Capítulo 2

A cerveja chegou e eu bebi. O primeiro gole entrou fácil, descendo leve, quase doce. A jukebox trocou de faixa, e o som antigo de guitarra se espalhou pelo bar. No mural, entre bandeiras e cartazes coloridos, um papel escrito à mão chamava atenção: “Sarau quinta, 19h — microfone aberto.” Olhei aquilo e pensei em como seria voltar ali. Era tudo novo, confuso e, ao mesmo tempo, me dava uma vontade enorme de viver tudo de uma vez.

— E aí — ela disse, apoiando o queixo na mão, me encarando de lado —, tu veio pra Psicologia porque queria entender a cabeça dos outros ou a tua?

— Sei lá, acho que a dos outros, mais ou menos — respondi sem saber direito, rindo. — E tu?

— Primeiro por causa de mulher — ela disse sem nem piscar —, e depois porque eu sou doida mesmo.

— Tô percebendo — devolvi, provocando. — E você mora aqui perto da faculdade? Eu tô precisando de uma república.

Ela me olhou de cima a baixo, com aquele olhar de quem já tá preparando uma piada.

— Tu fuma?

— Não.

— É bolsonarista?

— Deus me livre.

Ela sorriu, satisfeita. — Aprovada.

Riu sozinha, deu um gole longo e completou:

— Eu tô precisando de gente para dividir. Meu pai alugou uma casinha numa vila aqui perto e eu queria alguém pra não ficar sozinha. Quer ir lá ver?

— Poxa, seria legal… mas quanto é? — perguntei, tentando disfarçar o interesse.

Ela pegou o celular, esticou a mão pra mim. — Me passa teu número.

Digitei, meio sem pensar. Ela salvou e começou a escrever alguma coisa.

— Esse telefone aqui é do meu pai — disse, sem levantar os olhos. — Ele é delegado, mas é gente boa. Manda quem paga conversar direto com ele, eles se acertam. Tu termina de beber e a gente vai lá ver a casa. De repente, tu gosta.

Fiquei olhando pra ela, tentando decifrar se aquilo era pura simpatia ou um convite com segunda intenção. Mas Lelê não era o tipo de pessoa que se lia de primeira. Tinha um jeito que misturava descuido e cálculo, leveza e provocação. Terminamos a cerveja em silêncio confortável. Eu insisti em pagar a conta e ela não discutiu, só levantou e disse:

— Bora, nome de flor.

O caminho até a casa dela foi curto, uns quinze minutos a pé, cortando ruas estreitas e cheias de árvores. O sol já estava baixo, deixando as fachadas alaranjadas e o asfalto morno. Quando paramos, era diante de um portão lateral discreto de uma casa grande, bem cuidada. Ela digitou um código num cadeado eletrônico e o portão se abriu, revelando um corredor longo que levava a uma vila nos fundos.

As casas eram pequenas, todas iguais, formando um retângulo em torno de um pátio estreito, quase uma mini praça de paralelepípedos com vasos de plantas, todos vazios, nos cantos. As janelas davam todas para o mesmo espaço, o que criava uma sensação curiosa de intimidade — todo mundo via todo mundo.

— Aqui é tipo uma vila universitária — explicou, enquanto andávamos. — Na primeira mora um casal de pedagogia. Na segunda, um casal de medicina. A do canto é de um cara que ainda não falei com ele que só aparece à noite. E a duas últimas, do lado da minha, tá tudo vazia.

Ela parou em frente à porta de madeira descascada e girou a chave.

— Seja bem-vinda ao meu caos.

Por dentro, o lugar tinha cheiro de incenso e café velho. Era simples, mas arrumado no improviso: uma sala pequena com sofá de dois lugares, uma estante de ferro cheia de livros abandonados por antigos moradores, e um ventilador antigo no canto. A cozinha era minúscula, com azulejos brancos trincados e uma geladeira adesivada com frases e desenhos.

No quarto, o ambiente ganhava mais vida. Duas camas de solteiro ocupavam boa parte do espaço, cobertas por um lençol escuro e um edredom amassado. Na parede, fotos presas com fita, pôsteres de bandas e desenhos feitos à mão. Em cima da cômoda, um abajur rosa, uma garrafa de vinho aberta e uma caixa de som. Algumas roupas jogadas numa cadeira completavam o cenário.

— Os móveis vieram com a casa — ela explicou, abrindo a janela. — O resto é culpa minha.

Olhei em volta. Não era o tipo de lugar que impressionava, mas tinha uma energia boa, de quem habita e não só mora. Era pessoal, bagunçado e vivo.

— E aí, o que achou? — perguntou, me observando.

— Achei… meio apertada — respondi, sem pensar demais. — Será que cabe nós duas?

Ela sorriu, encostou o ombro na parede.

— A gente se aperta. Eu sou pequenininha — fez um charminho, levantando a sobrancelha. — Vou tomar um banho porque tô podre. Tu me espera?

— Vai lá. Eu fico de boa. Meu ônibus só sai à noite. Devia ter marcado mais cedo.

Sentei na cama que provavelmente seria a minha e deixei o corpo afundar no colchão. Olhei em volta com um frio bom na barriga. Era medo e empolgação juntos. Primeira vez longe de casa. Primeira casa minha e de mais alguém. A sensação de que a vida, finalmente, tinha engatado a primeira.

Lelê abriu o armário, puxou uma muda de roupa e largou sobre a cama dela. O coque, teimoso, não parava. Era a terceira ou quarta vez que eu via ela refazendo, os fios lisos escapando pela nuca. Então ela virou de costas e tirou a blusa com um gesto rápido, distraído, como quem vive assim, como se fosse íntima minha. Engoli seco, surpresa por um segundo com a naturalidade. Não era exatamente absurdo, mas tinha algo de íntimo ali, no primeiro dia.

Quando ela se virou de lado, ainda ajeitando as coisas, reparei melhor no corpo miúdo e nos seios que não eram tão pequenos quanto eu havia imaginado. Médios, harmônicos com ela. O sutiã, porém, parecia um número menor: alças cavando de leve no ombro, a lateral marcando a pele. Parecia desconfortável.

— Esse aí tá te apertando — falei antes de pensar.

Ela riu, simples.

— Tá mesmo. Mas é o que tem limpo. — Ela parou para se olhar colando o queixo quase no peito e depois voltou atirando — E para de olhar para meus peitinhos.

Prendeu o cabelo de novo, pegou a toalha e parou na porta do banheiro.

— Vou deixar a porta entreaberta aqui, se quiser entrar para conversar eu não tenho problemas com isso, só deixa fazer cocô primeiro.

— Tá pode ir que eu não quero ver você fazendo cocô! — falei rindo da naturalidade dela.

Assenti. Ela sumiu atrás da porta, passaram-se um dez minutos de silêncio e o chuveiro começou a bater no azulejo, um barulho constante que preenchia o quarto. Fiquei olhando as fotografias presas com fita, os pôsteres de banda, a bagunça toda ao redor.

Alguma coisa em mim se moveu — curiosidade, talvez. Ela era bonita. Bonita de um jeito que chamava atenção sem pedir, como se a própria presença tivesse luz. Fiquei olhando para a porta encostada do banheiro, escutando o som da água batendo no piso, e senti um arrepio subir leve pelo corpo, desses que a gente não sabe se vem do frio ou de outra coisa.

Antes que o impulso passasse, levantei. Parei diante da porta entreaberta. Quis ver e, mas ao mesmo tempo, queria disfarçar.

— E quanto você paga de luz, internet e gás? — perguntei, tentando soar prática.

— Entraaa, eu não tô te ouvindo! — ela gritou lá de dentro.

O som da água engolia minha voz. Repeti, um pouco mais alto, rindo por dentro da desculpa esfarrapada que tinha escolhido.

— Eu disse, quanto você paga de…

Empurrei a porta com cuidado. O vapor escapou em ondas mornas, cheiro de sabonete e doçura no ar. A luz suave fazia o banheiro parecer menor, íntimo, e o box, com a cortina aberta como quem não se importa de ser vista — ou como quem gosta de molhar o chão inteiro — me entregou a cena. Ela sob a ducha, inteira. Pequena, os seios redondos e firmes brilhando de água, o piercing no mamilo um detalhe insolente que deixava aquele corpo delicado ainda mais magnético. A curva dos ombros cedia numa linha limpa até a cintura, e a bunda, lisa e redonda, parecia maior agora, nua, convidativa, como se soubesse a exata medida da minha mão para ser apertada. O pubis rosado, com pelos ralinhos e aloirados, tão finos que quase não existiam, pareciam de alguma forma me chamar.

Fiquei parada, hipnotizada, o olhar preso ao caminho da água desenhando nela tudo o que eu queria tocar. Foi ali que entendi: não era curiosidade. Era tesão. Eu a desejava como quem reconhece uma música de longe e, de repente, precisa dançar.

Pensei em dar meia-volta, mas não dei. O corpo acendeu em mim num calor que vinha de dentro, antigo e novo ao mesmo tempo. Eu desviava os olhos para disfarçar e, sem querer, voltava. Era ela quem me puxava de volta, como se o próprio vapor me empurrasse para dentro daquele instante.

Lelê riu, a voz brincando no azulejo.

— A conta é dividida no meio, nome de flor! — gritou, divertida. — Quanto dá, eu não faço ideia. Quem paga é meu pai.

Eu não ouvi a resposta.