Capítulo 3

Quando ela terminou o banho, fechou o registro e virou-se de costas num gesto calmo, quase ensaiado. Prendeu o cabelo com as mãos, espremendo a água que escorria pela nuca. De onde eu estava, a bunda branca e redonda parecia esculpida, sem marcas, compacta. Ela passou as palmas pelos braços, varrendo o excesso de água, e depois se inclinou para fazer o mesmo nas pernas. No instante em que abaixou, vi mais do que ela tinha me mostrado até então. Foi um relance, suficiente para o coração disparar. Pensei em desviar o olhar. Não desviei.

A essa altura, eu sabia: ela se exibia de propósito. Ninguém fica tão à vontade assim por acaso. Quando voltou a me encarar, estendeu a mão, simples, pedindo a toalha.

— Me dá essa toalha aí?

Entreguei sem graça, tentando não encostar nos dedos dela.

— O que foi, garota? Tá nervosa de me ver pelada?

— Não… só não tô acostumada.

Ela sorriu, brincando com a borda da toalha antes de passá-la pelo peito.

— Então se acostuma. A gente vai se ver pelada todos os dias.

— Isso é seu truque pra conseguir colegas de quarto? Ficar pelada? — provoquei, tentando disfarçar o embaraço.

Ela riu alto, sincera.

— Olha, eu não tinha pensado nisso… mas é uma boa ideia.

Peguei o celular da mesa, sem nem saber o que procurava. Era só uma desculpa, qualquer coisa que me fizesse respirar.

— Acho que eu vou embora, talvez consiga um ônibus mais cedo. No caminho falo com meu pai.

— Poxa… podia ficar. — A voz dela veio mais baixa, arrastada. — Gostei de você, sabia?

Enquanto falava, começou a se secar com a toalha, num movimento lento, quase estudado. Passou o pano pelos ombros, depois pelos seios, o tecido afundando e voltando, desenhando tudo. Desceu até a barriga, torcendo o quadril de leve, como quem sabe que está sendo observada. A toalha seguiu o contorno das coxas, deslizando até o meio delas. Quando chegou à virilha, ela hesitou por um instante, e então, sem pudor, afastou a toalha e retirou um pequeno fiapo preso nos poucos pelos pubianos, rindo sozinha do gesto.

— Odeio quando isso acontece — comentou, casual, enquanto tirava o pelinho com cuidado.

Meu rosto queimou. O olhar queria fugir, mas não conseguia. A toalha pendia frouxa de uma das mãos, e ela ali, natural. Eu, parada, imóvel, sentindo o desconforto e o desejo se confundindo dentro de mim.

Eu queria perguntar tanta coisa, abrir a boca e ver até onde aquilo iria. Mas eu sabia — se eu deixasse escapar qualquer palavra, podia desandar. E eu queria. Eu juro que queria. Só que o medo veio junto, misturado com algo quente que subia do ventre, um calor espesso que me deixava sem ar.

Entre as pernas, senti o tecido úmido e percebi o que meu corpo já sabia. Fiquei assustada comigo mesma. Era desejo demais para uma primeira tarde.

Em desespero, me despedi rápido, sem nem olhar direito pra ela, inventando qualquer pressa. Saí quase tropeçando, o som da voz dela ficando pra trás.

Na rodoviária, o mundo parecia fora de foco. O mundo girou e as pessoas faziam suas coisas sem perceber o que eu sentia — ou do que quase aconteceu. A imagem dela, nua, molhada, o sorriso, o jeito de se secar… tudo voltava em fragmentos que me faziam apertar as pernas ao andar. Eu sentia a calcinha cada vez mais úmida, colando em mim, e o coração batendo no mesmo ritmo.

Corri para o banheiro assim que cheguei. Paguei a entrada com as mãos trêmulas e entrei na primeira cabine que encontrei. Fechei a tranca com força, respirei fundo. O corpo ainda queimava, como se ela tivesse me seguido até ali, como se a língua dela ainda estivesse me tocando.

Empurrei a porta da cabine e fiquei parada um segundo, com a testa encostada na madeira. O zumbido do lugar vinha em ondas: vozes distantes, o barulho de uma descarga, passos apressados no corredor. Apoiei as mãos no trinco e respirei devagar, até o coração errar menos. Inclinei o corpo, espiei por baixo: pés indo e vindo, duas portas batendo e depois silêncio. Esperei. Nada. Só o pingar insistente de uma torneira mal fechada.

Levantei o vestido como quem comete um crime. Meus dedos tremeram nos elásticos. Quando abaixei a calcinha, o ar frio bateu e um fio espesso esticou entre o tecido e mim, brilhando antes de se romper. O cheiro veio junto, morno, inconfundível, me devolvendo a ela como um tapa. Eu estava encharcada. Exagerada. Ridícula.

Apoiei um pé no vaso de pé, pernas afastadas o máximo que o medo permitia. Passei a ponta dos dedos por mim só para “ver”, só para entender, e o corpo respondeu como se tivesse sido esperado o dia inteiro por aquele toque. Um choque curto subiu pelo ventre e minhas coxas fecharam sozinhas, como se eu precisasse me conter de mim mesma.

Mordi o dorso da mão para prender o som que escapou. O primeiro, sem controle, um ai minúsculo. Fiquei quieta, contando os segundos. Ninguém do lado de fora. Ninguém.

Voltei. Desci dois dedos, sem pressa agora, descobrindo o caminho como quem reconhece uma casa no escuro. Toquei o que mais doía de querer e foi como se o chão cedesse sob meus pés. Curvei o corpo para trás, apoiei a mão no joelho e a outra mão trabalhando devagar, em círculos curtos Pensava como ela tinha tornado inevitável meu desejo por seu corpo, com a toalha, com o sorriso. Era ela de novo. Os seios sob o tecido, a gota descendo pelo umbigo, a maneira casual com que tirou o pelinho e me olhou sorrindo.

O banheiro tinha cheiro de produto de limpeza barato e azulejo molhado. O meu cheiro cortava por dentro disso, insistente, escuro. Eu respirava pela boca, raso, tentando não fazer barulho. Quando apertei um pouco mais, os lábios se abriram sozinhos e eu precisei me segurar com força para não ranger os dentes. A mão virou mordaça. Eu me mastigava em silêncio.

De vez em quando, parava. Por medo. Por estratégia. Porque a onda subia rápido demais, ameaçando me levar antes de eu poder escolher. Eu queria escolher. Queria prolongar a tortura só o suficiente para que a memória dela coubesse inteira aqui. Então eu voltava. Mais leve. Mais curto. Mais fundo. A pele vibrando sob a ponta dos dedos, o ritmo nascendo no quadril antes de chegar à mão. Eu não controlava o balanço. O corpo, sim.

Pensei no que não disse. Em como ela me pediu para ficar. Na voz mais grave, arrastada, no “gostei de você” que me desmontou por dentro. Imaginei o que teria sido se eu tivesse trancado a porta do quarto em vez de fugir. A mão dela, não a minha. O pano da toalha arranhando de leve, o joelho pressionando a minha coxa, o piercing frio tocando minha língua. A fantasia veio inteira de uma vez, e meus dedos escorregaram, mergulharam, envergonhados e famintos ao mesmo tempo. Um gemido queria nascer. Afoguei a boca na mão e deixei só o ar escapar, quente, úmido, como se eu cuspisse um segredo.

O pulso ganhou cadência. Reparei que eu já não pensava em palavras. Pensava em texturas. No peso da água quando ela torceu o cabelo. Na curva da lombar. No vazio entre as pernas quando ela se inclinou. Nos poucos pelos dourados que não escondiam nada. Aquilo tinha me acendido de um modo que agora era urgência. E urgência não combina com elegância.

Apoiei as costas, abri um pouco mais as coxas, o vestido subiu até a cintura. A mão de cima manteve a mordaça firme, a outra desenhava círculos mais rápidos, parando e apertando em certos pontos, como se eu tivesse treinado para esse minuto. Havia um ponto que respondia como se fosse um botão, e quando eu passava por ele, o corpo inteiro concordava. Eu voltava lá. De novo. E de novo. Fui ficando sem ar. O braço doía. Não importava.

Senti a primeira contração anunciar o começo do fim. Uma fisgada ao fundo, profunda, como se alguém puxasse um fio preso na base de mim. Mudei o ritmo, quase parando. Um cuidado cruel. Quis saborear. Pensei no gosto da pele dela molhada. No som de sua risada dentro do box. Na insolência leve com que disse que a gente ia se ver pelada todos os dias. O futuro encaixado numa frase. Eu quis esse futuro inteiro dentro daquela cabine.

O corpo não esperou a filosofia. Eu perdi o compasso por um segundo e a onda veio. Muni a mão de mais firmeza e deixei. O prazer subiu da pelve para a barriga como um calor que não cabia. Tremeram minhas coxas, meus dedos, meus dentes. Eu apertei a boca com tanta força que senti o gosto metálico da pele. Os olhos fecharam, não por escolha. Tentei respirar e não consegui. A primeira explosão me arrepiou a nuca, o couro cabeludo, a base da coluna. E eu ainda precisava segurar o som. Joguei o peso contra a porta para apoiar, uma madeira fina de universo inteiro, enquanto o corpo fazia o que sabia e eu só obedecia.

A segunda onda foi pior. Melhor. Mais funda. A mão escorregou e encontrei outra forma de pressionar, um arrasto curto que fez tudo perder contorno. Fiquei imóvel por um instante, presa na própria corrente, e então vieram as contrações. Uma, duas, três. Longas. Eu mordi mais. A garganta em brasa. O rosto molhado, não sei se de suor, de lágrimas ou do vapor improvável que parecia sair de mim. O mundo reduziu a azulejo, metal, e aquele centro de fogo que me rompia em silêncio.

Quando amansou, eu ainda tremia. A buceta latejava e o silêncio do banheiro tinha voltado mais frio. Afrouxei a mão da boca e respirei fundo, puxando o próprio cheiro. Abri os olhos devagar. O corpo ainda pulsava em ecos, pequenas marolas que se repetiam como lembranças teimosas. Encostei a testa no braço e ri sem som aliviada.

Limpei os dedos no papel higiênico com cuidado, tentando apagar as pistas, mas os sinais continuavam em mim: a pele sensível, o ritmo mais lento do coração, uma paz cansada. Levantei a calcinha ainda morna, sentindo-a colar, um lembrete íntimo do que eu tinha feito e do que eu queria fazer de novo. Arrumei o vestido, lavei as mãos com pressa, joguei água no rosto.

Mais tarde no ônibus, dormi a viagem inteira, feliz, tranquila e aliviada.