Capítulo 5

Fiquei jogado no sofá, estirado, pensando na sorte que eu vinha tendo e no que eu podia fazer pra não cagar tudo. Joana tinha saído do meu apê fazia meia hora; o cheiro dela ainda impregnava a sala e o perfume seguia vivo nas minhas roupas, e o que ela disse me deixou doido e sem entender: “Se você não gozar até amanhã eu passo aqui de tarde”. O que isso queria dizer? Não sei. Quando eu ia gozar ela parou e soltou essa. Devia ser aquele jogo de segurar pra intensificar, algo tântrico talvez?

Só podia.

Na cozinha o interfone berrou e me tirou do transe. Levantei no tranco. Percebi que eu ainda tava duro por causa da Joana. O azulejo gelado pegava na sola.

— Quem diabos ficou de vir aqui? Será que a Joana esqueceu alguma coisa?

O coração disparou. Apertei o passo. Peguei o interfone. O plástico engordurado na mão suada. Do outro lado, a voz entediada do porteiro.

— Olha, vai subir uma moça pro senhor.

— Que moça?

— Não sei. Ela já veio aqui.

— O senhor devia perguntar o nome, né? Eu podia não querer receber ninguém — reclamei.

— É amiga sua.

Revirei os olhos. Agora o porteiro sabia quem eram minhas amizades, absurdo.

— Tá, mas como ela é?

— Cabelo curto, cor de mel. Magrinha.

— Ahn… é a Clara. Tá bom.

Eu não esperava por ela; normalmente me ligava antes. Não era problema. Abri a porta e fiquei de guarda no corredor, esperando o “ding” do elevador. Quando abriu, ela apareceu cheia de bolsas de loja, cabelo preso, suada, cara de exausta, mas com um sorriso enorme.

— Caramba, garota, comprou o shopping inteiro? — fui em direção a ela. — Me dá isso.

— Ah, obrigada. Puta merda, eu tava morta. Andei o dia todo.

Peguei as bolsas ali mesmo. O plástico cortava um pouco os dedos. Entramos, o ar mais fresco da sala bateu no rosto.

— Menino, acredita que eu perdi um monte de roupa de cama pro mofo? Tive que sair pra comprar toalha, lençol, colcha. Essas coisas fazem um volume danado.

Clara mal entrou e se jogou no sofá, pés na mesinha, respirando pesado. O ventilador girava lento, empurrando o cheiro de shopping pra dentro.

— Podia ter falado. Eu ia contigo pra carregar, Clara.

— Não precisava. Nem eu sabia que ia comprar tanta coisa — ela puxou o celular, roçou o dedo na tela. — Tu viu a Joana? Ela não me atende.

— Ela tava aqui. Saiu tem uns quarenta minutos. Por quê?

Clara largou o telefone no sofá.

— Vou pegar uma água — disse, ajeitando o cabelo antes de levantar. — Nada demais. Eu ia chamar ela pra me ajudar lá em casa a terminar o guarda-roupa. Só isso.

Gritei da sala enquanto encostava as bolsas num canto.

— Tu quer tomar um banho? Tá precisando.

— Porra, tá dizendo que eu tô fedendo? — ela devolveu da cozinha. — Me dá uma toalha aí.

Ri. Clara era ímpar. Jeito simples, mente afiada. Magrinha, mas quando ria ficava linda.

— Toma um banho, fica fresquinha. Eu peço umas cervejas. Depois te ajudo a levar essas coisas pra tua casa — falei, chegando na cozinha.

Ela estava encostada na pia, copo de água na mão. Me olhou com um brilho maldoso demais pra uma amiga.

— Ficar fresquinha, tomar uma cerveja… — ela fez pausa. — Você quer me comer, seu safado.

— Eu? Jamais.

— Sei. Vou sim, tô precisando. Liga pra Joana. Vê se ela te atende e manda ela voltar pra cá.

Clara era de casa. Passou por mim fazendo graça e foi direto pro banheiro. Eu voltei pra sala e peguei o telefone. Fiquei no dilema: Joana tinha saído, Clara chegou depois. Será que eu comia as duas hoje? Seria muita sorte acontecer isso. Mais seguro ficar com a Clara. Melhor um passarinho na mão que dois voando. Mesmo assim dei dois toques pra Joana, ela não atendeu. Escrevi: “Clara apareceu aqui. Vem pra cá.”

Enviei.

Nada de resposta.

Da sala eu ouvi o chuveiro ligar. Clara já estava no banho. Conferi meu pau por higiene e fui ao quarto ajeitar a cama ainda bagunçada.

Ela me chamou.

— Ei, pega uma toalha pra mim?

Revirei gavetas, achei uma melhorzinha e levei pro banheiro. Parei na porta, encostei a testa na madeira.

— Vou deixar na maçaneta, você pega? — falei baixo, a porta estava só encostada, dava para ver a folga no batente.

— Porra, entra. Coloca aqui no box — a voz veio molhada, misturada ao barulho do chuveiro.

Eu não queria forçar uma situação, eu precisava ir devagar se quiser obter o que eu queria. Empurrei a porta destrancada e entrei. O vapor tomou meu rosto. Espelho apagado. Azulejo úmido escorrendo a água condensada pelas paredes.

Pelo vidro do box eu via o contorno magro dela sob a água. Quando ouviu meu passo, ela abriu o blindex dois dedos.

— Coloca aqui no box — disse, abrindo mais um pouco. — Tá com medo de me ver pelada?

O rosto dela apareceu pela fresta, molhado. A nudez escapava nos contornos. Ela não parecia ligar. Eu estendi a toalha, tentando não parecer um tarado, e forcei um riso curto pra disfarçar o desconforto.

— Minhas costas tavam doendo de carregar bolsa e andar. Você podia me fazer uma massagem — a voz veio mais alta que a ducha quente.

— Se você quiser eu faço. Termina aí, coloca uma roupa que eu te dou uns amassos nas costas — falei brincando, ainda sem sacar a maldade inteira.

A água seguiu. Um silêncio curto. O rosto voltou na fresta do blindex turvo. Cabelo colado na face. Sorriso de predador.

— Você não quer tirar essa roupa e vir fazer aqui?

Abri o box.

Ri. Era isso. Eu me senti com sorte. Arranquei a camiseta pro cesto aberto. A bermuda arrastou a cueca até os tornozelos. Dei um passo e deixei no chão. Quando abri o box, o vapor bateu no meu rosto.

Ri e entrei no ritmo. Arranquei a camiseta pro cesto, a bermuda arrastou a cueca até os tornozelos e deixei tudo no chão enquanto o vapor me pegava no rosto quando abri o box. Ela estava ali me esperando, braços colados no corpo magro, seios pequenos comprimidos no antebraço, o cabelo curto cor de mel escurecido e grudado na cabeça. A água descia da testa, passava pelo queixo, riscava o peito e sumia no umbigo; a barriga lisa com um vinco leve, o quadril estreito, a pelve em V quente no vapor. Embaixo, os pelos ralos marcavam o contorno, os lábios longos passavam do limite, úmidos e encolhidos, as coxas finas e os joelhos com gotas presas, pés sobrepostos no azulejo; o cheiro de coco misturado com pele quente subia, e quando ela sorriu sem desviar eu cheguei mais perto, senti a água bater nas minhas costas e apoiei a mão no vidro pra firmar.

Ela me puxou pela nuca e me beijou, boca quente com gosto de coco e água, e eu respondi no mesmo tempo, língua achando a dela sem pressa enquanto o jato batia no meu ombro, escorria pelo peito e respingava no queixo dela. A pele escorregadia colou na minha; desci a mão pela lateral até o quadril e senti ela assentir no beijo, subir na ponta do pé, roçar o joelho na minha coxa. O vidro tremeu nas minhas costas, a água correu entre os seios, cruzou meu esterno, juntou no umbigo; ela mordeu meu lábio de leve, eu puxei mais perto, o barulho do chuveiro engoliu qualquer palavra e ficou só corpo, calor e respiração curta.