Capítulo 53

Duas casas depois da minha, ele morava. Só de saber isso já bastava para meu corpo inteiro acordar de uma vez. Quando eu o via, era sempre o mesmo choque: um calor lento subia do meio do peito, descia pesado pela barriga e se instalava ali, entre as pernas, como uma pulsação que não pedia licença. As mãos ficavam úmidas, as coxas tremiam um pouco, quase imperceptível, mas eu sentia.

Eu não era nenhuma santa, mas também não saía por aí me oferecendo pra qualquer um. Só que com ele… ah, com ele era diferente. Um homem feito, lá pelos cinquenta e poucos, mas de um jeito que fazia a idade parecer só um detalhe. O rosto marcado pelo sol, barba perfeitamente descuidada, cabelo grisalho em tons diferentes de cinza com volume, sempre arrumado como se tivesse acabado de sair do banho. E o corpo… Meu Deus. Ombros largos, peito firme, braços que marcavam a camiseta sem esforço. Eu olhava e já imaginava o peso daquele corpo sobre o meu, o calor da pele dele na minha, o cheiro de homem de verdade invadindo tudo.

Eu passava de propósito na frente da casa dele quase todo dia. Às vezes duas vezes, ida e volta. Era um ritual que eu inventei sem querer e que depois não consegui mais largar. Quando eu via que ele estava no jardim ou lavando o carro, diminuía o passo. Ajeitava o cabelo, puxava a blusa um pouco pra baixo, deixava o decote aparecer mais. Sorria antes mesmo de ele me ver.

— Boa tarde… tudo bem por aí? — eu dizia, com a voz mais doce que conseguia.

Ele levantava a cabeça, limpava as mãos na calça jeans e me devolvia um sorriso educado, daqueles que iluminam tudo, mas que não atravessam a linha.

— Tudo ótimo, e contigo menina?

Aí eu parava. Encostava no portãozinho baixo, cruzava as pernas de um jeito que o short subia só mais um pouquinho, inclinava o corpo pra frente. Conversa fiada: o calor, o cachorro do vizinho, a planta nova que ele tinha colocado no vaso. Qualquer coisa servia.

Eu ria alto das piadas dele, jogava o cabelo pro lado, mordia o lábio sem perceber. Uma vez me abaixei pra amarrar o cadarço que nem estava solto, só pra deixar ele ver a curva das costas, a renda da calcinha aparecendo de leve por cima do short jeans. Quando levantei, devagar, ele desviou o olhar rápido, mas eu vi: os olhos dele tinham passado por mim inteira em menos de um segundo.

Outra tarde mostrei o celular:

— Olha só a foto que tirei na praia domingo… — e virei a tela pra ele. Eu de biquíni branco, deitada de bruços na areia, o laço das costas meio solto, o bumbum empinado.

Ele olhou, sorriu de canto, disse que a foto tinha ficado bonita, mas logo desviou os olhos pro céu, como se estivesse analisando as nuvens.

Eu sabia que ele sentia. Via no jeito que a mão dele apertava mais forte o pano de tirar pó, no músculo da mandíbula que se mexia de leve, no modo como ele respirava mais fundo quando eu chegava perto demais. Mas ele nunca, nunca, atravessava o limite.

Era exatamente isso que me deixava louca.

Ele era gentil, sempre educado, sempre seguro. Me tratava com um respeito que eu não pedia, mas que me fazia querer provocar mais. Porque eu sabia que por trás daquele controle todo havia um homem que já tinha imaginado coisas. Eu sentia no ar. Sentia no jeito que os olhos dele escureciam por um segundo antes de voltarem ao normal.

E eu adorava o jogo. Chegava em casa, trancava a porta, encostava a mão nela e respirava fundo, apertando as coxas uma na outra, sentindo o corpo inteiro pulsar, o coração batendo na garganta, a calcinha grudada, quente, viva. Era o meu prêmio por ter passado só por perto dele.

Mas teve um dia que decidi me arriscar mais.

Voltei da escola, o sol ainda alto, o uniforme grudando no corpo, e as provocações já não bastavam mais. Precisava de mais. Sabia que ele estava em casa. Toquei a campainha antes que o bom senso gritasse.

Ele abriu a porta devagar. Olhou pros lados, quase sério, um sorriso preso no canto da boca, esperando eu inventar alguma desculpa esfarrapada. Inventei qualquer coisa idiota. Dessa vez ele não deixou eu terminar.

— Entra.

Não era pedido. Era ordem embrulhada em voz rouca. Meu estômago deu um giro lento, gostoso, perigoso. Entrei sorrindo, achando que ia só esticar mais um pouco a piranhagem, que ia sair inteira dali. Minha boca estava seca, a garganta arranhando.

— Pode me dar um copo d’água? — pedi olhando em volta, uma sala linda, bem arrumada e com muito bom gosto.

Pensei em completar que boquete e copo d’água não se nega a ninguém, mas a casa dos meus pais era duas portas depois, e eu ainda tinha um restinho de juízo. Ri da minha piada mental e olhei para ele que parecia um tanto taciturno.

Ele fechou a porta atrás de mim com a perícia de um carceiro que tranca as celas de uma prisão. Virou-se. Me olhou fundo, aqueles olhos castanhos que eu conhecia tão bem, só que dessa vez não desviaram. Não piscaram. Me prenderam inteira.

Abriu a boca e falou, baixo, quase um rosnado:

— Não.

E eu quase desmontei ali mesmo.

Ele avançou, devagar, sem pressa, como se soubesse que eu não ia correr. Peito nu, pele morena brilhando de suor, o cheiro dele invadindo tudo. Um passo, dois. Meu espaço acabou. O ar entre nós sumiu. Só restou o calor dele queimando contra mim.

Eu era pequena demais perto dele. Magra, cintura fina, seios apertados no sutiã do uniforme que de repente parecia ridículo de tão infantil. As pernas tremiam dentro da saia plissada, os joelhos querendo ceder. Meu coração batia tão alto que eu tinha certeza que ele ouvia. Medo puro, gelado, subindo pela espinha… misturado com um calor líquido, vergonhoso, escorrendo entre minhas coxas. Eu estava molhada. Molhada de pavor e de vontade ao mesmo tempo.

Nossos olhares travados. Eu não conseguia desviar. Ele ergueu a mão. Grossa, veias saltadas, dedos que eu já tinha imaginado em mim mil vezes. Quando ela se fechou no meu pescoço, não foi bruto logo de cara; foi firme, possessivo, o polegar apertando de leve a lateral da minha garganta, sentindo a veia pulsar ali.

Eu não reagi. Não consegui. Meu corpo simplesmente se entregou, como se tivesse esperado a vida inteira por aquele toque.

Ele me puxou. Um puxão lento, inevitável. Meu peito colou no dele, os bicos dos seios doendo contra o tecido, roçando no calor da pele dele. Senti o volume dele já duro contra minha barriga, grande, ameaçador. Minhas pernas amoleceram de vez; se ele soltasse eu desabava. Um gemido miou na minha garganta, metade súplica, metade medo.

Eu não sabia se queria gritar, se queria correr, se queria abrir a boca e pedir mais. Tudo ao mesmo tempo. O medo era real: ele podia me quebrar, me machucar, me destruir ali mesmo. Mas o tesão era maior, mais forte, mais urgente. Minha calcinha estava encharcada, as coxas tremendo, o corpo inteiro se abrindo pra ele antes mesmo dele mandar.

— Você gosta de provocar não é ? — disse ele com sua boca tão perto da minha que eu podia beber do seu ar e me inebriar.

Meus olhos se arregalaram, um “sim” patético escapou dos meus lábios antes mesmo de eu pensar.

— Então você merece ser punida por ficar mexendo com homem feito na rua, garotinha.

Os dedos dele apertaram de verdade. O ar sumiu. A garganta queimou. Senti o hálito quente dele, invadindo minha boca aberta. Meus pulmões gritaram. Lágrimas rolaram quentes pelas bochechas, levando o rímel junto, manchando tudo.

Eu babava. Literalmente. Um fio de saliva escorreu do canto da boca enquanto minha calcinha encharcava mais, o tecido colando no meio das pernas, o calor escorrendo pelas coxas, arrepiando cada centímetro de pele.

Ele chegou mais perto, o rosto a centímetros do meu, voz baixa, lenta, mortal:

— Eu vou falar só uma vez. Se você não quiser, eu solto agora, você vira, sai por essa porta e nunca mais olha na minha cara. Acabou. Mas se ficar… eu faço o que eu quiser com você. O quanto eu quiser. Do jeito que eu quiser. Sem parar. Sem pena.

De repente o aperto afrouxou. O ar voltou gelado, queimando os pulmões. Meus pés tocaram o chão de novo; eu nem tinha percebido que ele me suspendia. O corpo cambaleou pra frente, buscando equilíbrio, as mãos instintivamente procurando o peito dele pra não cair.

Eu tossi uma vez, rouca, ofegante. Levantei o rosto.

Rímel borrado, lágrimas, boca inchada, saliva no queixo. O retrato perfeito do caos.

E sorri um sorriso de caos.