Capítulo 4

Cheguei em casa ainda com o corpo quente da estrada. Minha mãe estava na sala, em alerta, num aspecto nervoso, energia de panela de pressão. Meu pai sorria como quem carrega um troféu: a filha na faculdade. Sentei, tirei o tênis ali mesmo e comecei a contar tudo, detalhe por detalhe, do edital ao bar, da vila às salas cheirando a tinta. Pulei só as partes em que a filhinha dele se comportou como uma tarada e a loucura que fiz na rodoviária. Isso ficou guardado entre eu e a minha calcinha que eu ia ter que esfregar muito no banho.

Vieram as perguntas em enxame. Um milhão. Respondi todas, até onde deu. Meu irmão, um ano e meio mais novo, apareceu no corredor com cara de “tanto faz”. Ele só queria o holofote longe de mim e, se pudesse escolher, da minha voz também.

— Pai, o lugar é pertinho da faculdade. Fico eu e só mais uma menina. Dá pra pagar? — falei já preparando o terreno.

— Filha, eu preciso ver de perto, tá? — ele me abraçou do jeito de sempre, forte, cheiro de loção de barba. — Vou ligar pro pai da tua amiga, conversar direitinho, ver o local, essas coisas.

— Ótimo. Não sei se é o melhor dos mundos, mas achar de primeira foi sorte grande.

Minha mãe, desconfiada, entrou atravessando:

— Quem é essa menina? Tem família? Você vai morar com uma estranha?

— Mãe, de qualquer jeito eu ia morar com uma estranha. Essa pelo menos eu já conheci, e o pai dela é delegado. O papai conversa com ele antes.

— Se for assim… — ela respirou, um pouco — eu fico mais tranquila.

Aí veio o sermão que toda mãe guarda pronto. Sobre o que eu não fiz, o que eu não devia fazer, o que mulher não pode esquecer. Eu estava faminta por aquela vida nova, então escutei calada, cabeça balançando, engolindo cada regra como quem assina contrato.

— E essa casa? — meu pai voltou ao ponto, prático. — Rua, número, preço, o que tem dentro?

— Duas camas, cozinha minúscula, ventilador antigo que parece um helicóptero querendo decolar. Tem um pátio no meio com uns vasos vazios, dá pra colocar planta. A conta é dividida. Quem acerta com o dono é o pai dela. Eu te passo o número.

Ele pegou o celular, já anotando, metódico. Minha mãe cruzou os braços, olhando por cima do óculos.

— E essa menina… ela trabalha? Estuda? Bebe? Fuma?

— Estuda. Psicologia. E… só. — Dei um sorriso. — Fumar ela não fuma, porque foi a primeira coisa que ela me perguntou.

Meu irmão bufou da porta:

— Essa mina aí é gostosa pelo menos?

Mandei ele à merda com os olhos e voltei pro sofá. Meu pai insistiu que ia ver tudo no sábado, cedo, de preferência. Eu disse que tudo bem, que eu ia junto, que a gente podia medir as paredes com fita e já pensar onde enfiar meus livros. Minha mãe fez mais duas rodadas de conselhos, um terço de ameaças brandas e uma oração mental que eu senti de longe. Assenti em todas.

Deixei o número com meu pai e fui direto pro banho. Quando tirei a calcinha, quase me assustei: branca, o tecido endurecido.

— Puta que pariu… siririca em banheiro de rodoviária é pedir pra pegar uma infecção — murmurei rindo, meio incrédula comigo mesma.

Ri da minha própria loucura, do dia que parecia um filme e do quanto tudo tinha sido intenso. Eu queria ligar pra ela, contar que já tinha falado com meu pai, que ele ia ligar pro dela no dia seguinte. Mas assim que a ideia surgiu, o corpo reagiu primeiro que a razão. Pensei nela. No sorriso enviesado, no jeito distraído com que prendia o cabelo, sempre torto, como se nunca conseguisse fazer um coque direito. Aquela desordem me dava um calor.

Saí do chuveiro, lavei a calcinha na pia e pendurei no box — pro ódio garantido do meu irmão, que vivia reclamando disso. Penteei o cabelo, espalhei o creme pelas pernas, segui o ritual da pele. No espelho, ainda havia um brilho no meu rosto que não vinha só do banho.

Fui pro quarto, o celular na mão. Era tarde, mas a vontade venceu o bom senso. Toquei uma vez. Nada.

— Por que não uma segunda? — sussurrei pra mim.

Toquei de novo. Silêncio.

O quarto em silêncio, só o ruído distante da televisão na sala. Fiquei olhando pro teto, aquela saudade fresca e tola apertando o peito. Triste por ela não ter atendido. Mas aí, como se o universo tivesse ouvido meu pensamento, o celular vibrou.

Uma chamada de vídeo.

Era ela.

Atendi sem pensar.

— Caralho, garota, quantos anos tu tem? Sessenta? — ela começou, com aquele riso debochado.

— O quê? Por quê? — perguntei, confusa.

— Quem é que liga hoje em dia? — ela deu uma pausa, o canto da boca subindo — Chamada de vídeo, se quiser falar comigo, amore.

— Ah, é que eu tô horrível, acabei de sair do banho.

— Que nada, tá gata — ela riu, o som leve — Mas fala aí.

A imagem tremia um pouco, mas o que deu pra ver bastou: ela deitada, pijaminha de cetim rosa, a cabeça afundada num lençol cheio de bichinhos. O cabelo solto, bagunçado, com as pontas ainda rosadas. Um cenário simples, íntimo, e ela ali — rindo pra mim como se fosse minha namorada.

Contei pra ela tudo da volta pra casa. Ou quase tudo. Aquela parte do banheiro, eu guardei pra mim. Do outro lado da tela, ela ouvia em silêncio, respondendo com “uhum”, “aham”, “sério?” enquanto eu falava sem freio, empolgada, tagarelando feito quem precisava descarregar o dia inteiro.

— Então é isso. Amanhã meu pai liga pro sei pai para ver o aluguel e sábado a gente vai aí ver a casa, tá bem?

— Tá sim… — ela parou de andar, se ajeitou de lado na cama, a câmera tremendo um pouco. Me olhou de um jeito demorado, meio curioso, meio íntimo. — Eu queria te perguntar uma parada.

— Que parada? Se eu tenho bicho? — brinquei, pra quebrar o gelo.

— Não… — ela desviou o olhar, segurando o riso. — Tu pega minas?

Fiquei muda por uns segundos. Aquilo me pegou de jeito. O coração bateu torto, a pele formigou. Tentei disfarçar, mas acho que ela percebeu o jeito que meu olhar fugiu.

A cabeça começou a girar. Ela podia se sentir desconfortável. Talvez tivesse notado alguma enquanto tomava banho, também eu estava encarando ela pelada. E se fosse isso? E se ela não quisesse morar com uma lésbica? Uma coisa é dividir o teto com hetera. Outra coisa é dividir teto com uma mulher que olha pra você de um jeito que não devia. Pior: e se alguma coisa acontecesse? Se rolasse algo e a convivência virasse uma prisão disfarçada de romance?

Imaginei meu pai, sério, perguntando por que eu queria mudar de república. O que eu diria? “Pai, chupei a boceta da minha roommate e olha só no que deu!” Não tem como. Tem contrato e essas coisas.

Engoli seco, olhando pra tela, tentando achar uma resposta que não me traísse.

— Olha… eu fico sim, já fiquei, só nunca namorei — falei baixo, a voz saindo mais suave do que eu queria.

Ela arqueou uma sobrancelha. — Tu tá no armário ainda?

— Tô. É que… nunca encontrei alguém que valesse a dor de cabeça, sabe? — respondi tentando rir, mas a lembrança de tudo que não deu certo passou inteira na minha cabeça. Na verdade, eu sabia: o problema era eu. Sempre fui covarde demais pra bancar o que sentia. — Por que tu tá me perguntando isso?

Ela mordeu o canto da boca, pensou um segundo e soltou:

— Sei lá, cara… te vi me comendo no banheiro com os olhos, porra. Quis saber, só.

Fiquei dura. A vergonha subiu quente, queimando as orelhas.

— Ah, não… que vergonha. Me desculpa, juro que eu nem tava olhando — menti, vermelha, escondendo o rosto com a mão, sentindo o corpo inteiro denunciar o contrário.

— Tá bom que eu acredito nisso — ela gargalhou, aquela risada solta, debochada, que me desmontava. — Relaxa, pô. Eu sou nudista!

— Nudista? Sério? Tu é cheia de facetas, hein. — minha voz saiu meio rindo, meio nervosa, eu não acreditava naquilo, óbvio.

— É, pô. Lá em casa, terça é o dia das minas. A mulherada vai, todo mundo pelada.

— Isso me parece mais uma suruba! — brinquei, tentando esconder o calor subindo pelo pescoço.

— Zueira, pô… mas falando sério, eu não ligo não. Pode olhar, eu gosto que me olhem. — ela aproximou o celular, o enquadramento fechando nos lábios. Rosados, úmidos, sem batom.

Quase beijei a tela.

— Mas eu gosto de ver também — ela murmurou, voz baixa, um sussurro que fez meu ventre reagir.

Engoli seco e tentei retomar o controle.

— Você tá me cantando, menina? — saiu num tom entre provocação e desejo, a respiração meio descompassada, o corpo inteiro pedindo pra ela dissesse sim.

Desconversei na hora. Eu não sou burra — conheço bem o tipo aventureiro. Aquele papo ia esquentar, virar provocação, nudes, e tudo que vem depois. E, apesar de querer, queria diferente. Queria o toque, o cheiro, o olhar ao vivo.

Respirei fundo, fingi um bocejo.

— Vou dormir, amanhã acordo cedo — falei rápido, já procurando o botão de encerrar.

Ela fez cara de quem não queria.

— Ah, qual é… agora?

— Agora. — sorri sem graça. — Boa noite, nudista.

Desliguei sob protestos e fiquei ali, com o coração batendo no pescoço, a tela escura refletindo meu próprio rosto aceso.