Capítulo 4

Aí, eu sei que vocês devem estar pensando: “Nossa, essa mulher maldosa te enrolou pra te colocar nessa vida…” Claro que não. Eu sabia exatamente o que ela tava fazendo. Uma pessoa que vende o próprio corpo, tu acha mesmo que teria pudor de vender o de outra? Claro que eu não tô chamando ela de monstro, mas eu sabia que ela ia ganhar uma grana com isso. Eu nunca fui boba.

É engraçado, mas naquele momento ali no posto a gente nem sabia o nome uma da outra. A gente só foi se dar conta disso no final, quando trocou telefone. Ela tinha me dito que não fazia muitos programas, lembra? Pois é.

Descobri depois que isso era só meia verdade.

Ela rodava esses eventos pra encontrar meninas novas e levar pra agências. Era uma agenciadora disfarçada. Eu não sabia na época, fui saber bem depois. E o que é uma agenciadora? Basicamente, a mulher que recruta, faz o meio de campo entre as meninas e quem paga. Ganha comissão por cada trabalho que fecha. É assim que esse mundo se divide: tem quem venda o próprio corpo, e tem quem ganhe dinheiro com o corpo das outras.

Existe um milhão de formas de se prostituir. Tem quem entre por agência chique, tudo com sigilo e contrato, ninguém nunca vai saber o que a pessoa faz. Tem quem vá direto pra rua, esquina, motel, sem esconder nada. Tem quem faça sozinha, pelo celular, sem precisar de ninguém. Tudo depende da classe, do desespero, e do tipo de risco que tu tá disposta a correr.

No meu caso, eu ainda tava só olhando o jogo de fora. Mas naquela noite, ouvindo ela falar, eu já sabia: se eu resolvesse entrar, o caminho tava aberto.

Eu não vou negar que eu também trazia meninas pros jobs. O esquema é simples: eu prometo vender a “primeira vez” da garota. Se não aparece quem pague o valor alto, eu corro o risco e complemento do meu bolso — às vezes cinco, às vezes dez mil. Ela atende o cliente, recebe a grana e acha que a vida de puta é um morango. Aí eu começo a colocar bons clientes pra ela e fico com uma porcentagem.

No começo a menina tem medo. Medo de violência, de não ser paga. A gente acalma, inventa garantias, arma um discurso pra evitar vacilos e garantir que o investimento volte. Na prática, funciona: em poucos programas ela se paga. Depois vira renda passiva. Eu agencio, ela trabalha, eu banco o match. Fácil e brutal.

As agências prometem cliente, gestão do pagamento e alguma proteção. E, na prática, é isso: o cliente liga, a agência checa disponibilidade e te manda. O pagamento entra por canais que a agência administra. Você não precisa mexer com dinheiro no meio da rua; só reporta extras depois.

“Mas como a agência sabe que tu não tá pegando cliente por fora?” Pode rolar, muita gente faz. Só que, se tu fizer, tu vira menos recomendada. Cliente da agência tende a ser melhor e mais tranquilo justamente porque a agência garante sigilo e padrão. A consequência é prática: quem corta o laço com a agência perde visibilidade e trabalhos de qualidade.

Resumo: agência dá volume, curadoria e um colchão. Em troca, cobra comissão e controla quem vai pra mesa. Quem quer liberdade total troca segurança por curva de aprendizado mais difícil.

Hoje eu rodo basicamente uma agência em dois níveis.

O primeiro é o site: a menina coloca foto, descrição e preço. Quando ela cobra pelo contato via site eu recebo uma comissão da transação — até boleto a gente oferece — e ela pode pagar pra ter mais visibilidade e ficar em destaque. É volume, exposição e quem quer trabalhar com escala entra por aí.

O segundo nível é fechado e mais seletivo. Clientes ricos e repetidos tratam por telefone e e-mail. É tudo sigiloso. Esses caras querem meninas com postura, que não “pareçam putas” — alguém que eles possam levar pra almoçar com a mãe e apresentar como médica. Nesse nível o pagamento é maior, a curadoria é mais rigorosa e a exigência por discrição é total.

Resumo prático: o site gera fluxo e visibilidade. O nível fechado traz preço alto e clientela “premium”. Eu ganho comissão em ambos os lados e filtro quem vai subir de nível.

O que eu virei era exatamente o que a Lud, que conhecia o submundo, tentava virar — e ia quebrar por falta de conhecimento e capital. Como eu arrumei essas duas coisas? Eu conto no caminho. De berço, dinheiro eu tinha; o resto foi método, sangue frio e aprender onde colocar cada ficha.

Nossa, eu falei pra caramba. Vamos voltar pro posto.

Eu fiquei ali matutando, pensando em como seria aquilo. A proposta estava lançada na mesa, era coisa de pegar ou largar. Uma coisa que eu aprendi com meu pai: quando a proposta é muito boa, ou é furada, ou você é o bem mais valioso da negociação. Nas duas, você não perde nada esperando. Então eu decidi esperar.

— Eu vou te responder isso depois, tô cansada e não quero também tomar teu tempo, sabe? Pode ser fogo de palha.

— Isso, amor, pensa direitinho e me liga — ela se levantou e contornou pro lado do carona. — Vamos embora?

No caminho até a casa dela, foi só ela falando vantagens. Quem ouvia achava que ser puta era a melhor coisa do mundo: viagens, hotéis, jatinhos. Eu ri quando ela inventou ter ido a Bariloche e errou completamente a descrição do lugar e do hotel. Preferi nem comentar pra não quebrar o teatro dela. Deixei ela em casa, esperei ela entrar pra ter certeza que ela morava ali. Se ela não saiu depois que eu fui embora, aquele era realmente o prédio dela.

Eu fui pra casa com aquilo martelando na cabeça. O caminho parecia mais longo do que era. Eu lembro que comecei a falar sozinha, em voz alta, dentro do carro.

— Cara, por que eu tô com uma vontade enorme de fazer essa porra?

E eu mesma respondia:

— Pô, só pra ver qual é que é…

— Isso não faz o menor sentido

Eu tinha uma expressã̀o para cada fala.

— Mas é uma puta chance de levantar uma grana…

— Mas dinheiro pra quê?

Nada do que eu dizia me convencia. Mesmo assim, aquilo me dava uma adrenalina, um calor, um tesão que eu não entendia de jeito nenhum. O corpo inteiro pulsava, a cabeça rodava num looping de “e se?”.

Cheguei em casa exausta, com aquela decisão a ser tomada na minha cabeça. O portão fechou, e veio aquela sensação deliciosa de finalmente chegar em casa. Estacionei, subi pro quarto lenta, corpo pedindo banho e cama.

No espelho do banheiro, comecei o meu pequeno ritual. O vestido desceu devagar, o cabelo fedendo a cigarro. O sutiã grudado de suor cedeu num estalo. A calcinha já pesava, o absorvente pedindo muda. Abri a água quente e fiquei de costas pro jato, deixando a coluna derreter. Lavei as mãos, prendi o cabelo alto, e fui cuidando de mim como quem desmonta um dia: sabonete neutro, os dedos abrindo caminho no couro cabeludo, o vapor apagando o cheiro da rua. O vermelho correu pelo ralo. Tirei o absorvente, dobrei, enrolei no papel, lixo. Sequei com calma, passei a toalha por dentro das coxas, um pouco de creme pra evitar atrito. Coloquei um absorvente novo, ajustei a calcinha limpa, respirei fundo. Dentes escovados e toalha em volta do corpo e pronta.

No quarto, meia-luz. Prendi o cabelo num coque frouxo, vesti uma camiseta velha e um short de malha. Deitei. O lençol frio abraçou minhas pernas ainda quentes do banho. Eu, pronta pra dormir, como durmo sempre: barriga pra cima, uma mão pesando no ventre, a outra subindo devagar até o peito. A ponta do dedo rondando o mamilo por hábito, quase hipnose.

A cabeça, porém, teimava. Curiosidade? Loucura? Ou o começo de alguma coisa que, se eu quisesse, não teria volta. Fiquei olhando um tempo para o nada, lembrei da Gio, mandei uma mensagem “tá viva? me liga!”.

E fui dormir.