Capítulo 2
AVISO DE CONTEÚDOEste conto contém cenas de extrema violência, crime, dominação e situações moralmente questionáveis. Não é recomendado para leitores sensíveis. Se esse tipo de narrativa não é para você, sugiro que procure outra leitura.
Eu acordei cedo, sem escolha. O candidato a governador ia descer no Complexo do Alemão para um comício, e junto disso viriam as inaugurações de sempre: uma clínica meia-boca e uma creche que não ia durar um ano depois das eleições. Tudo financiado com o nosso dinheiro, mas vendido como presente para o povo. A Família decidiu que eu devia estar lá, sorrindo e representando.
Não era novidade para mim. Já tinha passado por centenas desses eventos, apertando mãos sujas, distribuindo sorrisos falsos, fingindo interesse. Uma Lady Di, acenando para uma multidão que me olhava com aquele misto de inveja e admiração. Eu detestava, mas fazia bem. Sabia jogar o jogo.
Essas aparições nunca eram simples. Eu não dava um passo sem uma comitiva inteira me cercando — assessores, imprensa, seguranças, gente do marketing — todos ali para garantir que a imagem da Família permanecesse intocável. Poder tem que ser escancarado, exibido sem pudor. As pessoas precisam ser lembradas de quem manda.
As favelas sempre me pareceram um cenário curioso. A polícia estava no nosso bolso, os traficantes também. Cada arma, cada quilo de droga, cada operação... tudo passava pela gente. E aquelas pessoas ali, coitadas, acenando para mim como se eu fosse uma deusa. Mas também, pudera. Eu estava vestida dos pés à cabeça de Louis Vuitton. Só minha bolsinha comprava umas três ou quatro daquelas casinhas pobres.
Meu estagiário, o Timóteo, corria de um lado para o outro, caneta e caderninho na mão, anotando os pedidos de reunião dos politiqueiros que rodeavam o candidato a governador. Um bando de aventureiros de meia tigela, todos querendo um pedaço do bolo. E sim, estou falando do Timóteo. O mesmo da cocaína. Você se lembra do merdinha? Tá bom, eu sei que você quer saber o que aconteceu com ele. Mas calma, eu conto depois.
Naquele dia, eu estava com ele numa salinha me divertindo um pouco e apontei a arma para a cabeça dele. Mas escuta, aprende uma coisa: nunca entre armada num lugar quando a outra pessoa está acuada e lutando pela vida, ainda mais com cocaína até o talo nas ventas. O desgraçado podia muito bem se soltar, vir para cima de mim, tomar minha arma e me matar. Mas eu sabia o que estava fazendo. Quando peguei o revólver, era só para assustar mesmo. O Janjão tinha tirado as balas. Quando fui conferir a trava, era só para garantir que ele realmente tinha feito isso. Eu atiro desde pequena, sei muito bem como manejar um trabuco.
Depois daquilo, levantamos os dados dele, pegamos de volta a parte do dinheiro que ele tinha roubado, dispensamos o nosso funcionário que estava no esquema — quebrando ele inteiro, claro. Aí fiz uma proposta para o Timóteo: ou ele trabalhava para pagar o que devia, ou eu matava a família dele inteira. Simples. Acho que foi uma boa oferta.
No fim, ele aceitou. Hoje, além de estagiário, virou meu assistente pessoal. Eu maltrato ele, mas é porque gosto dele. E ele... bom, parece gostar também. Nunca reclamou de nada.
O calor do asfalto misturado com o cheiro de fritura e esgoto fazia o ar parecer mais pesado enquanto eu sorria para as câmeras e distribuía simpatia. Tirei fotos com as crianças, apertei mãos, fiz o teatro direitinho. Parte do jogo. Mas precisava de mais. Eu não estava ali só por obrigação, tinha planos. Sempre tive. Política não é sobre quem faz mais, é sobre quem parece fazer mais. E fotos minhas com o povo pegavam bem.
Então resolvi andar um pouco pela favela, ver o dia a dia de perto. Comi um pastel encharcado de óleo e tomei caldo de cana numa barraca suja, coisa que nunca tinha feito na vida. O gosto era bom, e a foto ficaria ótima. Enquanto sinceramente aproveitava aquilo, percebi uma mulher ali perto, sentada com duas crianças pequenas que me chamou a atenção. Uma delas, um bebê gordo e fofo, mamava no peito dela bem ali, no meio da rua em toda a sua paz. Aquela cena mexeu comigo. Meu ponto fraco sempre foi bebê, não sei explicar, mas fico emotiva quando vejo um.
Foi nesse momento que um cara, na casa dos trinta, passou por nós. Olhou para mim, fez aquela cara escrota de "ô gostosa", e quando passou pela mãe amamentando, soltou a pérola:
— Ô… Ô tia do bebê! Eita, hein! Queria era eu estar mamando nessas tetas!
O silêncio veio primeiro. Depois, alguns homens ao redor protestaram, chamando o desgraçado de animal. Até o Janjão, que nunca se abala, balançou a cabeça negativamente. Aquilo, para ele, era o equivalente a um ataque de fúria. Ele me olhou, esperando uma ordem. Eu dei, baixinho: