— Descobre quem é. Manda o dono do morro dar um bote nele. Quando pegarem, me liga.
Janjão acenou discretamente para um dos nossos caras, que saiu logo atrás do sujeito.
— Nossa, que pessoa desagradável! — comentei, como quem apenas desabafa.
A mulher não tinha trato social algum e me respondeu até de forma ríspida, mais por falta de educação formal que virtude.
— É, dona, um babaca. Ele é conhecido aqui, mas só mexe com quem sabe que não vai dar problema. Com mulher de bandido, ele não tem essa coragem, não. Já tomou umas coças, mas os meninos novos no movimento não mexem mais com ele. Dizem que tem um esquema com o gerente novo.
— Ah, é? Que triste saber disso… Mas Deus é por nós, amiga! Ora que melhora.
O cinismo na minha voz era quase palpável. Aquilo só me deixou com mais raiva. Raiva suficiente para perder a paciência com aquela palhaçada toda. Resolvi ir embora dali.
Já era noite quando o telefone tocou. Atendi sem pressa.
— Deus a abençoe, senhora! É o Pastor aqui falando!
— Eu sei que é você, Pastor. O seu número aparece quando você liga.
— Glória a Deus! Olha, o dono do morro pegou o seu boneco lá. Pode matar?
Respirei fundo.
— Não, Pastor. Avisa que eu vou subir. Diz pra polícia que não quero ninguém lá essa noite. Não me mete em tiroteio, entendeu?
— Aleluia! Não vai acontecer isso com a graça de Deus!
— Pastor, quero o dono e o gerente lá. Ouviu?
— Sim, senhora! Pode deixar! Os anjos agirão em nosso favor!
A noite estava pesada. O tipo de escuridão que engole qualquer lampejo de esperança. Entramos no blindado preto, discreto, sem detalhes chamativos. Eu vestia algo simples, sem brilho, sem excessos. Nada que chamasse atenção. O carro deslizava pelas vielas escuras da favela, os becos se abrindo diante de nós. Nenhum farol piscou, nenhuma luz interna foi acesa, nenhum vidro abaixado. Eles sabiam que estávamos chegando.
O silêncio era estranho. A favela inteira parecia contida, como se alguém tivesse dado um toque de recolher. Poucas sombras vagavam pelas ruas. Era como se o próprio lugar prendesse a respiração. Seguimos pelos atalhos, os caminhos que só quem manda conhece, até o alto do morro. O carro parou diante de uma clareira onde a cidade se dissolvia na escuridão da floresta.
O vento batia forte, levantando poeira e trazendo o cheiro ácido de lixo queimado. Um cheiro de morte.
Saímos do carro. Meus olhos varreram o ambiente. Oito homens estavam à nossa frente, um deles ajoelhado, machucado, a cabeça baixa. O dono do morro veio até mim, tentando forçar uma postura de respeito. Estendeu a mão, numa tentativa patética de mostrar educação.
— Fala ae tia, prazer! Eu sou o Menor 3Pika — ele se apresentou com orgulho.
O nome era ridículo. Mas ele acreditava que significava alguma coisa.
— E aí, patroa… dá o papo. A senhora chamou, e nós é fiel, tá ligada?
Sorri de leve, sem pressa.
— Claro, amor… eu confio minha vida em você. Você tá indo muito bem. Parabéns.
Mentira. Eu nem sabia quem ele era direito. Esses caras morrem como moscas, substituídos por outros iguais a cada mês. Eu não perdia tempo acompanhando quem comandava qual biqueira. Tinha gente para isso.
Apontei para o homem ajoelhado.
— Esse é o que eu mandei pegar?
— Sim, senhora.
— E esse é o gerente?
— Exatamente, madame.
O gerente era um verme magrelo, cheio de tatuagens de facção, o olhar inquieto de quem sabe que a qualquer momento pode ser o próximo a cair.
O silêncio ali era brutal. Eles não faziam ideia do que eu estava prestes a fazer. O ar estava frio, carregado de expectativa e medo. Eu sabia o risco que corria ao entrar ali do jeito que entrei. Era arrogância. Poder puro. Eles podiam simplesmente me matar e pegar uma recompensa generosa dos meus Tios ou Primos. Mas não fariam. Eram ralé demais para sequer se aproximar desse nível de gente.
Dei um passo à frente, os olhos fixos no homem de joelhos. Seu rosto estava destruído, um misto de resignação e medo. Ele sabia que ia morrer. Ninguém era trazido para esse lugar e saía vivo. E se saísse… não seria inteiro.
— Fica de pé — ordenei, a voz firme, sem pressa.
Ele hesitou por um segundo antes de se levantar, os movimentos pesados, a respiração curta.
Estendi a mão para o Pastor. Sem dizer nada, ele entendeu o que eu queria. Com toda a calma do mundo, colocou o cabo da minha .45 rosa na minha palma.
Julinha. Esse era o nome dela. Uma homenagem a uma namorada que tive quando era mais nova.
Continua