Então, essa é a Laura. Eu não entendia como ela, sendo secretária, conseguia se vestir tão bem. Aquele cordão no pescoço dela eu conheço, não é chapeado não.

Mas eu sou piranha né, vocês me conhecem...

— Ué, não sei... — falei, demonstrando toda confiante no meu taco, sem saber onde enfiar a cara.

Ela desviou o olhar de mim e ficou olhando pra janela que dava pra piscina. Quando ela chegou, a primeira coisa que comentou foi que queria tomar um banho de piscina.

— Você tá doida pra entrar na piscina né? — comentei.

— Sim, eu amo piscina.

— Por que não entra? Tio Rubens falou que eu poderia, quer dizer, que eu deveria usar a piscina porque ninguém nunca entra e ele fica com sentimento de estar jogando dinheiro fora. Tia Kátia confirmou.

— Eu sei, amor, não tem problema. Eu sempre venho aqui quando eles me chamam. Mas o Tomtom me incomoda, o moleque fica me olhando de um jeito, sabe?

— Sei...

Eu sabia muito mais do que ela pensava, só não podia falar.

— Ele não é mole... — falei concordando, ela parecia reticente e eu queria que ela falasse mais um pouco do que sabia dele.

— Ele quando era menor era apaixonadinho por mim, uma graça. Aí virou adolescente e do nada, pasme, mandou uma foto do pinto pra mim, acredita?

Eu ri. Foi meio que a mesma coisa que ele fez comigo e com a Mariana e deu meio que certo.

— E deu certo?

Ela torceu a cara, envergonhada, levando a mão no rosto.

— Não né, claro que não! — ela criou coragem para continuar, num de segredo safado — Mas o bichinho é pirocudo.

Caímos na gargalhada com o comentário dela, sem ela saber que diabos eu já tinha feito montada naquele garoto.

— Ah! Mas ele disse que vai sair, vai dormir na casa de um amigo, os pais deles deixaram e ele não volta hoje.

Ela ficou pensando, olhando meio pro vazio... Sabe quando alguém quer, mas ainda fica calculando se vai dar merda ou se realmente vale a pena? Então, era isso. Eu confesso que tava ali jogando conversa por puro fogo. Ela era uma gostosa, um mulherão, mas eu tinha um pequeno problema chamado Mariana, que eu não sabia como ia reagir.

Só lembrando que minha prima e eu temos um relacionamento muito estranho. A gente se pega loucamente e não se importa se a outra sair por aí, a única regra que a gente impôs é que uma não pega o namorado da outra e nada além disso. Mas eu sabia que se ela visse eu indo pra cima da gostosona ia se sentir de escanteio.

E eu sou muito piranha. Eu ainda tava ardida da noite anterior, mal conseguindo sentar direito e morrendo de medo de ter que ir no banheiro. Todos os buracos doíam. O quê!? Tá achando que aquela noite saiu de graça?

— Mas eu também nem tenho biquíni, Júlia.

— É, isso eu não posso resolver. Eu até tenho um a mais, mas ele não vai tampar nada.

— Vamos entrar peladas? — a voz dela saiu no meio de uma risada envergonhada.

Era brincadeira, eu sabia que era. Mas sabe quando alguém solta uma só pra ver qual é a sua?

— Eu tenho coragem! — falei toda segura. Eu não tinha coragem porra nenhuma, eu não era doida de entrar pelada numa piscina de gente que eu mal conhecia. Mas seria legal. Do nada veio um flash de nós três na piscina.

— Nossa, seria uma delícia, nadar pelada, nunca fiz, só em motel, mas aí não conta. Imagina só tomar um sol sem roupa nenhuma numa piscina dessas?

Ela falou com cara de sonhadora, olhando pro sol lá fora escaldante e pro azul limpo da piscina.

— Será que meus tios já fizeram isso? — perguntei curiosa.

— Ahhh! Eu acho que sim, sabia? Teus tios tem histórias...

— Sério? Me conta esse babado, quero saber agora...

— Aí, Julinha, eu nem deveria ter falado isso, esquece tá? Eu não posso falar mesmo...

Tava na ponta da língua a frase pra fazer ela soltar, mas eu não podia. Essa daí era boca aberta, mas precisava confiar mais um pouco. Eu preferi ficar quieta, eu sabia que mais tarde, com um pouco mais de conversa, ela soltaria. Mas eu não pude deixar de imaginar que diabos meus tios aprontaram pra ser digno de nota.

— Olha Laura, eu tô com minha prima aqui, ela veio me fazer companhia, mas aqui é bem ruim de ficar a noite. Vem pra cá mais tarde então, a gente pede pizza. O Tomtom não vai estar aqui, a gente faz alguma coisa, o que acha?

Sim, eu tava dando muito mole pra ela.