Capítulo 1

A faculdade estava um caos naquele dia. Gente carregando pastas, mães aflitas perguntando onde era o protocolo, calor demais para tanta roupa e aquele cheiro típico de corredor novo misturado com suor e perfume barato. Um falatório constante, risadas, papelada caindo no chão, um monte de jovens tentando parecer seguros do que estavam fazendo. Eu estava ali, parada na fila, e foi quando reparei nela.

Ela estava logo à minha frente, impaciente, mudando o peso do corpo de um pé para o outro. Tinha um rosto quase angelical, desses que te fazem olhar duas vezes para ter certeza de que é de verdade. O cabelo castanho-claro estava preso num coque despretensioso, com algumas mechas mais claras e as pontas desbotadas num rosa suave — dava para ver que já tinham sido bem mais vivas.

Vestia uma calça jeans rasgada nos joelhos, uma camiseta preta com o nome de uma banda que eu não conhecia e um par de botas que pareciam ter rodado meio mundo. Nas costas, uma mochila velha, toda escrita, coberta de adesivos, fitas e tinta — como se cada marca contasse um pedaço de quem ela era.

De vez em quando, olhava o celular e franzia o cenho, esperando uma mensagem que não chegava. O coque caía um pouco, ela ajeitava distraída, respirava fundo. Não falava com ninguém, mas parecia viver um turbilhão por dentro. E eu ali, parada atrás dela, sem saber explicar por que era tão difícil tirar os olhos daquela garota.

— Cacete, véi… que fila da porra! Caralho, essa merda não anda nunca? — ela reclamou alto, o suficiente pra umas três pessoas virarem o rosto.

Eu ri sem querer. Ao mesmo tempo que adorei ela ter puxado assunto, me impressionou a quantidade de palavrões que conseguiu enfiar numa frase tão curta.

— Também é fogo — respondi, tentando puxar papo. — Desde o dia do resultado tá tudo escrito o que precisa trazer, mas o povo vem sem documento e trava a fila.

Ela bufou, cruzou os braços e balançou a cabeça num “é verdade” silencioso. Eu aproveitei o gancho:

— Qual curso?

— Psico — disse, com um sorriso rápido que desarmava qualquer um.

— Ah, eu também! Prazer, meu nome é Violeta.

Ela fez uma expressão meio torta, entre tímida e debochada, como quem não sabe ainda se vai gostar de mim ou não.

— Letícia — respondeu, dando de ombros. — Mas pode me chamar de Lelê.

A conversa morreu ali. O telefone dela parecia bem mais interessante do que eu. Tocava, vibrava, piscava, e ela ria sozinha de vez em quando, digitando rápido com as duas mãos. Eu fiquei olhando para o nada, tentando não parecer deslocada.

O corredor estava insuportável. O ar-condicionado não dava conta, o calor grudava na pele e o som de vozes misturadas fazia um zumbido constante. Aquele tipo de ambiente em que ninguém sabe direito o que está fazendo, só segue a fila torcendo pra não faltar nenhum documento. Tinha o barulho das impressoras lá na frente, o estalo das canetas, e uma funcionária gritando “próximo!” com uma paciência quase profissional.

Depois de uns vinte minutos de espera, chamaram o nome dela. Lelê soltou um “finalmente” quase sussurrado, ajeitou o coque e foi. Fiquei olhando enquanto ela caminhava até o guichê, o corpo leve, o passo rápido, aquela mistura de impaciência e confiança que só quem tem vinte anos consegue sustentar. Logo depois chamaram o meu nome também, e eu fui para outra mesa, quase ao lado à dela.

Enquanto preenchia os papéis, de vez em quando nossos olhares se cruzavam. Ela parecia distraída, tamborilando os dedos na mesa enquanto esperava a moça do guichê digitar. Quando terminei, ainda vi ela discutindo sobre um documento que estava amassado. Sorri baixinho.

Saí alguns minutos antes e fiquei na sombra, perto da saída principal, observando o movimento, vendo o ambiente onde eu ia estudar. Os calouros tiravam fotos com os pais, um grupo de veteranos atormentava uns calouros fazendo eles gritarem o nome do curso em coro, e alguém vendia picolé improvisado num isopor. Foi quando a vi de novo. Lelê descia as escadas com a mochila pendendo de um ombro, os fones enrolados na mão e aquele mesmo ar de quem tem pressa, mas não sabe pra onde.

Ela riu do meu silêncio e chamou de novo, como quem puxa pela mão.

— E aí, nome de flor, vai mesmo sair pela frente da faculdade?

“Nome de flor?” pensei, surpresa, irritada e um pouco impressionada. A ousadia dela vinha com um sorriso que desarmava.

— Ué, por que não? — respondi, fingindo naturalidade.

— Os veteranos estão todos ali for, você vai voltar para casa toda pintada, mané. Vem, me segue. Vamos dar o delta daqui.

— Dar o que? — arqueei a sobrancelha.

— Delta. Wazari, vazar, sumir daqui. Sair pra rua… vamos? — ela explicou, enrolando o fio do fone no dedo.

Fiquei observando enquanto ela seguia à frente, andando como quem sabia exatamente para onde ia. Passamos por corredores que eu nunca tinha visto, escadas que subiam e desciam sem lógica, mudamos de prédio, pegamos um elevador velho — eu nem sabia se era permitido — e saímos por uma porta lateral direto numa garagem quase vazia. Nenhum segurança, nenhuma placa. Só o barulho distante do campus e o cheiro de gasolina.

— Você deve ter mudado de curso, né? — falei, rindo. — Conhece tudo aqui.

Ela deu de ombros, sem graça.

— Minha ex estuda aqui.

A resposta me pegou desprevenida.

— Sua ex? — escapou antes que eu conseguisse segurar.

— É. Vim pra essa merda de faculdade por causa dela. Aí a bonita me deu um pé na bunda. Foda, né? Pode falar, fui uma idiota.

— Poxa, que chato — respondi, tentando parecer solidária, mesmo achando a decisão completamente sem noção. Quem escolhe faculdade por namoro?

Ela deu uma risada curta, meio amarga, e mudou de assunto do nada:

— E aí, vai embora? Bora tomar uma? — apontou com o queixo pra um boteco escondido na esquina da garagem.

Olhei pro lugar. Pequeno, sujo, com mesas de ferro tortas e um toldo desbotado. Mais adiante, na avenida principal, eu sabia que tinha os bares “de verdade”, os que todo mundo falava, cheios de estudantes. Era lá que eu queria estar. Mas bastou lembrar do trote e da possibilidade de voltar pra casa toda pintada de tinta guache que a ideia perdeu a graça.

— Pode ser ali mesmo — falei, cedendo.

— Boa, nome de flor. Bora antes que apareça algum veterano. — Ela abriu um sorriso leve e seguiu à frente.

E eu fui atrás, me perguntando em que momento uma fila de matrícula tinha virado o começo de uma história que eu não sabia pra onde ia dar.

— Pode me chamar de Violeta mesmo — falei querendo ser educada para ela saber que eu não tinha gostado do apelido.

Ela me olhou petulante enquanto levava um dos dedos pra chamar o carinha que atendia as mesas.

— Tu gosta mesmo do teu nome?

— Gosto. Qual o problema?

— Nome de velha do caralho, hein.

Eu ri da petulância e deixei passar. O bar tinha alguma coisa diferente. Demorei um segundo pra perceber: nas paredes, bandeiras LGBTQIA+, arco-íris numa, bi noutra, um triângulo rosa estilizado num pôster antigo. Sobre o balcão, um quadrinho escrito com giz: “Aqui ninguém precisa explicar nada”.

— Esse bar aqui? Os estudantes vêm pra cá também? — perguntei, baixando o tom.

— Não muito, aqui só vem puta e sapatão, eu sou sapatão e você?

— Lésbica não seria o termo politicamente correto para se falar?

— Já vi que tu é mimizeira de twitter! — falou rindo conferindo mais uma vez o celular e desdobrando umas cadeiras para a gente se sentar. — Lésbica é para quem é de fora, a gente se chama de sapatão mesmo, mas tem que ter alguma intimidade né?

Olhei em volta. Mesas de ferro, algumas tortas. Uma jukebox velha piscando, tocando rock dos anos 90 do nada. No canto, um casal de meninas dividia um cigarro eletrônico. No outro, dois caras jogavam dominó como se estivessem em casa. Atrás do balcão, a dona — cabelo grisalho preso num rabo de cavalo — levantou o queixo pra Lelê num cumprimento silencioso.

— E aí, Dona Zeca — Lelê sorriu. — Traz a de sempre.

— Pra tua amiga também? — a mulher perguntou, me medindo com gentileza. — ele vai levar ai para você já.

— Então, nome de flor… Violeta. Tu gosta mesmo?

— Gosto. Era o nome da minha vó.

— Aí justifica — ela riu, leve. — Porra, foi mal.

Como eu não queria dizer nada, fiquei quieta, e ela voltou para o telefone enquanto a cerveja não vinha.