Capítulo 22

Eu ri meio sem graça, o vinho já rodando na cabeça, me deixando alta e solta de um jeito bobo, sem juízo nenhum. Estava mexida com a Lelê ainda — aquela raiva misturada com tesão que não ia embora fácil, o corpo lembrando da humilhação da chamada de vídeo, mas aqui, no sofá da Mara, eu me sentia segura, quentinha, como se o mundo lá fora pudesse esperar. A curiosidade me comeu viva, igual gato idiota que pula na poça, e eu estendi a mão devagar, pegando o baseado daqueles dedos dela que pareciam saber exatamente o que fazer. Fiquei olhando pro cigarro fininho, enrolado com capricho, a brasa vermelha piscando de leve, o cheiro doce e terroso subindo e me chamando. Meu coração batia um pouco mais rápido, um medo besta de ficar doidona, de apagar no sofá dela rindo feito louca ou vomitando no tapete — imagina a vergonha, eu, caloura de psico, desmaiada na casa da primeira "amiga" da cidade.

— Mara, eu nunca fumei nem cigarro — confessei, voz baixa, quase sussurrando, olhando pra ela com cara de quem pede socorro, o rosto quente de constrangimento misturado com empolgação.

Ela riu baixo, aquele som grave e rouco que me arrepiava inteira, e deslizou no sofá até encostar em mim de leve. Senti a pele do braço dela roçando no meu, quente, macia, um toque casual que não era casual — ou era? Meu corpo tremeu de leve, as coxas se apertando sozinhas sem eu mandar, e eu não sabia se era a maconha me traindo ou ela se aproximando daquele jeito, o corpo dela exalando um cheiro de sabonete fresco e vinho tinto, o short jeans subindo um pouco na coxa grossa quando ela cruzou as pernas. A blusa solta sem sutiã deixava os seios livres, o tecido marcando de leve os bicos quando ela se mexia, e eu desviei o olhar rápido, sentindo um calor subir pelo pescoço.

— Olha, coloca na boca e puxa devagar — ela instruiu, voz calma, paciente, como quem ensina criança a andar de bicicleta, inclinando o corpo pra mais perto, o joelho dela agora encostado no meu. — Prende no pulmão uns segundos e solta devagarinho. Você vai tossir, é normal, relaxa.

Ela deu um sorriso bobo, daqueles que me faziam sentir ingenuazinha, inexperiente, e esticou o baseado pra mim.

— Toma, segura na ponta direitinho e cuidado pra não cair cinza em você.

Peguei com cuidado, os dedos roçando nos dela por um segundo a mais do que precisava, sentindo a pele quente e seca. Coloquei entre os lábios, o papel áspero roçando a boca, e puxei devagar como ela mandou. A fumaça entrou morna, doce como terra molhada, desceu queimando leve pela garganta e eu prendi, contando até três na cabeça, o peito apertando. Soltei devagar, uma nuvem espessa saindo pela boca, e aí veio: o engasgo violento, os pulmões reclamando alto, tosse rouca que me dobrou no sofá, os olhos lacrimejando. Ri no meio da crise, sem ar, o corpo tremendo de riso e tosse, e ela riu junto, alto e genuíno, batendo de leve nas minhas costas com a palma aberta, o toque firme me arrepiando de novo.

— Que troço ruim, puta merda! — falei entre risos e mais uma tosse, limpando a boca com as costas da mão, mas honestamente? O cheiro eu amava, terroso e doce grudando no nariz, me deixando zonza de um jeito bom. O gosto era amargo, resinoso, daqueles que raspam a língua, mas combinava com o vinho que eu tomei um gole grande pra ajudar a segurar a fumaça na segunda tentativa.

Puxei de novo, mais devagar dessa vez, segurei melhor, soltei uma baforada longa que subiu pro teto em espirais preguiçosas. O mundo começou a amolecer nas bordas — as luzes do apartamento ganhando halo suave, o sofá parecendo mais macio debaixo de mim, o corpo da Mara mais perto, mais presente. Devolvi pra ela com um sorriso bobo, os olhos meio turvos, e ficamos revezando assim, passando o baseado de mão em mão entre tossidas leves minhas e risos dela, o vinho rolando solto pra ajudar na descida.

Cada tragada minha me deixava mais leve, mais solta, o riso escapando fácil por qualquer besteira — ela contando de um paciente esquisito do consultório, eu imitando a tosse dela, as coxas roçando de vez em quando quando a gente se mexia. O ar do apartamento ficou denso de fumaça doce, o tempo esticando preguiçoso, e eu me peguei olhando pros lábios dela, rosados e úmidos do vinho, pensando besteira que não devia, o corpo todo formigando de um jeito novo, quente, sem nome.

A conversa de repente começou a ir pra outro caminho, o ar do apartamento ficando mais denso, mais quente, a maconha rodando na cabeça como um filme em câmera lenta, tudo amolecendo, os sons abafados, o cheiro doce grudando na pele. Mara deu uma tragada funda no baseado, soltou a fumaça devagar pela boca entreaberta, os olhos castanhos fundos me fitando de um jeito que não era mais só conversa de tia sábia — tinha algo ali, um brilho lento, preguiçoso, que subia pelo corpo dela e me acertava direto no ventre.

— Sabe uma coisa que você um dia vai amar fazer? — ela murmurou, voz grave arrastando as sílabas, inclinando o corpo mais pra mim no sofá, o joelho dela agora pressionando de leve o meu, o calor da coxa nua vazando pro meu corpo.

Ingênua, leve pela maconha que já me deixava zonza e risonha, com a cabeça flutuando e o corpo todo sensível como se alguém tivesse ligado um aquecedor interno, perguntei sem filtro, mordendo o canto do lábio:

— O quê?

Ela sorriu devagar, aqueles lábios rosados se curvando num arco malicioso, os olhos semicerrados como se estivesse revivendo uma memória suja, o braço roçando no meu de novo, o cheiro de vinho e maconha misturado com algo mais quente, mais pele.