Capitulo 29
Quando o clima deu uma esfriada, uma preguicinha forte bateu. A raiva que eu tava sentindo da Lelê esfriou de repente e, no lugar dela, uma culpinha chata começou a atormentar o meu juízo. Fiquei quieta, aninhada com a Mara, a mulher mais velha que eu tinha conhecido no bar e que tinha acabado de me dar uma transa maravilhosa. Meu corpo estava ali, quente e relaxado contra o dela, mas minha cabeça não parava de pensar em outra.
Quando eu vi a Lelê pela primeira vez foi como ver um unicórnio. Ela era diferente de todas as meninas que eu já tinha visto. Além de linda, tinha um estilo muito próprio, parecia um daqueles personagens fabricados de filme adolescente que querem mostrar que a pessoa é descolada, sabe?
Lelê tinha uma característica interessante: ela conseguia se mover entre relacionamentos e falar as coisas com uma liberdade absurda, sem se importar se vai machucar, sem concessões. Se ela quiser falar, ela fala e pronto. A gente não tinha um relacionamento, mas se tudo que aconteceu até aqui — e não foi pouco — tivesse acontecido com outras pessoas, eu acho que seria diferente. A pessoa tomaria mais cuidado ao contar as coisas e agiria de forma mais delicada.
— Florzinha, eu vou no banheiro me lavar, que eu tô pingando — ela se levantou passando as mãos entre as pernas e ficou espantada com o quanto de baba tinha ali.
Eu achei interessante ela me chamar de Florzinha. Eu nunca gostei muito de piadas com o meu nome, porque eu nunca gostei do meu nome. Mas dessa vez… só aceitei.
— Eu vou em seguida, tô precisando também.
Mara se levantou e eu aproveitei pra olhar o telefone. Tinha um monte de mensagens dela. A última me chamou a atenção, parecia ter sido digitada às pressas:
“Nome de flor, eu sei que vc tá puta pra caralho imaginando um monte de coisas, mas olha, nada a ver isso daí. Tá ligada? Eu jamais ia mostrar uma foto de mulher pelada pra outra pessoa, isso seria vacilo, nojento demais. O que rolou é que uma amiga minha tava aqui em casa e é isso. Ela nem sabe de tu. Você ficar puta assim me magoa tlg?”
— Eu que magoei ela agora? — disse pensando alto.
Eu li aquela merda e fiquei realmente irritada. Eu até queria acreditar que ela não tinha mostrado foto pra ninguém, afinal ela é mulher como eu e a gente não tem esse costume. Tudo bem. Mas a gente tava num momento íntimo nosso, eu tava me esforçando pra ser mais legal, pra fazer uma coisa maneira, completamente vulnerável… e se ela não quisesse ou não pudesse porque tinha uma amiga em casa, era só ter falado na hora.
Eu tava puta da vida por ela me fazer de otária. Tava começando a sentir ciúme dessa amiga que eu nem conhecia e, pra piorar, ela ainda jogava a culpa em mim? Como se eu fosse a louca que tava imaginando coisa.
Sem perceber, eu já tava sentada no sofá com uma cara horrível, brigando com a Lelê como se ela estivesse bem na minha frente. Fazia gesto com a mão, franzia a testa, mexia a boca murmurando baixo, completamente compenetrada na discussão mental.
Não vi a Mara voltando do banheiro.
— Vou passar um café e deixar você terminar sua conversa com as suas entidades, tá? — A voz de Mara me fez dar um pulo no sofá de susto e depois sumiu para a cozinha.
Minha cara foi no chão. Eu tinha o péssimo hábito de gesticular e fazer careta quando brigava sozinha na minha cabeça. A mulher agora ia achar que eu era completamente doida. Respirei fundo, passei a mão no rosto tentando apagar a expressão de ódio. Peguei minhas roupas jogadas no chão e fui até o banheiro onde eu tomei um banho rápido e me vesti novamente, depois fui atrás de Mara na cozinha, cheia de vergonha.
O café cheirava bem, forte, daqueles que acordam até defunto. Mara tava encostada na pia, só de short jeans e camiseta larga, cabelo preso num coque frouxo, me olhando com aquele sorriso calmo de quem já viu de tudo.
— Desculpa… eu sou uma idiota — murmurei, pegando a xícara que ela me estendeu.
— Não é idiota, não. É jovem. E tá com o coração bagunçado — ela disse, simples, sem drama. Tomou um gole do dela e mudou de assunto como quem vira página. — Você quer que eu faça um potinho de macarrão para você levar?
Eu neguei com a cabeça, o estômago ainda embrulhado de raiva e culpa misturadas. Aquela era uma típica frase que as pessoas educadas dizem quando querem que a você vá embora, também pudera, a mulher transa comigo e me pega brigando sozinha mentalmente como uma doida com a ex, e sim ela sabia que era por causa da Lelê que eu não estava bem. A gente ainda ficou um tempo ali, conversando besteira, mas minha cabeça tava longe.
Deu minha hora, Mara tinha começado a fumar de novo e o cheiro do cigarro dela me incomodava demais. O que até então estava ótimo havia acabado com o cheiro do cigarro dela. Eu me despedi meio sem saber como estava me sentindo e fui embora.
Quando saí da casa da Mara já era quase uma da manhã. Caminhei devagar pelas ruas vazias, o ar fresco batendo no rosto, tentando organizar a bagunça dentro de mim.
Amanhã seria o meu primeiro dia de aula e minha cabeça estava na Lelê.
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