Capítulo 14
Lelê foi pro banho e eu fiquei ali, deitada de lado na cama bagunçada, contemplando os sinais que a vida tava me dando na cara. É impressionante como nós mulheres vemos as red flags piscando que nem neon na nossa cara, mas a gente sempre tende a normalizar tudo, né? A gente inventa mil desculpas: “Mas também não é assim…”, “Ela vai melhorar…”, “É só o jeito dela…”. Mas na verdade, nunca melhora. Só piora, e piora muito.
Ali naquele momento, o que eu mais queria era sair pela cidade de mãozinhas dadas — porque ela tinha falado qualquer coisa sobre ir pra rua mais cedo, tomar uma, sei lá. Eu imaginava a gente andando de noite, rindo de besteira, o braço dela no meu, o cheiro dela ainda na minha pele. Coisa de filme, coisa de quem acabou de descobrir que gosta de mulher e já quer namorar no dia seguinte.
Mas eu não sou nenhuma emocionada também. Tudo bem que eu tinha acabado de ter a melhor transa da minha vida — a sapatão quase chupou o meu cérebro pela vagina, me deixou tremendo, choramingando, destruída de um jeito que nenhum homem nunca tinha conseguido. Mas eu sabia que minha euforia era muito pela novidade do que tinha acontecido. Era o corpo falando mais alto, o tesão novo, o “nossa, então é isso que eu tava perdendo?”. A cabeça, pelo menos uma parte dela, ainda tava no comando.
Minha dignidade foi voltando aos pouquinhos, como quem acorda de uma bebedeira e começa a lembrar das merdas que fez. Levantei devagar, as pernas ainda moles, a buceta sensível latejando a cada movimento. Peguei minha calcinha do chão e me sequei com ela mesmo, passando entre as pernas pra tirar o grosso do que tinha escorrido. Joguei uma blusa larga por cima, ficando com nada por baixo, o tecido roçando na pele ainda quente, nos seios doloridos de tanto apertão. Era uma demonstração sutil, né? Tipo “olha, tô aqui, fácil acesso, se quiser mais um round…”. Eu tinha alguma esperança idiota de que ela ia abrir a porta do banheiro, me puxar pra dentro, a gente ia se ensaboar uma na outra, se pegar de novo e continuar onde tinha parado.
Mas a porta do banheiro tava trancada. O chuveiro batendo forte lá dentro, o vapor escapando por baixo da porta, e nenhum chamado, nenhum “vem cá, nome de flor”. Aquilo me dizia nas entrelinhas que não ia acontecer. Que o que rolou foi só isso: uma foda incrível, intensa, mas pra ela, talvez só uma foda. Ponto.
Fiquei parada no quarto, olhando pro nada, o silêncio da casa me apertando o peito. O cheiro de sexo ainda no ar, o lençol amassado, o vibrador jogado no canto como testemunha muda. Respirei fundo, sentei na beira da cama e peguei o celular, só pra fazer alguma coisa com as mãos. Abri o Instagram, fechei, abri de novo. Nada. Nenhuma mensagem dela, óbvio — ela tava a dois metros de distância, mas parecia um oceano.
“Violeta, acorda. Isso aqui vai doer mais do que o roxo na tua bunda amanhã.”
Eu tava ali, sentada na beira da cama, olhando pro vazio, repetindo isso na cabeça como um mantra de quem já tá se preparando pro tombo emocional. Aí a porta do banheiro abriu de repente e o pequeno furacão chamado Lelê saiu de dentro, enrolada numa toalha minúscula de rosto de um jeito quase que impossível, o cabelo pingando, falando de forma acelerada e empolgada com o telefone nas mãos.
— Se arruma rapidinho, veste qualquer coisa que a banda das meninas vai tocar no bar das “sapatão” agora. E a turma tá toda lá — falou sem tirar os olhos do celular, digitando rápido como se o mundo fosse acabar se ela parasse. — Eu sou muito burra, cara, tinha combinado com elas e esqueci completamente.
Eu ri da empolgação nova dela. Parecia legal mesmo, confesso. Depois de tudo que rolou, sair, ver gente, ouvir música, tomar uma… era melhor do que ficar ali no quarto processando o que tinha sido só uma foda pra ela. Me empolguei na hora, o corpo ainda leve do prazer, e corri pro banheiro. Mas ao cruzar com ela na sala, nem uma simples demonstração de afeto — nem um beijinho no canto da boca, nem uma mão na cintura, nem um “tchum”. Nada. Ela só passou… direto.
Aquilo doeu um pouco. Um apertinho no peito, rápido, mas fundo. Mas tudo bem… Foi só um lance pelo visto. Eu já sabia, né? Não ia forçar barra.
A porta ficou aberta, o vapor saindo, e ela me trouxe uma toalha limpa sem nem olhar direito, já correndo pra guardar e lavar as coisas que a gente usou — o vibrador na pia, as roupas jogadas no cesto, como quem apaga evidências rapidinho. Eu tomei banho rápido. Eu estava me coçando pra perguntar “Lelê, aquilo significou alguma coisa pra você?”, mas eu sabia a resposta. Claramente não. Não tinha significado nada além de uma boa foda pra matar vontade.
Saímos apressadas, eu de short jeans e uma blusa solta, cabelo ainda úmido preso num coque torto igual o dela, ela de calça rasgada e camiseta de banda, a mochila velha nas costas como sempre. O bar era muito perto de onde morávamos agora — uns dez minutos a pé, cortando as ruas da vila, o ar da noite fresco batendo na pele.
Chegamos e o ambiente tava aceso, tudo meio Tilelê — luzes coloridas piscando no teto baixo, bandeiras arco-íris nas paredes, o pôster do sarau ainda pregado, a jukebox tocando um rock antigo misturado com batida eletrônica. Mesas lotadas de meninas rindo alto, casais se comendo com os olhos, grupos dividindo cerveja e cigarro eletrônico. Dona Zeca atrás do balcão, levantando o queixo pra Lelê num cumprimento de sempre.
A banda das meninas já tava no palco passando o som — quatro sapatão com cabelo colorido, guitarra, baixo, bateria e uma vocalista com voz rouca que parecia que fumava três maços por dia. Elas estavam arrumando as coisas para o show e interagindo com a platéia que se formava.
Lelê me puxou pela mão — finalmente um toque, mas era só pra abrir caminho na multidão — e foi direto pro grupo de amigas dela, abraçando todo mundo, rindo alto, apresentando rapidinho:
— Essa é a Violeta, minha nova roommate!
As meninas me olharam de cima a baixo, sorrisos maliciosos, tipo “ah, então é essa a nova vítima”. Eu sorri de volta, pedi uma cerveja, encostei na parede observando tudo. O lugar tava quente, cheiro de cerveja, suor e perfume barato, o baixo da música vibrando no peito.
O show das meninas não demorou pra começar e logo vi que talento era o que elas menos tinham. Uma gritaria pós-punk misturando com um modernismo estranho, uma coisa conceitual que parecia mais barulho do que música. Pra piorar, todo mundo entrou pra assistir e o ambiente virou um forno. Imagina um monte de mulher num lugar apertado e quente — o quanto de perfume, cosmético, suor e hormônio tinha no ar? Era quase denso de tão tóxico.
Eu sinalizei pra Lelê que se divertia dançando sozinha no meio do grupo de amigas, aquelas que não me deram muita ideia, só um oi rápido e olhares curiosos — que ia pra fora. Ela acenou distraída, já meio colada numa das meninas, rindo alto, e eu saí com a minha cerveja na mão, procurando um canto pra respirar.
Lá fora o público era diferente: mais velho, mais diversificado também. Tinha casais de homens jogando conversa fora, uns caras mais velhos no dominó, umas minas tranquilas fumando. Não tinha lugar pra sentar e eu fiquei em pé encostada na parede, bebendo devagar, as pernas ainda moles de tudo que rolou mais cedo, o corpo lembrando a cada movimento.
Aí uma mulher fez uma coisa que eu achei muito legal.
— Menina, tá sozinha aí? Tô vendo que você tá procurando alguma coisa.
Era uma mulher mais velha, de quase uns quarenta anos, conservada, cabelo curto tingido de loiro, maquiagem leve, mas com uma cara de aspecto cansado — aqueles olhos que já viram muito, ruguinhas no canto, como quem trabalha dobrado e ainda sorri. Vestia uma blusa solta, calça jeans, tênis confortável. Tinha um ar de quem frequenta o lugar há anos.
— Eu tava procurando um lugar pra sentar um pouco, tô com as pernas cansadas — reclamei, sem falar que o motivo de estar assim era a Lelê lá dentro.
— Senta aí, então, me faz companhia — ela sorriu gentilemente, apontando a cadeira vazia na mesa dela.
A mesa era encostada na parede do bar do lado de fora, logo na entrada, aquelas mesinhas pra dois, tipo pra casais. Tinha só duas cadeiras, uma garrafa de cerveja pela metade e um cinzeiro com uns bitucas. Fiquei meio tensa na hora — o que os outros iam pensar? O que a Lelê ia pensar se saísse e me visse ali sentada com uma mulher que tinha idade pra ser minha mãe? Nada a ver, né? Eu nova na cidade, no rolê, conversando com uma mina mais velha. Parecia até cantada, mas o jeito dela era só simpático, sem segunda intenção visível.
Mas as pernas doíam mesmo, o calor lá dentro tava insuportável, e a companhia parecia boa. Me sentei, puxando a cadeira pra perto, a cerveja gelada na mão.
— Obrigada, sério. Tava quase derretendo lá dentro — falei, rindo pra quebrar o gelo.
Ela deu uma risada baixa, acendeu outro cigarro, ofereceu o maço pra mim — recusei com a cabeça — e se inclinou um pouco pra frente.
— Eu entendo. Esses shows das meninas são assim mesmo: ou você ama ou finge que ama pra não ficar de fora. Eu me chamo Mara. Venho aqui desde que abriu, praticamente criei o lugar com a dona Zeca.
Eu ri, relaxando um pouco. Me apresentei também, e a conversa fluiu fácil, ela perguntando de onde eu era, o que eu estudava, como tinha caído ali. Contei o básico — caloura de psico, nova na cidade, morando com a Lelê. Evitei os detalhes da tarde, óbvio.
Enquanto isso, a música lá dentro vazava abafada, a galera gritando, e eu olhava de vez em quando pra porta, esperando ver a Lelê sair procurando por mim. Mas nada. Mara notou, deu um sorriso compreensivo e completou a cerveja dela.
— Relaxa, menina. Aqui todo mundo vem e vai. Aproveita a noite.
Eu assenti, bebendo mais um gole, sentindo o fresco da rua bater na pele. Mas por dentro, aquele apertinho ainda tava lá. Lelê dançando com as amigas, eu aqui fora com uma mina mais velha nada haver me fazendo companhia.
Parecia o começo de uma história que eu não sabia se queria viver. E, caralho, a noite ainda tava só começando
Continua.

