Capítulo 1
AVISO DE CONTEÚDOEste conto contém cenas de extrema violência, crime, dominação e situações moralmente questionáveis. Não é recomendado para leitores sensíveis. Se esse tipo de narrativa não é para você, sugiro que procure outra leitura.
Eu nunca tive uma adolescência comum. Estudei fora do país, porque ficar aqui significava uma sentença de morte. Quando vinha ao Brasil, nem passava pela minha cabeça pisar em uma balada aberta. Nunca pude me dar ao luxo de ser descuidada. Desde sempre, se eu quisesse sair, fechava o lugar só para mim.
Na verdade, ainda é assim. Tenho um clube que, se fosse por dinheiro, já teria fechado há muito tempo. Mas eu amo aquele lugar. Só entra gente rica. Todo famoso estrangeiro que vem ao Rio passa por lá. E quando não tem famoso, eu mando trazer. Lá dentro, não faltam facilidades para todos os gostos, se é que me entende.
Minha aparência? Simples. Tenho traços bem portugueses — pele clara, cabelo preto e liso. Fiz alguns ajustes genéricos na aparência, porque ninguém é obrigado a carregar certas imperfeições. Rinoplastia para afinar o topo do nariz, um leve aumento nos seios. Não sou um mulherão, mas fico ótima de biquíni. E meu look? Se não custar mais de vinte mil, eu nem saio de casa. Regra pessoal. Eu sei o quanto meu dinheiro é suado, então vou gastar comigo mesma. E se você acha isso fútil? Problema seu.
Segurança nunca é demais. Ando sempre cercada, mas dois caras coordenam tudo.
O primeiro é o Janjão — um negão de quase três metros de altura, músculos de aço e uma expressão que faz qualquer um tremer. Mas a verdade? Tem um coração enorme. Ama chocolates, e toda vez que viajo, preciso trazer uma mala cheia para ele. Inteligente, leitor voraz de filosofia, conselheiro quando preciso. O outro é o Pastor. Religioso, discreto, sempre envolvido com os nossos negócios nas igrejas. A cara dele não diz nada, mas é um negociador nato. Só tem um problema: dedo frouxo demais pro meu gosto. Irritado, impaciente, impulsivo. Mas eficiente. E no fim das contas, é isso que importa.
E tem o Timóteo, meu estagiário. Esse é uma peça rara. Um 171 nato, daqueles que nascem com o dom da malandragem. Só está vivo porque, além de bonitinho, eu achei que ele tinha algo melhor para me oferecer.
Lembra da minha boate? Pois bem, Timóteo ia até lá e aplicava um golpe sofisticado nos cartões de consumo. As pessoas pagavam para ele, e, com um aparelhinho esperto, ele alterava os valores da conta, embolsando o resto. Foi aí que aprendi a odiar gente fodida — porque são sempre eles que tentam meter a mão no meu dinheiro. O Pastor, claro, queria resolver do jeito mais óbvio: levar o garoto para fora e apagar. Mas eu? Bom, eu tenho uma quedinha por homem pilantra. E Timóteo era tudo de bom. Sabe esses cariocas da Zona Sul, tatuados, de fala arrastada, que passam o dia surfando e vivem do dinheiro dos pais? Era ele. Um charme irritante. Mas antes de decidir o que fazer com ele, deixa eu contar como essa história começou.
A gente estava organizando uma festa gigantesca para uns gringos que vieram rodar um filme no Brasil. Não posso dar nomes, mas era gente grande de Hollywood — daqueles que você já viu no cinema mil vezes. Eu estava me divertindo, me dando bem com um deles, quando Janjão mandou me chamar. Eles nunca me interrompem. Só fazem isso quando a coisa é séria.
Ele se aproximou, postura firme, mas voz baixa o suficiente para não chamar atenção.
— Patroinha, a gente pegou o cara do desfalque. Tá na salinha. O que a senhora quer fazer com ele? O Pastor já deu a sugestão dele. A senhora sabe, é sempre a mesma.
Suspirei, desviando o olhar da minha presa da noite.
— Jão, amor, primeiro deixa eu descobrir como ele faz. Não encosta nele. Já subo.
Porque antes de decidir o destino de alguém, eu gosto de entender se ele ainda pode me ser útil. É isso que separa a gente dos vagabundos de morro.
Dei um último beijinho no meu ator gringo — que, coitado, nem fazia ideia de onde estava se metendo — e fui até a salinha conversar com o vagabundo.
A salinha não era apenas uma sala. Era uma cela. Um espaço frio e sem janelas, com uma mesa, duas cadeiras e nada mais. O ambiente era acondicionado para limitar o som. Lá dentro, ninguém ouvia nada do lado de fora. Lá fora, ninguém ouvia ou via nada do que acontecia dentro. Um detalhe que fazia toda a diferença.
Quando cheguei à porta, estendi a mão para o Janjão, que, sem precisar de explicação, me entregou minha arma. Uma .45, rosa.
Sim, rosa. Algum problema com isso, Caralho?
— Jão, ele tá amarrado?
— Tá sim patroinha.
Janjão abriu a porta pra mim e entrou primeiro. Foi até o rapaz, puxou a cadeira dele para trás e conferiu se as amarras ainda estavam no lugar. Depois de verificar tudo, me deu um aceno confirmando que estava em ordem.
Enquanto isso, o moleque não calava a boca.
Falava de direitos, queria um advogado, ameaçava processo. Como se alguma dessas coisas tivesse valor ali dentro. Como se alguém ali dentro se importasse.
Me sentei calmamente na frente dele, sem pressa, sem expressão. Peguei um pino de cocaína, derramei o pó sobre a mesa e comecei a quebrar e separar fileiras. Cada movimento preciso, meticuloso. Obcecado. Não respondi nada.
O silêncio incomodou.
Ele me olhava com os olhos arregalados, tentando entender se eu estava mesmo prestes a dar um teco ali, na frente dele.
— Me conta como você fazia com os cartões.
Minha voz saiu firme, sem levantar a cabeça.
Ele hesitou. Talvez estivesse tentando decidir se eu era completamente louca ou apenas gostava de um teatro. Mas como a confiança não era exatamente uma opção pra ele naquele momento, começou a falar. Explicou o método, os detalhes do golpe. O aparelho, o processo, tudo que eu já sabia. O que me interessava era o esquema.
Ele não estava sozinho nessa. Claro que tinha funcionário envolvido. Alguém tinha que passar a criptografia pra ele. Mas, esperto, não soltou nenhum nome.
Continuei separando as fileiras de pó, sem pressa. Quando terminei, levantei os olhos para ele.
— Você cheira, rapaz?
Ele engoliu seco.
— Não, moça… eu não gosto…
Peguei uma nota de duzentos, enrolei com calma, e apontei para a fileira.
— Então cheira.
Ele ficou imóvel.
— Não, eu disse que eu não cheiro, olha, vamos fazer um acordo e…
— Cala a boca, caralho.
Silêncio.
— Cheira, anda!
Eu queria que ele cheirasse. Assim que bati os olhos nele, uma ideia me veio à cabeça. O dinheiro que ele roubou era troco. Cem, duzentos mil, que fossem quinhentos… Troco de pinga! Um sumiço, uma entrega pra polícia, tanto fazia. Mas antes, eu queria ver até onde ele ia.
Minha voz saiu mais alta, e ele ficou rígido, sem acreditar.
Saquei minha .45 rosa e apontei o cano na direção dele.