Capítulo 2

No meu primeiro evento, o que mais me incomodou foi o salto. Horas parada, sorriso travado, música alta e aquele tipo de elegância artificial cansativa demais. Era um evento de luta, num camarote de gente rica. Nunca recebi tanta cantada na vida. Nem no carnaval. Os caras desfilavam propostas: passeio de lancha, voo de helicóptero, jantares caros. Cada um querendo provar o tamanho do próprio bolso. E o mais engraçado é que a maioria era até interessante — bem-vestidos, perfumados, confiantes.

E eu só ria e concordava. Nada além disso.

Foi nesse primeiro evento que eu falei, pela primeira vez, com outra GP — sem nem perceber. Eu ainda era inocente demais pra entender o código das coisas. No intervalo, sentei pra comer qualquer coisa, já morta de tédio, e uma menina se aproximou.

Tinha um sorriso vivo, fazia umas caretas absurdas e, em segundos, voltava a ficar séria, como se nada tivesse acontecido. Ninguém percebia. Sentou ao meu lado, pegou um sanduíche e começou o papo:

— Primeira vez, né? — ela perguntou, arqueando uma sobrancelha, como quem já sabia a resposta.

— É tão óbvio assim? — respondi, rindo meio sem graça.

Ela deu uma risadinha curta, mordeu o pão e me olhou de cima a baixo.

— Amiga, quando aparecer um partido bom, você passa para as amigas se não quiser.

Eu olhei pra ela, curiosa.

— Como assim, partido bom?

Ela riu da minha cara com prazer, como se eu tivesse perdido um segredo óbvio do universo, e apoiou o cotovelo na mesa.

— Xuxu, metade das meninas aqui fazem programa. Tu não é GP, né?

— Prostituta? — a palavra me pegou de surpresa, mas não me feriu. — Nãoooo!

— Então presta atenção: quando aparece um carinha tipo o do avião, tu dizia assim: “olha, eu sou comprometida, mas a minha amiga ali é solteira e doida por avião”. Entendeu?

Eu já sabia que naquele circuito tinha muita, muita puta misturada. Achava até que as agências colocavam de propósito pra azeitar o negócio. No começo isso me dava medo; a Gio dizia que era paranoia minha. A mulher na minha frente era obviamente uma GP, bastava olhar. E tudo bem por mim. Zero problema.

O intervalo era curto, então eu engoli a curiosidade. Em vez de entrevista, fiz logística. Todo cara que cheirava a dinheiro eu encaminhava pra ela. Um toque no ombro, um “Aquela ali tem a tua cara, ela bem tá afim de você”, sorriso de catálogo, corpo meio de lado pra liberar passagem. Vi ela passar quatro, cinco cartões só diante de mim, fora os que eu não vi. Os homens iam até ela como se ela fosse mosca na bosta.

Aprendi rápido a separar cantada de intenção de compra: cantada falava da lancha; intenção perguntava pela agenda. Cantada elogiava meu vestido; intenção queria saber “como funcionava”. Quando um de relógio pesado apareceu com papo de jato, eu usei o script dela.

— Eu sou comprometida — falei baixo, com um riso pequeno — mas a minha amiga ali é doida para conhecer esses lugares.

No fim do evento, quando o coordenador fez a contagem das meninas, ela passou por mim de novo, guardando os cartões na clutch.

— Boa curadoria, novata — disse, piscando, já séria no segundo seguinte. — Olha, se rolar algo à partir disso eu te dou uma comissão boa, tá?

Eu só assenti. O salto ainda doía, e nem precisava da comissão, eu fiz pela zoeira. Nunca, jamais alguém podia saber que eu adiantei trabalho pra puta. Isso não é coisa que se coloca no LinkedIn.

Quando acabou tudo, tinha um camarim. A Gio tinha sumido, ela tinha ficado do outro lado da festa e eu não a vi o evento inteiro. Eu liguei, mas ela não atendeu. Na hora me veio uma coisa na cabeça: “Será que… mas meu Deus, a Gio?” Agora eu via tudo com outros olhos.

O camarim parecia um aquário quente de perfume e tecido. Vestidos pendurados em cabides improvisados, bojos virados do avesso, zíperes brigando com costas suadas. Sutiãs voavam de uma bolsa pra outra, meia-calça enroscava em anéis, glitter no chão como sal grosso. Tinha rímel carimbado em guardanapo, laquê fazendo nuvem e um secador urrando no canto. As meninas trocavam de roupa rápido, sem cerimônia, aquela nudez funcional que não tá nem aí para quem olha. Gargalhadas, reclamações sobre salto, uma fofoca atravessando a outra. Era curiosamente erótico do jeito mais prático possível: pele, pressa, espelho.

No meio da bagunça, aquela garota veio até mim e falou:

— Você tá de carro?

Coisa comum pra mim era dar carona, e eu falei:

— Tô sim. Quer carona?

— Só se a gente parar num posto pra tomar uma saideira, topa?

— Eu não bebo, mas te acompanho. Vamos?

Sim, outra curiosidade sobre mim é que nessa época eu não bebia. Eu não comecei a beber pra encarar meus clientes, e sim porque eles enchiam o saco insistindo que eu bebesse pra acompanhar. Aí eu pedia a bebida mais cara que tinha pra eles pararem de querer me deixar bêbada. Fácil assim.

Paramos num posto depois, já com roupas mais confortáveis. Eu estava exibindo um belo de um chinelo com o meu vestido preto longo de festa que custou o olho da cara. Ela riu horrores disso e me invejou muito.

— Meu Deus, você tá mocoronga demais, mas como eu queria tirar esse salto!

— No porta-malas deve ter mais um par, pega lá.

O posto tinha aquela luz branca estourada que deixava tudo feio. Cheiro de gasolina, gente fumando sem ser incomodada e filas de carros nas bombas enchendo tanque. Gente entrando e saindo da conveniência, ninguém parado tempo suficiente para perceber que duas mulheres estavam falando de um assunto que não devia ser público. Ela segurava a garrafa de cerveja com as duas mãos, como quem se protege. Eu com minha coca zero, gelando meus dedos.

Um ventinho frio batia e aliviava aquele cheiro de posto de gasolina. A cada carro que parava, as duas olhavam por reflexo. Era cenário de conversa rápida, não confissão.

Ela não tinha falado claramente que era GP mas, mesmo assim, eu perguntei.

— Eu sei que você pode não querer falar disso, mas você é GP?

Ela soltou um riso curto, nervoso, como quem admite um crime sem querer. Não disse nada. Só balançou a cabeça afirmando. Olhou pro chão. Depois pro lado. Como se estivesse vendo se alguém ouviu.

— Meu Deus, mulher! — minha voz saiu alta demais. Dois caras na porta da conveniência viraram pra gente. Eu abaixei o tom. — Eu tenho muitas perguntas pra fazer.

Ela fechou a cara. Baixou a garrafa. A postura era de quem queria cortar o assunto pela raiz.

— Tá… já sei até as perguntas — ela disse, sem olhar pra mim. — Como eu entrei nessa. Se eu fui abusada na infância. Se minha mãe morreu de câncer. Ah, já sei… se eu sou compulsiva sexual. Essa sempre perguntam.

— Não, não. Eu nem pensei nisso. Eu queria saber é quanto vocês fazem em média por mês?

Ela respirou pesado. Abaixou o olhar. Passou o polegar no rótulo molhado da garrafa. Era um gesto de defesa, não de conversa. Olhou ao redor como se temesse alguém ouvindo. Deu uma risada vazia.

— Mais uma…

Parou ali. Silêncio. Eu achei que tinha pisado feio. O clima ficou duro. O zumbido do freezer da conveniência parecia mais alto que antes.

Aí ela continuou, mas sem vontade.

— Eu não ganho mal. Não faço muitos programas. Eu tô num book rosa legal… mas tiro uns dez ou quinze. Às vezes dobra esse valor.

O jeito como ela falou me entregou tudo: frase rápida, número jogado, ombros tensos. Era resposta mínima, calculada pra não incentivar mais nada.

Eu pensei na hora que ela estava jogando os números para baixo. Aquela coisa de medo de olho gordo. Medo de abrir demais. Meu pai era um que fazia isso, quando perguntavam quanto ele fazia por mais ele sempre mentia muito, mas muito mais para baixo.

— Mas isso é um bom dinheiro — eu disse, pensativa. — E o trabalho é ruim?

A pergunta bateu como pedra. Ela endureceu o maxilar. Desviou o olhar pra bomba de gasolina. Mexeu o pé no chão, desconforto explícito.

— Cara… ser puta é foda, né? Nunca é fácil. Mas a gente vai levando. LITERALMENTE.

A piada saiu mais como defesa que humor.

A gente riu.

Riso torto.

Riso que diria que era hora de eu parar com as perguntas, mas eu não parei.