Cassandra Rios: biografia extensa

Cassandra Rios, nome literário de Odette Pérez Ríos (São Paulo, 3/10/1932 — 8/3/2002), foi a escritora que levou o desejo lésbico ao centro do romance popular brasileiro. Best-seller absoluta nos anos 1960 e 1970, também se tornou a autora mais censurada do período. A combinação de erotismo franco, protagonismo feminino e linguagem direta fez dela um fenômeno de vendas e, ao mesmo tempo, alvo preferencial da moral autoritária. Esta biografia reúne trajetória, temas, marcos de censura e reinvenções para quem busca uma visão completa e otimizada para pesquisa.

Da garota de Perdizes à autora best-seller

Filha de imigrantes espanhóis e criada em Perdizes, Cassandra teve contato precoce com a imprensa: aos 14 anos venceu um concurso literário e passou a publicar em jornais paulistanos. O gesto decisivo veio aos 16, quando escreveu A Volúpia do Pecado, romance centrado no amor entre as adolescentes Lyeth e Irez. Rejeitada por editoras, bancou a edição com a mãe e adotou o pseudônimo inspirado na profetisa grega. O livro ganhou múltiplas reedições e inaugurou, em escala popular, o romance com protagonistas lésbicas no Brasil.

A estreia não foi um ponto fora da curva. Em seguida vieram obras que confrontavam a patologização da homossexualidade, como Eudemônia (1949), e narrativas que tratavam sem rodeios de desejo, culpa, autonomia e pertencimento. Para tocar a vida com independência, aos 18 anos casou-se com um amigo gay em união de conveniência. O arranjo, incomum para a época, sintetiza seu pragmatismo diante de uma sociedade hostil à sua sexualidade.

Literatura de massa, corpo em cena e choque com a moral

O estilo de Cassandra é marcado por três forças: ritmo de folhetim, linguagem popular e ponto de vista feminino que afirma o direito ao prazer. A leitura flui em capítulos curtos, cenas quentes e viradas dramáticas que prendem o público amplo. Não se limita ao lésbico: aparecem homossexualidade masculina, transexualidade e jogos de poder consensuais. O eixo, porém, é a experiência lésbica escrita como desejo e não como desvio. É aqui que ela rompe padrões: suas personagens têm agência, voz e conflitos próprios, longe de caricaturas. Essa legibilidade — que muitos chamaram de “comercial” — foi justamente o que a aproximou de leitoras e leitores fora dos círculos acadêmicos.

O preço veio rápido. A repressão estatal começou nos anos 1950 com condenações por “atentado à moral”, vetos teatrais e apreensões. Após 1964, o cerco apertou: interrogatórios, processos sucessivos, confisco e queima de livros, editoras inviabilizadas. Com o AI-5, a censura tornou-se sistêmica e dezenas de títulos foram proibidos. Paradoxalmente, a perseguição alimentou o interesse do público. Entre os anos 1960 e 1970, suas tiragens chegaram a centenas de milhares por título e ela ultrapassou 1 milhão de exemplares vendidos, marco inédito para uma escritora brasileira. Pela primeira vez, uma autora viveu exclusivamente de direitos autorais, comprou imóveis, abriu livraria e viu suas histórias virarem filmes.

Falência, pseudônimos e reinvenção contínua

O mesmo Estado que a transformou em símbolo de “imoralidade” também asfixiou sua renda. A sequência de proibições na segunda metade dos anos 1970 levou à falência da livraria e à reclusão estratégica. Cassandra respondeu com tática: atuou como ghost writer, escreveu colunas e publicou romances sob pseudônimos masculinos (o mais conhecido, Oliver Rivers). Os títulos “assinados por homens” passaram com menos barreiras, expondo o viés de gênero da censura. Ainda assim, ela também enfrentou resistência em setores progressistas da crítica, que muitas vezes desqualificaram sua prosa por ser “popular”. A contraprova estava no público: majoritariamente feminino, fiel e numeroso.

Nos livros de não ficção e memórias, Cassandra articulou sua defesa estética e política. Em Censura – Minha Luta, Meu Amor (1977) e Eu Sou Uma Lésbica (1980), debateu hipocrisias sociais e sustentou a centralidade do prazer feminino como tema legítimo da literatura. No final da carreira, em Mezzamaro, Flores e Cassis: o Pecado de Cassandra (2000), denunciou o apagamento crítico de sua obra e reivindicou lugar no cânone da cultura brasileira.

Política, mídia e últimos anos

Com a redemocratização, filiou-se ao PDT e disputou uma vaga de deputada estadual em 1986. Nos anos 1990, apresentou programa na Rádio Bandeirantes e apareceu em diferentes atrações de TV, mantendo-se em diálogo com o grande público que sempre a acompanhou. Morreu em 8 de março de 2002, Dia Internacional da Mulher, vítima de câncer, aos 69 anos. Não deixou filhos. A Comissão Nacional da Verdade reconheceu oficialmente sua condição de perseguida política.

Por que Cassandra Rios importa hoje

Cassandra Rios ocupa um lugar raro: foi uma autora lésbica que escreveu para muitos, numa chave erótica e popular, e venceu. O impacto não está só nos números. Sua ficção reposiciona o corpo feminino no centro do enredo e legitima o desejo como matéria literária. O “escândalo” nos anos da ditadura revela menos sobre sua obra e mais sobre a estrutura de controle do período. Rever Cassandra é corrigir distorções críticas que empurraram autoras de massa para os porões da história literária.

Embora muitos livros sigam fora de catálogo, cresce o interesse por reedições, pesquisas acadêmicas e leituras críticas que a tiram do gueto “proibido” e a colocam onde deve estar: ao lado de quem moldou o imaginário do país. Para novas leitoras e leitores, alguns pontos de entrada:

  • A Volúpia do Pecado: marco inaugural, romance com protagonistas lésbicas e tom confessional.

  • Eudemônia: crítica à patologização da homossexualidade e retrato de violência institucional.

  • Eu Sou Uma Lésbica: ensaio direto sobre identidade e preconceito.

  • Censura – Minha Luta, Meu Amor: memória do enfrentamento à repressão.

Por onde começar a ler?

Comece por A Volúpia do Pecado e Eudemônia; em seguida, leia Eu Sou Uma Lésbica e Censura – Minha Luta, Meu Amor para contexto histórico e crítico.

As obras estão disponíveis?

Há reedições pontuais e acervos em sebos e bibliotecas. O interesse crítico recente vem impulsionando novas edições.