Capítulo 21
Quando desliguei o telefone, dei um ataque de riso do nada. Não sei se foi nervoso puro, ou a coragem idiota do que eu tinha acabado de fazer bem na cara dela sem ela nem desconfiar. Eu nem tinha tesão na Mara de verdade, tipo atração, mas a voz dela… caralho, era gostosa demais. Grave, calma, arrastada de leve, como se cada palavra tivesse textura. Sei lá o que me deu.
Fiquei ali de barriga pra cima na cama, peito subindo e descendo rápido, suor grudando a camiseta nas costas. Olhei pro consolo melado de mim, brilhando na luz fraca do abajur, ainda quente. Minha perereca coitada latejava, sensível demais. Nem conseguia encostar a mão sem um tremelique subir pela barriga e arrepiar a nuca inteira. Toda vez que eu respirava fundo, outro espasmo curto, como se o corpo ainda estivesse processando o gozo.
Cogitei uma segunda rodada. O corpo pedia, o clitóris inchado pulsava pedindo mais. Mas eu sabia: se eu começasse de novo, ia virar uma horinha solitária daquelas que duram até eu ficar exausta e com a pepeca vermelha. E aí eu não ia mais sair de casa hoje. Ia ficar trancada aqui, me fodendo sozinha até esquecer o jantar e da Lelê.
Levantei rápido antes que mudasse de ideia. Fui pro banheiro, lavei o consolo com sabonete neutro. Guardei de volta na gaveta, no mesmo lugar exato, como se nada tivesse acontecido. Vesti uma calça cargo larga, camiseta velha, tênis surrado. Nada sexy, nada chamativo. Só confortável pra andar.
Saí pra rua boba pela arte que aprontei. O ar da noite tava fresco, cheiro de asfalto molhado e jasmim de algum quintal. O endereço que ela mandou era perto mesmo, umas quatro quadras, cidade pequena e segura o suficiente pra andar sozinha à noite sem paranoia. O telefone vibrou mais duas vezes no bolso. Lelê. Vi as notificações piscando, mas nem abri. Mensagem, ligação perdida, tanto faz. Não queria aborrecer o humor bom que ainda carregava no peito.
Cheguei no prédio dela. Antigo, anos sessenta, fachada bege descascada nas bordas, grade de ferro trabalhada na porta, luz amarelada no hall. Charminho decadente, daqueles que a gente vê em filme e pensa “aqui mora alguém interessante”. Chamei no interfone.
— Sou eu, Violeta.
A voz dela veio logo, baixa e quente pelo interfone.
— Sobe, menina. Terceiro andar, porta da esquerda.
O portão abriu com um clique. Subi a escada devagar, sentindo as pernas ainda moles do gozo de minutos atrás, o corpo leve, mas a cabeça girando com o que eu tinha feito.
Toquei a campainha.
A porta abriu quase na hora.
Eu nunca fui de reparar em mulher de corpo normal, só curtia mesmo quando a garota tinha algo assim que se destacava muito, no bar ela não me pareceu tão bonita quanto agora, ela estava com roupas leves, um short jeans e uma blusa surrada sem sutiã e chinelos no pés, mas ela parecia tão... elegante!
— Você veio, estava com tanta voz de sono que eu achei que não viria.
Eu ri, mas foi de nervoso. Não era sono, por um segundo eu fiquei na paranoia de pensar se ela não tinha sacado algo.
— Sim... preguiça....
Na hora eu lembrei que eu tinha alugado o ouvido da mulher da última vez e hoje era eu que deveria deixar ela falar, se bem que eu poderia ficar ouvindo ela falar na minha cama com o consolo que isso me deixaria muito mais feliz.
Mara sabia receber as pessoas bem em casa, era uma ótima anfitriã. Me ofereceu um vinho tinto num copo grande, daqueles que você sente o cheiro de madeira. Falou da faculdade que ela fez há anos, da profissão de psicóloga clínica que ainda exercia em meio período, e começou a falar um pouco mais do relacionamento enquanto colocava os pratos na mesa: macarrão fumegante, molho vermelho grosso grudando nas bordas, queijo ralado derretendo por cima, cheiro de alho e manjericão enchendo o apartamento pequeno e aconchegante.
Só que eu reparei numa coisa: eu estava desarmada o suficiente pra não notar que hoje ela estava falsamente desarrumada. O cabelo solto com ondas naturais que pareciam feitas de propósito, as unhas pintadas de um vermelho escuro recém-feitas, sobrancelhas delineadas com precisão, uma make muito leve que destacava os olhos castanhos fundos e os lábios rosados. Ela me dava uns elogios sutis — “você tem um sorriso que ilumina o ambiente, Violeta”, “esse cabelo solto fica lindo em você” — e eu sentia o calor subindo pelo pescoço. Gente, eu caí na armadilha da sapatão? Não pode ser.
Nós comemos, o macarrão caseiro descendo fácil com o vinho, tiramos a mesa juntas, ela lavando e eu secando, um silêncio confortável misturado com risadas leves. Depois sentamos no sofá, ela me contou da ex: nada demais, só mais um drama sapatão que eu já ouvi aos montes das minhas amigas lésbicas. Ciúmes, distância emocional, brigas por bobagem que viravam guerra fria. Só tirando o fato que ela foi casada com a mulher por quase dez anos, papel passado, aliança no dedo, tudo oficial.
— Você fuma um Nicole?
— Um o quê, Mara?
Ela riu da minha inocência, o som grave e rouco que me arrepiava a nuca de novo.
— Maconha…
Eu já tava meio bamba das duas taças de vinho, a cabeça leve, o corpo relaxado no sofá. Fumar maconha pela primeira vez não seria uma boa coisa, pensei. Mas ali parecia seguro. Tirando o fato da mulher estar me cantando e isso ser estranho pra mim.
— Não, nunca fumei — respondi, voz baixa. — Mas você pode fumar se quiser, não me incomoda.
Ela sorriu de canto, pegou uma caixinha de madeira na mesinha de centro, abriu devagar. Tirou um baseado já pronto, pequeno e bem enrolado, e um isqueiro. Acendeu na frente da janela entreaberta, deu uma tragada lenta, soltou a fumaça pra fora em baforadas longas e cheirosas. O cheiro subiu doce e terroso, misturando com o vinho no meu estômago.
Então ela virou para mim, me ofereceu o baseado e falou:
— Se tu nunca fumou, tu nunca transou chapada de maconha né? — ela baforou mais uma vez, soltou lentamente se incomodar com o longo silêncio da conversa e continuou — Transar chapada de maconha é muito bom você deveria experimentar.
Então, em um gesto sutil, ela me ofereceu o cigarro.
Maldosamente, carregado com uma segunda intenção.
Continua.
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