Na sala, tudo limpo da noite anterior, garrafas de bebida caras alinhadas, o ar pesado com meu perfume — aquele cheiro doce e caro que eu amo — e o pino de cocaína jumbo já posto na mesa, ao lado do canudo de ouro branco. Me joguei na cadeira, irritada pra caralho com a ausência do Timóteo, e comecei a preparar as fileiras enquanto fuçava o celular atrás de alguma mensagem dele.
— Meu Deus, esse pino não acaba nunca, vai dar umas vinte carreiras aqui fácil!
E lá estava a mensagem dele, o vagabundo: "Vou me atrasar, como eu sei que não vai se lembrar, você mandou eu buscar e levar a Amanda pessoalmente pra boate."
— Ah! Eu tinha esquecido completamente daquela menina que queria ser puta, meu Deus, onde eu ando com a cabeça? — falei comigo mesma, balançando a cabeça, já imaginando que ia precisar reforçar a vitamina B12 pra ajudar nessa memória de merda.
Da porta, o Pastor entrou sozinho, com aquele jeito malandro de sempre, andando de lado, olhos correndo por cada canto da sala como se esperasse que o diabo fosse pular de trás da cortina. Ele já chegou falando suas bobagens, mas eu sempre me maravilhava com o quanto o filho da puta era atento a tudo.
— Madame, o rapaz foi revistado direitinho e a ficha dele é limpíssima, glória a Deus — anunciou, parando na minha frente e baixando o olhar pra mesa. O rosto dele mudou um pouco ao ver a quantidade de pó que eu estava separando ali, e ele soltou, com aquela cara de preocupação piedosa: — E que Deus abençoe toda essa cocaína, que ela lhe satisfaça e que os anjos do Senhor protejam a senhora contra o vício da gula das drogas.
Eu me joguei pra trás na cadeira, rindo alto pra caralho quando ouvi aquilo.
— Gula das drogas, Pastor? Que pecado novo é esse? Um nome bonito pra narizinhos nervosos que não se controlam?
— É isso mesmo, Patroazinha. Tem muita abundância nessa mesa, a senhora é uma mulher abençoada por Deus, mas eu fico mais sereno sabendo que a senhora tem a sabedoria do Rei Salomão e vai dividir isso com mais… — ele se inclinou um pouco, como se estivesse contando as fileiras, e completou: — umas cinquenta pessoas, no mínimo.
— Pastor, fica tranquilo que o senhor não vai ter que encomendar meu corpo tão cedo, não — retruquei, ainda rindo, e estendi a mão pra ele, aquele gesto que ele já conhecia de cor.
Ele sorriu de leve, sacou da cintura a minha .45 rosa — linda, brilhando naquela luz baixa — e colocou na minha palma sem dizer uma palavra. Depois virou as costas e saiu do escritório, deixando a porta entreaberta pro próximo brinquedo entrar.
Guardei a .45 rosa na gaveta com um clique seco, sem cerimônia, e fiquei acompanhando com os olhos o negão entrar na sala.
Ele veio como quase todo mundo que pisa no meu escritório: uma mistura de medo e admiração escorrendo pelos poros. Aprendi isso há muito tempo — o ambiente opulento faz o serviço sujo por mim. Quem entra sem medo oferece perigo. Quem entra só admirado é pobre pra caralho. Sem medo e admirado é bandidinho de esquina. Sem medo e sem admiração é bandido dos grandes. É por isso que esses escritórios têm que ser ostentação pura: eles contam tudo sobre quem tá na sua frente antes mesmo de abrir a boca.
O homem parou bem no centro, mãos cruzadas atrás das costas, postura ereta, queixo alto — posição militar clássica. Bati o olho e já saquei: ex-Exército, provavelmente chutado pra rua por ser burro demais para passar em uma prova, agora tentando a vida como vigilante particular. Conheço centenas desses coitados.
— Você veio procurar trabalho de quê aqui, amor? — perguntei, sem tirar os olhos do celular, esperando mais uma mensagem do Timóteo que não chegava.
— Segurança, dona — respondeu firme, voz grave, cheia de convicção, como se tivesse ensaiado na frente do espelho.
— E você tem alguma experiência em segurança?
Abri a gaveta de novo, devagar, sem deixar que ele visse o que tinha lá dentro — só o movimento, só a ameaça velada, pra ver como o corpo dele reagia.
— Você sabe quem eu sou? — perguntei, voz baixa, desinteressada, enquanto digitava rápido no celular mandando o Timóteo se apressar logo com aquela putinha da Amanda.
— Sei sim, madame — respondeu ele, respirando fundo, os olhos inevitavelmente caindo nas fileiras perfeitas de pó espalhadas pela mesa como se fosse uma boca de fumo inteira organizada pra uma festa particular. — A dona desse lugar.
Resposta errada, pensei, sentindo um sorrisinho malicioso puxar o canto da minha boca. Coitado. Achava que estava numa entrevista de emprego normal.
continua