Capítulo 1
Não vou chorar pitanga nem posar de vítima. Não teve “ai, a vida foi cruel comigo” me empurrando pra prostituição. Longe disso. Sou filha de classe média, já fui pra Disney, meu pai pagou cursinho caro, quando passei na faculdade ganhei carro zero e tudo mais. “Ah, então você era adolescente rebelde com treta em casa?” Não. Zero drama. Tirando minha avó que me odiava por motivos que nunca entendi, sempre fui amada e respeitada. Sempre tive a corda solta, muita liberdade pra fazer o que eu quisesse, e também nunca fui a loucona sem freio.
Sexo nunca foi compulsão. Antes do meu primeiro programa eu já tinha transado com uns vinte caras. É bastante pra uma garota “normal”, eu sei. Você já quer me chamar de puta? Eu sou mesmo. Só que na época eu não me via assim, eu só vivia intensamente e curtia muito.
Desculpa, mas tem coisa que a galera não entende: sempre foi fácil arrumar alguém. Eu sempre fui bonita, bem vestida, viajada. Quem tenta me ofender por ter dormido com tanta gente naquela fase é porque, né… teve poucas oportunidades e nem imagina como isso deve ser. Recalque.
Toda vez que eu sento na cadeira do meu analista e ele pergunta por que eu entrei nesse mundo, eu nunca sei responder direito. Digo que foi por dinheiro — o meu, não o dos meus pais —, por independência talvez. Mas isso é meia verdade. Quando eu via as outras meninas exibindo bolsas caras, viagens, jantares, eu sabia que podia ter o mesmo. Bastava passar o cartão.
E se eu seguisse o caminho certinho, terminasse a faculdade, eu teria emprego, salário bom, estabilidade. Eu tinha privilégios, e sempre soube disso. Gosto de pensar que entrei por poder. Pela adrenalina de fazer o que é “errado”. O controle que o sexo dá, a forma como você pode tirar algo das pessoas só com o corpo… me excita só de lembrar. Mas isso é só a minha versão — meus divertidamentes discordariam.
Se, lendo minhas histórias, você achar que entendeu o verdadeiro motivo de eu ter entrado na prostituição, me manda um e-mail. Quem sabe eu te dou um desconto!
Eu também não mergulhei de cabeça nesse universo assim de cara. Fui tateando, com medo, passo a passo. Gosto de ir devagar, sentir o chão antes de correr.
Sou uma mulher branca, cabelo naturalmente preto, levemente cacheado — dá pra brincar com mil penteados. Meu corpo é de tamanho médio, tudo no lugar certo, proporção boa. Daria uma ótima modelo de revista de lingerie, aliás, coisa que eu compro compulsivamente. Minha beleza natural é discreta, daquelas que você nota sem saber por quê. Mas quando eu me arrumo… eu viro outra. Uma beldade monstruosamente linda. E foi assim que tudo começou. Eu lembro da conversa até hoje.
A aula tinha virado velório. O professor resolveu falar para sete almas numa sala feita para sessenta. Ele falava sem parar e eu piscava pesado no fundão. Eu estava colada na Gio, que dormia sem vergonha nenhuma.
— Acorda, porra. Tu vai assistir essa merda comigo — falei, cutucando o ombro dela.
Ela voltou devagar, voz arrastada, num sussurro.
— Ah, cara… ontem eu fiz presença numa festa. Terminou tarde demais. Foi um inferno voltar para casa.
— Presença VIP? Isso paga mesmo?
— Paga bem pra caralho. — ela bocejava mais do que conseguia pronunciar a resposta.
— E o que tu tinha que fazer? — perguntei enquanto balançava a mão para espantar o cheiro de boca dormida que ela exalava.
— Ficar lá aguentando cantada. Às vezes pediam pra divulgar produto, ser host, sorrir pra foto. No geral era roupa curta e paciência de aço pra macho bêbado.
— E quanto? Por quanto tempo?
Ela pegou o celular, fuçou e me mostrou a tela.
— Dependia. Tinha de quatro, seis, oito… até doze horas.
Eu vi o que ela tinha me mostrado na tela, um recibo de PIX.
— Caralho… uma grana boa — senti meu olho brilhar de ganância. — Me coloca nisso aí.
— Tá. Eu te levo na agência depois. Tem que fazer umas fotos, preencher cadastro. Aí te chamam quando rolar. Eles estão sempre caçando gente.
Depois dessa conversa, ainda naquela semana, nós fomos à tal agência. A recepção ficava num segundo andar sem ventilação, ar-condicionado cuspindo vento morno, cheiro de laquê e café requentado. Um mar de pernas cruzadas, saltos batendo no piso, meninas com pastinhas transparentes no colo. Havia um milhão de mulheres na fila pra fotos e ficha. Eu quase desisti — foi a Gio que me segurou.
— Ahn não, sua vaca! — ela rosnou, apertando meu braço. — Tu me fez vir aqui contigo, agora tu vai ficar.
Fiquei. Entreguei RG, assinei termos que ninguém lia, medições com fita. Uma assistente anotou tudo a seco, sem levantar a cabeça.
— Tamanho P em cima… 38 embaixo… cabelo natural? — ela perguntou.
— Natural — respondi, prendendo o riso.
Me levaram pra um estúdio improvisado. Fita no chão marcando onde eu devia parar, um fundo branco encardido, um ring light exagerado. O fotógrafo tinha pressa.
— Vira um pouco o queixo… menos boca… agora dá um sorriso que não é sorriso — ele falou, sem olhar nos meus olhos. — Tira a jaqueta. Cabelo pro lado. Mãos no bolso. Isso.
Flash, pausa, flash. Eu obedecia e, aos poucos, comecei a gostar do jogo. Era simples: eu me movia, eles pediam mais. “Controle”, pensei. Aquilo já me alimentava.
Depois rolou uma entrevista rápida com a booker. Mulher de coque milimétrico, unhas curtas, olhos que pesavam cada resposta.
— Estuda o quê? Tem disponibilidade à noite? Aguenta salto por oito horas? E bebida? — ela atirou.
— Direito. Sim. Sim. Não bebo em trabalho — devolvi, firme.
— Ótimo. Precisa de vídeo também — ela disse, chamando um cara com celular.
Encostaram-me numa parede grafitada do corredor. Luz dura, microfone improvisado.
— Te apresenta, gira, anda até a câmera, para, olha e fala teu nome, idade, altura. Depois faz “olho de festa”, “olho de convite”, “olho de porta de camarote” — ele pediu, rindo da própria piada.
Eu fiz. Girei devagar, caminhei no salto como se já fosse minha passarela, parei, levantei o queixo, entreguei três versões de olhar que eu nem sabia que tinha. “Olho de porta de camarote” virou um meio-sorriso perigoso. Ele assentiu.
Dias depois eu voltei. Nova entrevista, agora com outro agente, terno azul, barba bem aparada.
— Aqui é simples — ele disse, cruzando os dedos. — Você não vende nada que não queira vender. Presença, hostess, imagem. Regras claras. Pontualidade é tudo. E atitude. Consegue?
— Consigo.
Ele rolou minhas fotos no tablet, parou numa em que eu estava de perfil.
— Boa linha. Discreta e cara de problema caro, do jeito que contratante gosta — comentou, seco. — Te aviso ainda essa semana.
Voltei pra casa leve e elétrica. Passei a noite pensando na luz batendo no meu rosto, na fita métrica, no “olho de porta de camarote”. Quando o celular vibrou dois dias depois, atendi na primeira chamada.
— Aprovada — a voz da booker veio curta. — Sexta, 20h. Presença de seis horas. Dress code: preto justo, salto alto, cabelo solto. Briefing por e-mail.
Em casa, contei pros meus pais. Eles até ficaram orgulhosos de eu querer ter o meu próprio dinheiro, mas não curtiram o método. Me fizeram prometer que seria algo passageiro — “no máximo até o meio da faculdade” — e que depois eu procuraria outra coisa. Disseram que iam me apoiar, e até me incentivaram a ser a melhor “sei lá o que” daquilo.
Minha avó, lembra dela? A que me detestava? Só disse: “isso é coisa de puta. E vão te chamar de puta se tu fizer isso.” Na hora eu fiquei irritada, mas pensando bem, a velha tinha um dom. Profetisa. A mulher via o futuro.

