Capítulo 15

Vocês quando bebem ficam mega chatas e falando pelos cotovelos? Pelo visto eu sim. E pra piorar, Mara era do tipo que amava ouvir histórias — daqueles ouvintes perfeitos, que inclinam a cabeça, fazem “hum” na hora certa, sorriem com os olhos e te deixam falar sem interromper. Em menos de uma hora, sem perceber, eu já tinha contado tudo pra ela. Coisa que eu nunca fui muito de fazer, despejar a vida pra estranho. Mas ali, com a cerveja descendo fácil, o fresco da noite batendo e ela enchendo meu copo toda vez que esvaziava, a boca foi soltando sozinha.

Quando eu falo tudo, eu tô falando de tudo que envolvia a Lelê. A fila da matrícula, o bar escondido, a casa na vila, o banho com a porta entreaberta, a tarde inteira de sexo incrível, mas aqui eu não contei detalhes, claro. Eu ria nervosa contando, mas por dentro tava doendo, e a voz saía meio embargada, meio debochada pra disfarçar.

E eu estava sendo tão idiota que sequer perguntei uma coisa sequer sobre a mulher que tava na minha frente, pacientemente me ouvindo. Nada sobre a vida dela, o trabalho, por que ela frequentava o bar desde que abriu. Só eu, eu, eu e a Lelê no centro de tudo.

Ela só fazia encher meu copo de novo — “mais uma pra relaxar, menina” —, acender mais um cigarro, dar uma tragada lenta e pontuar a conversa com uma pergunta aqui e ali, daquelas que deixavam algo claro pra ela, como quem já sabe o caminho da história antes de você chegar no fim.

— E ela te chamou de “nome de flor” desde o começo, né? — perguntou numa hora, sorrindo de canto, os olhos fundos brilhando como se já tivesse ouvido variações dessa mesma novela mil vezes.

— Sim… e eu odiava, mas agora até gosto — respondi, rindo baixinho, sentindo o calor da cerveja subir pra cabeça.

— Essas meninas mais novas… — ela balançou a cabeça, divertida, mas com um fundo de quem entende o mecanismo inteiro. — Elas chegam como furacão, bagunçam tudo e depois vão embora deixando a gente arrumar a casa sozinha.

Eu assenti, bebendo mais um gole. Ela falou mais algumas coisas assim — frases curtas, precisas, que acertavam no meio do peito sem forçar. Tipo “o primeiro impacto sempre parece único, mas é só o corpo falando novo”, ou “cuidado pra não confundir tesão bom com amor que ainda não chegou”. Parecia conselho de tia sábia.

Eu só não cheguei no ponto de chorar porque não tinha bebido o suficiente. Mas tava perto. O copo já tava no quarto ou quinto, a cabeça leve, e eu olhando pra porta do bar de vez em quando, esperando ver a Lelê sair procurando por mim, com ciúme ou pelo menos curiosidade. Mas nada. A música lá dentro ainda vazava, a galera gritando no refrão, e eu aqui fora, abrindo o coração pra uma estranha que escutava como se já soubesse o final.

Mara apagou o cigarro, olhou pra mim com aquele sorriso cansado mas gentil e disse, baixo:

— Você vai sobreviver a isso, Violeta. E vai aprender muito com ela. Mesmo que doa agora.

Eu ri, sem graça, sentindo os olhos marejarem um pouquinho.

— Tomara, né? Porque eu já tô me sentindo a maior idiota.

— Idiota não. Só humana — ela respondeu, acendendo outro cigarro. — E caloura. A gente passa por isso pra depois ensinar pros outros.

E nessa hora parece que um raio caiu na minha cabeça. Eu percebi o quão idiota eu estava sendo — falando, falando, falando sem parar, despejando toda a minha novela com a Lelê como se o mundo girasse só em torno disso. E nada, nem uma pergunta sobre aquela mulher tão gente boa que tava ali sentada, prontamente me ouvindo, enchendo meu copo, acendendo cigarro, pontuando com aquelas frases que acertavam no meio do peito. A única coisa que eu sentia, de verdade, era que eu queria muito ser amiga dela. Nossa, ela era demais. Calma, sábia, com aquele ar de quem já viveu o suficiente pra não julgar, mas também pra não deixar passar besteira.

— E você, me fala de você? — perguntei, finalmente, corando um pouco de vergonha pelo meu monólogo.

Ela deu uma risada baixa, olhou pra mim com aqueles olhos fundos, cansados mas gentis, e balançou a cabeça devagar, como quem pesa as palavras antes de soltar.

— Não tenho muito o que dizer, eu sou divorciada, morei junta com uma mulher quase dez anos e no final não deu certo.

— Ahn, me conta — insisti, inclinando o corpo pra frente, a cerveja já me deixando mais solta. — Você me ficou uma hora ouvindo minha ladainha aqui, nada mais justo eu te ouvir também.

Ela sorriu de canto, um sorriso meio triste, meio divertido, como se precisasse de tempo.

— É que o meu caso é um pouco mais complicado, porque envolve anos de relacionamento, né, mocinha?

— Ih, então começa logo — falei, rindo, tentando puxar ela pro papo.

Eu não estava muito interessada na história em si — tipo, não era curiosidade mórbida pelo drama alheio, mas eu estava curiosa com ela. Gostando da amizade dela, de verdade. Parecia ser muito gente boa, daquelas que a gente sente que pode confiar logo de cara, que vai te dar conselho sem sermão, que entende o que você sente antes de você explicar direito.

Ela olhou pro céu um segundo, como quem escolhe as palavras com cuidado, e depois me encarou de novo, com um brilho leve nos olhos.

— Hoje não. Faz o seguinte: a gente se encontra numa outra oportunidade, com mais tempo e com você sem problema com a Lelê. Aí eu conto tudo.

— Fechado — respondi na hora, sem pensar duas vezes, já animada com a ideia de rever ela.

Trocamos telefone ali mesmo — ela digitou o meu no dela, eu o dela no meu, salvando como “Mara do bar” porque era o que eu tinha na cabeça. Estranhamente, ela se despediu. Eu juro que eu tava preparada, esperando um ataque dela — um convite mais direto, uma mão na perna, um “quer vir pra minha casa tomar um café?”. Porque, né, bar LGBTQIA+, eu nova, ela mais velha, conversa fluindo… minha cabeça já tava montando o filme. Mas nada. Ela só levantou, ajeitou a blusa, deu um sorriso gentil, apertou meu ombro de leve como quem diz “se cuida, menina”, e sinalizou pra Dona Zeca atrás do balcão.

— Coloca na minha conta, Zeca. A da menina também.

Dona Zeca levantou o queixo num “beleza” silencioso, e Mara acenou pra mim uma última vez.

— Durante a semana a gente confirma, tá? Não some.

— Não vou — prometi, rindo, sentindo um calor bom no peito.

Ela foi embora numa boa, sumindo na rua escura, passos calmos, como se o mundo não tivesse pressa. Eu fiquei ali mais um minuto, olhando pro nada, o celular quente na mão com o número novo. A música lá dentro ainda vazava, mas agora parecia distante. Lelê provavelmente ainda dançando, rindo com as amigas, sem nem notar que eu tinha sumido.

E eu, com a cerveja quase acabando, pensei: “Caralho, que mulher foda”. Queria mesmo rever ela. Não pra qualquer coisa, só pra conversar mais, pra ouvir aquelas histórias que ela prometeu, pra ter alguém que entendesse essa bagunça toda sem me fazer sentir idiota. Alguém que olhasse pra mim como adulta, não como a caloura apaixonada que tava se afogando num crush idiota.

A noite foi seguindo, o bar esvaziando devagar lá dentro. Eu fiquei ali fora, sozinha na mesa que a Mara tinha deixado, olhando pro nada, o celular na mão rolando feed sem ler nada. Aí um grupo da mesa ao lado — umas quatro minas e dois caras, todos na faixa dos vinte e poucos, rindo alto de qualquer besteira — me chamou.

— Ei, vem pra cá, tá sozinha aí por quê? — gritou uma delas, com cabelo rosa curto e piercing no nariz, acenando com a garrafa.

Confesso que fui atacada umas três vezes — tipo, insistiram, puxaram cadeira, me incluíram na roda como se eu fosse velha conhecida. E foi muito divertido. Fazer amigos é muito bom, mesmo eu tendo uma dificuldade danada pra me socializar — sou daquelas que fica quieta no canto, observando, esperando alguém puxar papo. Mas ali, com a cerveja ajudando, a conversa fluiu. Falaram da faculdade, de república bagunçada, de ex que deu pé na bunda, de trote que deu errado. Eu ri alto, contei umas histórias minhas, e no fim peguei mais nomes e telefones — WhatsApp novo com “Bia do cabelo rosa”, “Thiago do dominó”, “Ju da Matemática”. Grupo novo no celular, promessa de rolê na praia no fim de semana.

Me senti… normal. Pela primeira vez naquela cidade estranha, sem depender da Lelê pra tudo. Como se eu pudesse sobreviver ali sozinha, fazer minha própria turma.

A noite acabou quando a Lelê apareceu na porta do bar, mochila no ombro, cabelo suado grudado na testa, olhos brilhando de animação. Ela me viu na roda, acenou rápido e gritou por cima da música que já tava baixando:

— Ei, nome de flor! Tô de saída, bora?

Eu me despedi do grupo — abraços, “manda mensagem”, “a gente se vê” —, e fui atrás dela. Caminhamos as duas pra casa, a rua vazia, o ar da noite fresco finalmente, o barulho dos nossos passos no calçamento irregular.

Ela tagarelava o caminho todo — fofoca das amigas, quem tava com quem, a vocalista da banda que tinha brigado com a baterista, o cara que tentou dar em cima dela e levou um fora épico. Ria alto, gesticulava, o celular piscando com mensagens que ela respondia no meio da frase.

E nem um pouco interessada no que eu tinha feito esse tempo todo. Nem um “cadê você?”, “tava com quem?”, “se divertiu?”. Nada. Como se eu tivesse sumido por mágica e voltado do nada. Eu respondia com “aham”, “sério?”, “que loucura”, mas por dentro aquele apertinho voltava, misturado com o resto da cerveja no estômago.

Chegamos na vila, o portão rangendo, as luzes das outras casas apagadas. Ela passou a chave, abriu a porta da nossa casinha, jogou a mochila no sofá e foi direto pro banheiro.

— Vou tomar um banho rápido, tô podre — anunciou entrando e deixando a porta do banheiro aberta.

Eu sou uma cadelinha…