Capitulo 97

Tava na ponta da língua a frase pra fazer ela soltar, mas eu não podia. Essa daí era boca aberta, mas precisava confiar mais um pouco. Eu preferi ficar quieta, eu sabia que mais tarde, com um pouco mais de conversa, ela soltaria. Mas eu não pude deixar de imaginar que diabos meus tios aprontaram pra ser digno de nota.

— Olha Laura, eu tô com minha prima aqui, ela veio me fazer companhia, se você quiser fazer alguma coisa, seria legal.

A Laura não tirava os olhos da janela, olhando pra piscina lá fora como se fosse um pedaço de céu caído no quintal. O dia tava um forno, aquele solzão batendo forte, água cristalina brilhando, convidando pra gente fazer mergulhar naquela água. Eu olhava para fora e pensava: quem foi o filho da puta que colocou a piscina bem do lado do escritório? Ninguém consegue trabalhar direito com essa tentação ali, né?

— Julinha... — ela falou meio enrolada, como quem tá pesando as palavras, e aí soltou: — Se tu e tua prima toparem, eu entro!

Eu quase engasguei com minha própria saliva. Me endireitei na cadeira rapidinho, cruzei as pernas tentando disfarçar o susto e soltei, incrédula:

— Como assim? Entrada onde? Na piscina? Pelada mesmo? Eu achei que era brincadeira sua, moça! — No meu nervosismo, sem querer, eu disparei uma metralhadora de perguntas.

— É ué! Sem roupa nenhuma. Se tiver só mulher, qual o problema? — respondeu ela, com aquele tom de quem tá jogando o desafio na minha cara.

— Eu não sei... — murmurei, sentindo o rosto esquentar na hora.

Meu coração já tava batendo mais rápido, aquela mistura idiota de vergonha com uma vontade safada subindo pela barriga.

— Você disse dois minutos atrás que tinha coragem, Julinha — ela rebateu, com um sorrisinho de zombaria, me cutucando onde doía.

E tinha razão, eu tinha falado isso, óbvio que menti na cara dura pra me fazer de valente. Olha, eu não sou maluca, tá? Tava engraçado porque eu jamais imaginei que isso ia virar real. Entrar pelada na piscina da casa dos meus tios, com uma mulher que eu mal conhecia? Meu Deus, se minha mãe soubesse... Mas ao mesmo tempo, caralho, só de imaginar a gente três ali, pelada, água geladinha batendo no corpo... já senti um formigamento lá embaixo...

— Deixa eu ver se a Mariana topa? — falei tentando ganhar tempo, porque no fundo eu ainda não tinha certeza se queria mesmo fazer aquela loucura.

Eu peguei o celular, e por puro hábito dei uma olhada nas mensagens antes de chamar a Mariana. No grupo da família tava aquela ladainha de sempre, todo mundo mandando foto de comida e vídeo idiota de gente dançando. Rolei o dedo e vi uma mensagem da minha mãe falando que o padrasto tava melhorando. Suspirei aliviada, e mandei um texto para Mari assim: “VVV”. Na nossa língua isso quer dizer “vem voando, viada!”.

Quando levantei o olho do telefone e me virei pra Laura, ela tava lá, toda reclinada na cadeira do meu tio, me olhando de cima a baixo com aquela cara de safada do caralho. Os olhos dela descendo devagar pelo meu corpo, tipo quem já tá imaginando tudo sem roupa. Senti o ar mudar. Ia começar o ataque, eu sabia.

E ele veio.

— Julinha, posso fazer uma pergunta? Você... sai com garotas também?

Olhei pra cara dela e, com a delicadeza de um elefante dentro de uma loja de cristais, soltei sem filtro nenhum:

— Cê quer saber se eu sou sapatão? Se eu fosse não ia te falar, pra você não desistir de entrar na piscina e eu poder te ver pelada!

Pronto. A confusa aqui quis dar uma de esperta, mas minha boca grande só levantou a bola pra ela cortar com força bem no meio da minha cara.

Ela sorriu devagar, mordeu o lábio de leve e respondeu com aquela voz baixa, rouca, cheia de putaria:

— A gente não precisa entrar na piscina pra você me ver pelada...

Toda puta.

Meu grelo deu uma latejada forte na hora, misturando aquela vergonha quente com o tesão safado que eu nunca consigo segurar. Fiquei vermelha que nem pimentão, rindo sem graça, arrumando o cabelo atrás da orelha enquanto olhava pros lados sem saber onde enfiar a cara. Por dentro eu já tava imaginando ela pelada, e isso me deixava com mais vergonha por que a imagem não ia embora da minha cabeça.

A mulher conseguiu me deixar sem graça de verdade. Eu nunca fui cantada assim por uma mulher mais velha, só a Carla, mas a Carla é prima e puta descarada, então não conta.

— O que foi? — perguntou ela, de braços cruzados, me olhando com aquela cara bem piranha.

— Nada... é que eu só fiquei sem graça mesmo... e minha prima se ouvir isso, vai ficar com ciumes.

Julinha burra, Julinha burra!

Vi na hora que minha resposta deixou ela levemente incomodada. O corpo dela se empertigou na cadeira, ficou mais séria.

— Ah! Desculpa Julinha, eu não sabia. Vocês são namoradas?

— Não... nada disso — respondi rápido, mas como sou bocuda, não parei por aí. — A gente tem um relacionamento aberto, sabe?

Assim que falei, me arrependi. Aquilo era segredo nosso, coisa de família que ninguém precisava saber, aliás, de todo mundo da família só o Tomtom sabia, e ele nem da família era direito.

Ela me olhou um minuto, pensando, depois perguntou curiosa:

— Como funciona essa coisa de relacionamento aberto? Eu sempre tive curiosidade.

— Ah, não tem nada muito combinado não... A gente só se pega quando dá vontade. Mas tem uma regra só: não pode pegar o namorado da outra.

Ela concordou com um som baixo e cara pensativa, claro que ela queira fazer mais perguntas, mas eu preferi ficar quieta, eu meio que tinha dado carta verde dizendo que a gente tinha relacionamento e aquilo ficou esquisito demais na minha cabeça.

Mas graças a Deus ouvi o barulho de passos descendo a escada correndo e era a Mariana que abriu a porta do escritório enfiando só a cara, toda esbaforida, os olhos varrendo o ambiente procurando encrenca.

— Me chamou, prima?

— Entra aí.

Ela entrou, encostou a porta e já ia virando a chave quando me olhou, riu sem graça e desistiu.

— Que foi? Tá tudo bem? — perguntou preocupada.