Capítulo 5
AVISO DE CONTEÚDOEste conto contém cenas de extrema violência, crime, dominação e situações moralmente questionáveis. Não é recomendado para leitores sensíveis. Se esse tipo de narrativa não é para você, sugiro que procure outra leitura.
Cheguei na boate com meus seguranças, como sempre, amor — aqueles dois armários me seguindo como sombras fiéis, Janjão na frente abrindo caminho e o Pastor atrás, provavelmente rezando pra que ninguém tentasse nada idiota. Fui direto pra pista, onde o meu gerente, um cara calejado da noite, tava decidindo sobre a administração da casa. Impressionante, hein? Bastava eu aparecer e todo mundo que me conhecia arrumava um jeito de sumir, como ratos fugindo da luz — eu meio que amava isso, caralho.
Ele não tinha medo de mim, não. Tinha respeito. Estava comigo há séculos, sabia o lugar dele direitinho e era um homem correto. Ah, e uma coisa que eu aprendi nesse mundo podre é que você não mexe com pessoas corretas. Essas você simplesmente não toca. Porque se tocar, você perde o respeito e seu império desmorona que nem um castelo de cartas.
— Patroa, posso dar uma palavrinha com a senhora? — ele me chamou, levantando um braço preguiçoso, sentado numa mesa onde se formava uma fila de funcionários, daqueles de rostos descartáveis que a gente contrata e esquece que existem.
— Claro, meu querido — respondi, caminhando tranquila na direção dele, analisando os rostos daqueles coitados na fila. Uns pardos, uns magrelos, uns com cara de quem precisava de um banho. — Quem são essas pessoas, amor?
— Garçons, cozinha, limpeza, recepcionistas, o de sempre. É sempre bom ter uma lista grande de nomes, sabe como é, contar com pessoas é complicado.
Eu não tinha o menor interesse nisso. Eu só precisava da casa funcionando pra disfarçar os negócios de verdade — lavar uma grana, fechar um acordo, talvez sumir com alguém na salinha de trás. Parei ao lado dele, esperando ele decidir se podia falar comigo na frente daquelas pessoas ou se a gente ia pro escritório. Porque, olha, se fosse algo bom, eu já tava sentindo o cheiro de problema no ar. E problema, pra mim, sempre significa diversão.
— Um senhor… — ele buscou um papel com algo escrito — Esse senhor aqui, está louco atrás da senhora.
Eu peguei o papel da mão dele. Era conhecido, um familiar meu — daqueles parentes de merda que só aparecem pra sugar. Ele não era uma pessoa envolvida com a máfia, era apenas um familiar. O nome dele era tio Antônio, ele era na verdade um amigo do meu pai que chamava a gente de sobrinhas, ele resolvia coisas para gente antes de eu nascer, mas era molenga demais e não gostava de se comprometer, ele era desse tipo de pessoa correta que eu falei. Olhei para o papel, fiquei curiosa justamente por isso, qual motivo uma pessoa como ele estaria me procurando?
— Sabe o que ele quer? — perguntei curiosa.
— Ele falou algo sobre uma data pra uma festa da filha dele de quinze anos, eu disse que tinha a data, mas ele insistiu em falar com a senhora — ele deu de ombros falando sem dar importância, aquilo era coisa comum pra ele. — Ele deve querer alguma coisa a mais na festa.
Eu ri, meu gerente sabia bem como as coisas funcionavam.
Eu guardei o papel na bolsa, depois eu ligaria. Agora eu tinha assuntos mais importantes pra lidar e tinha que me preparar. Me aproximei mais dele, como se fosse compartilhar um segredo e perguntei:
— Alguns desses rapazes vieram pra serem michê, dançarinos, gogo boy ou algo do tipo? — perguntei curiosa, já de olho num negão forte de cabeça raspada, que tinha chegado depois de mim no fim da fila.
Ah, amor, que pedaço de carne preta e dura. Músculos esticando aquela camisa barata, fedendo a pobre, olhos baixos como se o negão já soubesse que não passava de um brinquedo caro esperando pra ser usado, quebrado, jogado fora. Eu já sentia o calor subindo, úmido, escorrendo devagar entre as coxas, quente, pulsante, só de imaginar aquele corpo enorme tremendo na minha frente, suando, implorando sem abrir a boca.
— Não, senhora, quando aparece algo do tipo, eu mando direto pro Timóteo — ele respondeu, dando de ombros como se fosse a coisa mais óbvia do mundo. — Esses aí raramente vêm sem indicação.
Esse ainda não tinha aparecido, claro. Era função do Timóteo facilitar meus desejos quando eu precisava de carne fresca, e agora eu ia ter que agir por conta própria. Que saco. Olhei pro Janjão e pro Pastor, indiquei com o queixo o negão do fim da fila — aquele que eu queria — e fui direto pro meu escritório, os saltos batendo firme no chão ecoando pela boate inteira.
Na sala, tudo limpo da noite anterior, garrafas de bebida caras alinhadas, o ar pesado com meu perfume — aquele cheiro doce e caro que eu amo — e o pino de cocaína jumbo já posto na mesa, ao lado do canudo de ouro branco. Me joguei na cadeira, irritada pra caralho com a ausência do Timóteo, e comecei a preparar as fileiras enquanto fuçava o celular atrás de alguma mensagem dele.
— Meu Deus, esse pino não acaba nunca, vai dar umas vinte carreiras aqui fácil!
E lá estava a mensagem dele, o vagabundo: “Vou me atrasar, como eu sei que não vai se lembrar, você mandou eu buscar e levar a Amanda pessoalmente pra boate.”
— Ah! Eu tinha esquecido completamente daquela menina que queria ser puta, meu Deus, onde eu ando com a cabeça? — falei comigo mesma, balançando a cabeça, já imaginando que ia precisar reforçar a vitamina B12 pra ajudar nessa memória de merda.
Da porta, o Pastor entrou sozinho, com aquele jeito malandro de sempre, andando de lado, olhos correndo por cada canto da sala como se esperasse que o diabo fosse pular de trás da cortina. Ele já chegou falando suas bobagens, mas eu sempre me maravilhava com o quanto o filho da puta era atento a tudo.
— Madame, o rapaz foi revistado direitinho e a ficha dele é limpíssima, glória a Deus — anunciou, parando na minha frente e baixando o olhar pra mesa. O rosto dele mudou um pouco ao ver a quantidade de pó que eu estava separando ali, e ele soltou, com aquela cara de preocupação piedosa: — E que Deus abençoe toda essa cocaína, que ela lhe satisfaça e que os anjos do Senhor protejam a senhora contra o vício da gula das drogas.
Eu me joguei pra trás na cadeira, rindo alto pra caralho quando ouvi aquilo.
— Gula das drogas, Pastor? Que pecado novo é esse? Um nome bonito pra narizinhos nervosos que não se controlam?
— É isso mesmo, Patroazinha. Tem muita abundância nessa mesa, a senhora é uma mulher abençoada por Deus, mas eu fico mais sereno sabendo que a senhora tem a sabedoria do Rei Salomão e vai dividir isso com mais… — ele se inclinou um pouco, como se estivesse contando as fileiras, e completou: — umas cinquenta pessoas, no mínimo.
— Pastor, fica tranquilo que o senhor não vai ter que encomendar meu corpo tão cedo, não — retruquei, ainda rindo, e estendi a mão pra ele, aquele gesto que ele já conhecia de cor.
Ele sorriu de leve, sacou da cintura a minha .45 rosa — linda, brilhando naquela luz baixa — e colocou na minha palma sem dizer uma palavra. Depois virou as costas e saiu do escritório, deixando a porta entreaberta pro próximo brinquedo entrar.
Guardei a .45 rosa na gaveta com um clique seco, sem cerimônia, e fiquei acompanhando com os olhos o negão entrar na sala.
Ele veio como quase todo mundo que pisa no meu escritório: uma mistura de medo e admiração escorrendo pelos poros. Aprendi isso há muito tempo — o ambiente opulento faz o serviço sujo por mim. Quem entra sem medo oferece perigo. Quem entra só admirado é pobre pra caralho. Sem medo e admirado é bandidinho de esquina. Sem medo e sem admiração é bandido dos grandes. É por isso que esses escritórios têm que ser ostentação pura: eles contam tudo sobre quem tá na sua frente antes mesmo de abrir a boca.
O homem parou bem no centro, mãos cruzadas atrás das costas, postura ereta, queixo alto — posição militar clássica. Bati o olho e já saquei: ex-Exército, provavelmente chutado pra rua por ser burro demais para passar em uma prova, agora tentando a vida como vigilante particular. Conheço centenas desses coitados.
— Você veio procurar trabalho de quê aqui, amor? — perguntei, sem tirar os olhos do celular, esperando mais uma mensagem do Timóteo que não chegava.
— Segurança, dona — respondeu firme, voz grave, cheia de convicção, como se tivesse ensaiado na frente do espelho.
— E você tem alguma experiência em segurança?
Abri a gaveta de novo, devagar, sem deixar que ele visse o que tinha lá dentro — só o movimento, só a ameaça velada, pra ver como o corpo dele reagia.
— Você sabe quem eu sou? — perguntei, voz baixa, desinteressada, enquanto digitava rápido no celular mandando o Timóteo se apressar logo com aquela putinha da Amanda.
— Sei sim, madame — respondeu ele, respirando fundo, os olhos inevitavelmente caindo nas fileiras perfeitas de pó espalhadas pela mesa como se fosse uma boca de fumo inteira organizada pra uma festa particular. — A dona desse lugar.
Resposta errada, pensei, sentindo um sorrisinho malicioso puxar o canto da minha boca. Coitado. Achava que estava numa entrevista de emprego normal.
continua

