Capítulo 3
O posto seguia com aquele ar frio de madrugada. Luz branca forte, chão riscado de pneu, o barulho constante da bomba enchendo tanque. Quando voltei com a cerveja e o chocolate, ela já estava mexendo no celular, mas guardou quando me viu. Pegou o chocolate como quem precisava de açúcar urgente. Comeu mais da metade sem perceber.
— Eu tô pra entrar na TPM, filha. Pede outro lá — ela riu, meio sem graça, lambendo os dedos.
Eu não ia perder a deixa.
— E como tu trabalha quando tá menstruando?
Ela respondeu como quem fala de trocar pneu, natural e prática.
— Depende. No geral eu bloqueio a agenda. O problema não é só o sangue descendo. É o desconforto, o humor, a barriga inchada… tudo. Mas dá pra pegar só serviço de massagem, strip, role play, essas coisas mais de boa.
Ela me olhou com uma expressão que dizia “tu vai gostar dessa”.
— E tem uma dica que toda mulher deveria conhecer…
— Fala logo, porra.
— A gente coloca uma esponjinha e atocha lá perto do útero. Se tu precisar muito, funciona. Mas pode vazar dependendo do fluxo e incomoda um pouco. Eu uso só nos últimos dias do ciclo ou quando estou com escape pra não perder trabalho, sabe?
— Dica boa, hein… — desencostei do carro e fiquei de frente pra ela, braços cruzados. — E quando o cliente é muito feio ou esquisito?
Ela deu um gole na cerveja e gesticulou com a garrafa.
— Vou te dizer que é incomum, sabia? Velho aparece bastante, isso é esquisito demais… mas gente rica é menos feia. Coisa estranha, né?
— Ah, mas velho… tirando o fato de ser velho, é fácil. Ele dá uma e morre e pronto.
Ela gargalhou alto.
— Porra nenhuma, minha filha! Os desgraçados se entopem de Tadala. Aí tu que se vira com a borracha meia-bomba deles.
Fez uma careta de nojo e riu de novo. A gente entrando e saindo da conveniência nem imaginava o tipo de conversa que nós duas estávamos tendo ali naquele carro.
As minhas perguntas eram genuínas. Eu estava realmente curiosa sobre aquele mundo, e quanto mais ela falava, mais eu queria saber. Tinha algo nela que me chamava atenção — e não, eu não era sapatão —, mas ela era bonita, confiante, interessante demais pra passar batido.
— É comum mulher chamar outras mulheres? Tu pega? — perguntei, e só depois percebi o quanto aquilo soava pessoal. Eu não queria saber das preferências dela, mas já tinha falado.
Ela deu uma risadinha curta, virou a garrafa de cerveja na mão e respondeu:
— Não é muito comum, não. Quando chamam, geralmente é pra dar de presente pro marido. Tem umas que pedem “consultoria”, acredita? A gente vai lá e ensina, tipo aula prática. E tem as que querem mesmo, mas é incomum…
— Mas tu faz mulher? — insisti, curiosa.
— Olha, eu não gosto de mulher — ela respondeu, séria. — Eu aviso logo: até faço, mas sou hetera. Com homem é mais fácil. Tu vira a raba e deixa o cara se acabar, ou tenta finalizar ele no boquete antes. Com mulher, tu tem que gostar mesmo, se envolver, meter a cara no sentido literal.
— Poxa vida, já tava pensando em te contratar aqui — falei, rindo, só pra quebrar o clima.
Ela riu alto, botou a mão no rosto e fez um biquinho, simulando um “awwn” carinhoso. Quando parou de rir, me olhou diferente, com um ar curioso.
— Tu tá perguntando disso demais… — ela disse, inclinando a cabeça. — Tu não tava pensando em…? — fez uma pausa, me encarando. — Não, né?
Eu não tinha comentado, mas eu tava menstruada naquele dia. E por que isso importava? Porque a conversa me deixou excitada. A imagem dela chegando, atendendo o cliente, executando o roteiro… minha cabeça rodou.
Explicação rápida pro público masculino distraído: quando a gente tá menstruada e excitada ao mesmo tempo, rola overlap de sensações. Tem lubrificação e tem sangue. A umidade mistura. O calor aumenta. O pulso no baixo-ventre bate junto com cólica leve. A calcinha pesa, mas não é só sangue. É tesão também. Dá para sentir o absorvente roçando na sinetinha do diabo perfeitamente, tudo fica muito, mas muito mais sensível ao ponto de incomodar e obrigar você em agonia querer se apertar forte.
Eu tava acesa. Só não queria dar pinta, pra não passar ideia errada pra garota. Mantive o rosto neutro, cruzei as pernas devagar, respirei fundo, e deixei a conversa seguir como se meu corpo não tivesse virado interruptor em curto.
— Não, jamais, mas eu tenho umas fantasias, acho que eu faria uma vez para ver como é. Sabe?
— Amor, isso é fetiche. Você combina com seu namorado e vai, não precisa se arriscar a ir na casa de um completo desconhecido — ela falou em tom de reprovação.
— Mas não é a mesma coisa. Não tem esse risco de saber quem você vai encontrar. Deve ser ótimo tu chegar lá e encontrar um cara foda, lindo, né?
Eu baixei os olhos, senti o rosto esquentar. A fantasia perdeu o brilho na hora com a cara fechada dela me reprovando dizendo: sua burra!
— É, mas esse cara lindo não tá nem aí pra você na maioria das vezes. Vai te comer e te tratar igual lixo. Zero sentimento — ela fez uma pausa; parecia estar falando de coisas que viveu. — E como você vai se sentir com isso?
O silêncio ficou pesado. Só o barulho da pista de lavagem do posto e o gelo batendo no copo dela. Eu não soube o que responder.
— É, você tem razão — falei, por fim.
— Pra entrar nessa vida você precisa de um plano muito claro de como entrar e quando vai sair. E do que vai encontrar no meio do caminho, principalmente.
Eu fiquei quieta, pensativa com o que ela disse. Claro que tinha muito mais coisa, muito mais merda naquela vida. E era muito difícil. Eu tinha consciência disso.
— Olha só… — ela começou, mexendo a cerveja, o olhar fixo no líquido.
Ela ficou um tempo em silêncio, parecia organizar as palavras. O tom mudou, ficou mais lento, quase íntimo.
— Se você quiser muito pagar pra ver, não entra sozinha. Deixa que eu te mostro o caminho. Assim você não acaba se machucando.
Eu respirei fundo. O ar do posto ficou quente, o cheiro de gasolina mais forte. Eu senti o interesse bater, mas o medo ainda era maior.
— Sei lá… acho que essa ideia passa amanhã. Eu não sei se teria coragem, na real.
Ela sorriu de canto, como quem já ouviu isso antes.
— É uma boa grana, na real. Eu diria pra você nunca entrar nesse mundo, mas… vender a primeira vez pode ser uma boa. Uma única vez só. Eu arrumo pra você.
Meu olhar acendeu sem controle.
— Eu achei que isso não existisse…
— Existe — ela confirmou, encostando o cotovelo na mesa. — De “primeira vez”, de “virgindade”, de “estreia como puta”. Tem cara que tem fetiche nisso. É um saco, porque eles se apaixonam, prometem o céu, dizem que vão te tirar da vida, mas dá uma grana fudida.
Meu coração acelerou. Era medo e curiosidade misturados. Aquilo soava sujo e tentador.
— E como… funciona? — perguntei, tentando parecer neutra.
Ela me observou por alguns segundos antes de responder.
— Ah… eu ligo pra uma pessoa, acerto tudo pra você, e tu só vai lá. Pode desistir na hora, se quiser. Só que, mesmo se desistir, tem que ficar pelo menos meia horinha. Mas se não transar, não ganha nada.
Ela disse isso tranquila, como quem explicava o cardápio do dia. E eu fiquei ali, imóvel, tentando entender em que momento a conversa tinha virado proposta.
— A gente tava falando de quanto?
Ela pigarreou, fez cara de quem saboreava o jogo. Era maldade fina, devagarinho, pra me deixar presa no nervo.
— Difícil dizer. Tenho que fazer uns telefonemas, pegar confirmação… pode ser mil, pode ser dez mil. Depende do cliente.
— Caralho — eu disse, o olho brilhando. — É muito dinheiro por quanto tempo?
— Duas ou três horas. Depende. Tudo combinado antes.
Eu já tava quase pedindo pra ela arrumar aquilo ali e agora. A curiosidade misturava com avareza. Ela percebeu. Sorriu de canto.
— Mas assim — continuou, fria — eu não vou correr atrás disso e queimar cartucho à toa. É tipo leilão. Eu digo o preço, tu aceita, tu vai. Eu pego minha comissão, o resto cai na tua conta. — Mas que fique claro — ela baixou a voz — isso é só a primeira vez. Tu pode repetir, mas aí vira trambique teu e tem consequência. E consequências pesadas.
Fiquei calada. A oferta brilhava como metal quente. A parte prática parecia simples. A parte de nomear o preço e perder o controle me apertava o peito. Ela deixou o silêncio fazer o resto do trabalho, esperando que eu me mordesse por dentro.

