Capítulo 17
Eu voltei pra casa no dia seguinte, o corpo ainda leve e dolorido de tudo que rolou, como se cada músculo guardasse um pedacinho da noite anterior. A noite depois daquilo tudo foi gostosa, ficamos juntinhas abraçadas como namoradinhas, o lençol macio e quente nos envolvendo, o cheiro dela que era de sabonete doce e um toque de cerveja. Ela falando pelos cotovelos, a voz animada ecoando no quarto escuro, pulando de uma história pra outra sem pausa, e eu ali, ouvindo tudo sorrindo, a cabeça no peito dela sentindo o coração bater rápido, irregular, como se ela nunca desligasse. Tinha um brilho nos olhos dela mesmo no breu, uma energia que iluminava o quarto, mas que às vezes me deixava pra trás, tentando acompanhar o ritmo.
Ela tinha muita energia, tanta que às vezes eu não conseguia acompanhar, o corpo dela se mexendo inquieto debaixo do lençol, roçando na minha perna como se quisesse mais movimento. Lelê tinha uma mente ágil, mudava de assunto rápido, os olhos piscando rápidos enquanto contava de uma festa louca pra um sonho esquisito sem ligação, mas tinha uma leve dificuldade com empatia, tipo, falava de si sem notar se eu tava bocejando ou se meus olhos vagavam pro teto rachado. Eu percebi uma certa experiência de vida nela, nas histórias que contava com um tom casual de quem já passou por poucas e boas, mas carregada de um pouco de imaturidade, como se a bagagem viesse sem filtro, crua e egoísta às vezes.
Depois disso, no dia seguinte eu fui embora, e nesse hiato de tempo, meu pai e eu voltamos pra lá pra levar o resto das minhas coisas — caixas pesadas de livros e roupas e um enxoval. Lelê não estava, a casa vazia ecoando nossos passos no piso de taco gasto, o ar parado com um leve cheiro de incenso velho que ela deixava no ar. Ela chegaria praticamente no final de semana antes das aulas começarem, e eu fiquei sozinha na casinha da vila. Era meio assustador, as janelas dando pro pátio vazio com vasos secos e sombras alongadas do fim de tarde. Os vizinhos provavelmente só chegariam no domingo, as casas ao lado com cortinas imóveis, sem luzes, e eu fiquei ali sentada no sofá, procurando o que fazer, o coração apertando um pouco com a solidão que se instalava devagar.
Confesso que eu fiquei muito tentada a mexer nas coisas da Lelê de novo. Dessa vez, porém, eu sabia exatamente o que procurava: aquele vibrador, que ela não tinha me mostrado de propósito, mas que eu descobri da outra vez que fui xereta e abri a gaveta sem ela saber. Eu nem estava com tanto tesão assim — era mais curiosidade pura, uma vontade infantil de testar sozinha, de sentir ele dentro.
Parei no meio do quarto, olhando pro armário fechado como se ele pudesse me julgar. O silêncio da casa pesava, só o ventilador antigo rangendo no canto e o cheiro de incenso velho misturado com o perfume doce dela que ainda grudava nas cortinas. Meu rosto já estava quente, as orelhas queimando de vergonha antecipada. “Caramba, se ela descobrir que eu tô mexendo nisso de novo, ela vai me matar”, pensei, rindo baixinho, nervosa, sentindo um frio na barriga que não era exatamente medo, mas algo parecido com culpa misturada com adrenalina.
Aí veio a ideia óbvia: por que eu não ligo e peço direto? Mas logo em seguida o pensamento me travou: nossa, é meio esquisito pedir pra usar o vibrador de outra pessoa, né? Tipo, oi, tudo bem, me empresta teu brinquedo sexual pra eu me tocar aqui sozinha? Só que, pensando bem, mexer nas coisas dos outros sem permissão era pior — mais feio, mais vacilo, mais baixo nível. Caramba, que decisão difícil.
Fiquei ali parada, mordendo o canto da boca, o coração batendo um pouco mais rápido, as mãos suando de leve. Respirei fundo e pensei de novo: poxa, a gente meio que tá namorando, ou pelo menos rolando algo que parece namoro. Casais compartilham essas coisas, brincam com toys juntos, emprestam sem drama, riem da cara um do outro depois. Se eu ligar e pedir, não vai ser tão sinistro assim. Vai ser íntimo, até safado de um jeito bom.
Então eu peguei o telefone, os dedos tremendo um pouquinho no teclado, e liguei.
Eu nem tive tempo de ficar mais ansiosa do que já estava, o coração martelando no peito como se quisesse escapar, o medo de levar um não seco bem no meio da cara me deixando com a boca seca. Mas ela atendeu rápido, quase na primeira chamada, a voz vindo animada e rouca do outro lado, com um fundo de barulho que foi sumindo aos poucos — risadas distantes, música baixa, como se ela estivesse se afastando de um rolê.
— Lelê, eu cheguei na casinha, tô meio sem ter o que fazer aqui… — fiz uma pausa, procurando coragem, sentindo o calor subir pelas bochechas, o quarto silencioso me pressionando. — Tu pode me emprestar aquele vibrador?
Ela fez uma pausa longa do outro lado, o silêncio me deixando com o estômago apertado, imaginando a expressão dela: os olhos arregalados de surpresa, as sobrancelhas arqueadas, o canto da boca subindo devagar num sorriso que misturava choque e malícia.
— É… — ela finalmente riu, um riso baixo e genuíno, não de surpresa ruim ou sem graça, mas daquele jeito debochado que me desmontava, ecoando no telefone como se estivesse ali do meu lado. — Pode, mas assim, do nada?
— É que eu tô entediada — respondi, a voz saindo mais baixa do que eu queria, sentindo um formigamento leve entre as coxas só de falar aquilo, o tecido da calcinha fina roçando na pele sensível enquanto eu me mexia na cama.
— Entendi, mas com uma condição — ela disse, a voz baixando um tom, mais arrastada, com aquela entonação safada que eu já conhecia bem, como se os lábios rosados dela estivessem se curvando num sorriso petulante.
— Lá vem, qual condição? — perguntei, rindo nervosa, o coração acelerando mais, as mãos suando de leve no celular.
— Que você deixe eu ver… — ela soltou, simples, direta, e eu senti um choque quente subir pelo ventre na hora, a pepeca latejando de leve só com a ideia.
Eu ri maliciosamente, um som que saiu rouco e involuntário, amando a proposta no mesmo instante, mas ao mesmo tempo achando esquisito — pra não dizer perigoso — me mostrar assim, pelada, me tocando, ao vivo pra ela que nem uma camgirl. O quarto parecia mais quente de repente, o ar morno grudando na pele.
— Tá, mas tu não vai gravar isso não né? — perguntei, a voz saindo num sussurro cauteloso.
— Claro que não, idiota. Eu quero é live, meu bem, show erótico — ela respondeu, imitando o tom exagerado e machão daqueles red pill de internet, rindo alto depois, aquele riso solto e debochado que me fazia imaginar o rosto dela corando levemente, os olhos brilhando com excitação, o coque bagunçado caindo mechas no ombro enquanto ela se mexia.
— Vou pensar… — eu parei um segundo, pensando na dinâmica da coisa, no como seria me ajeitar ali, nua, com a câmera ligada, o corpo exposto pra ela do outro lado da tela, e continuei, a voz mais baixa, mais convidativa: — Eu vou me ajeitar aqui e te chamo.
— Tá bom, eu tô chegando em casa já.
Eu voei até o guarda-roupa como se o chão estivesse pegando fogo, o coração batendo tão forte que eu sentia nas têmporas. Abri a gaveta de baixo com as mãos meio trêmulas e peguei tudo que eu queria: o cabeçudo que vibrava muito forte, o consolo realista e pesado, e o terceiro, aquele com wifi. Lelê não tinha me mostrado os outros dois ainda — eu ia ter que fingir surpresa se quisesse usar na frente dela, soltar um “nossa, achei aqui por acaso!”.
Eu sentia meu corpo chamuscando por dentro, aquele calor conhecido que sempre vinha antes de me masturbar, como se eu estivesse prestes a aprontar uma arte. É estranho, mas pra mim sempre foi assim: o desejo aparecia sem uma pessoa específica pra “homenagear”, era só uma ideia vaga, um cheiro, uma textura, ou simplesmente seguir o que o corpo pedia — onde latejava mais, onde doía de bom. Dessa vez, porém, tinha nome e sobrenome: Lelê. O rosto dela, a voz debochada, o jeito como ela mordia o lábio quando queria me provocar. Tudo nela.
Verifiquei duas vezes se a porta da sala estava trancada, corri as cortinas até o quarto ficar quase escuro, só com a luz fraca do abajur iluminando a cama. Ajeitei os travesseiros atrás das costas, empilhei pra ficar meio sentada, meio reclinada, e coloquei os três brinquedos alinhados ao meu lado. Me deitei devagar, tirei só a calcinha e enrolei guardando atrás do travesseiro e abri um pouco as pernas. Antes de fazer a chamada, olhei pra ela: já estava levemente inchada, os lábios rosados e úmidos brilhando de leve, o clitóris latejando pedindo atenção. Meus seios estavam nervosos, os mamilos duros apontando pro teto, a pele arrepiada implorando por toque.
“Será que eu começo um pouquinho sozinha e ligo depois?”, pensei, a mão já descendo instintivamente pela barriga. Que coisa louca eu estou fazendo, meu Deus?
— Vou ligar logo — decidi em voz alta, a voz saindo rouca, quase um sussurro pra mim mesma.
Peguei o celular, respirei fundo, abri a chamada de vídeo e toquei no nome dela.
Meu show ia começar.

