Capítulo 33

Lelê tinha essa coisa mais masculina que eu fui percebendo aos poucos. Quando ficava satisfeita, virava pro lado e dormia. Simples assim. Tudo bem por mim, cada uma tem seu jeito.

“Mas caralho… que show foi aquele.”

Ainda tava com a buceta latejando, molhada demais, os dedos melados do meu próprio tesão. Depois daquele tentáculo colorido entrando e saindo dela, eu não conseguia nem pensar direito. Levantei devagar do vaso, pernas moles, e falei com a voz rouca:

— Eu vou pro banho, tou precisada Letícia. Você me deixou toda molhada, garota.

— Vamos juntas? — ela respondeu na hora, com aquele tom safado que me desmontava.

A imagem no celular virou uma bagunça, balançando pra todo lado enquanto ela vestia uma camiseta qualquer correndo pela casa. Ouvi ela falar baixo com alguém na sala — devia ser os pais dela dessa vez — e depois a câmera estabilizou no banheiro. Ela posicionou o celular num canto que dava pra ver boa parte do corpo dela debaixo do chuveiro. Eu fiz o mesmo do meu lado.

A água quente bateu nas minhas costas e eu soltei um suspiro longo. “Porra, que doideira gostosa. Tô tomando banho com ela por chamada de video como se a gente estivesse no mesmo box.”

Não dava pra conversar direito por causa do barulho da água, mas foi divertido pra caralho. Eu ensaboava os seios devagar, sentindo os bicos ainda duros roçando na palma da mão, enquanto via ela passando sabonete na bundinha lisa e branca, o piercing brilhando com a água. A gente ria sem som, fazendo careta uma pra outra, como duas idiotas molhadas e safadas.

“Será que ela tá fazendo de propósito esse reboladinho? Meu Deus, Violeta, controla essa siririca…”

Terminamos o banho rindo, pingando, e fomos pro ritual de sempre antes de dormir: escovar os dentes, passar creme no corpo, pentear o cabelo molhado. Eu secava o meu com a toalha enquanto ela fazia o mesmo do lado dela, as telas apoiadas nos espelhos. A conversa fluía leve, gostosa.

Ela me contou os planos pro primeiro dia de aula, animada, falando sem parar. Eu nunca tinha perguntado direito por que ela escolheu exatamente essa faculdade, mas naquele momento escapou algo que me incomodou pra caralho:

— Espero não levar trote da Nana.

Meu estômago deu uma volta.

— Quem é Nana? — perguntei, tentando manter a voz normal. Eu sabia quem era, ela tinha falado exaustivamente dela.

— Minha ex, viado. Já pensou no trauma? — ela riu, mas foi aquele riso curto, meio amargo.

Fiquei quieta um segundo, passando creme nas pernas só pra ocupar as mãos. “Nana de novo. Sempre a porra da Nana. A gente acabou de transar, eu ainda tô molhada por causa dela, e você joga o nome da ex assim do nada?” O ciúme subiu quente pelo peito, misturado com uma raivazinha besta. Queria perguntar mais, queria entender, queria que ela parasse de falar daquela outra. Mas disfarcei, forçando um sorrisinho enquanto terminava de pentear o cabelo.

— Trauma? Tomara que ela te pinte toda de rosa e te obrigue a gritar o nome dela no meio do pátio — provoquei/

Ela riu alto do outro lado, jogando a cabeça pra trás, o coque torto caindo de novo como sempre. Eu olhei pro meu reflexo no espelho e vi meu próprio sorriso meio torto, a pele ainda corada do banho e do tesão que não baixava completamente.

— Bem capaz, ela me odeia... — a voz dela saiu mais baixa, sem aquele tom debochado de sempre.

Sentei na cama rapidinho, parei o telefone bem na frente do meu rosto e perguntei, séria:

— Mas o que tu aprontou pra ela, Lelê?

Houve uma pausa. Ela parou de se mexer, pensou um segundo e começou a falar devagar, como se estivesse escolhendo as palavras.

— Ela foi tipo minha primeira namorada, sabe? Eu era mais nova que ela. Ela quis dar uma de papa-anjo e se fodeu... porque ela brincou emocionalmente comigo, fazia joguinho, me tirava de marmitinha. Me deixou doidona de vodka e colocou uma mina pra transar comigo. Foi bem pesado...

Na hora meu mundo caiu.

"Caralho... isso é estupro. Pura e simples violência sexual."

Meu lado feminista gritou dentro da cabeça. Senti um aperto no peito, uma raiva quente subindo pela garganta.

— Cara, isso é coisa de polícia! Tu era de menor? Essa puta tinha que estar presa!

— Era de menor sim... e deu polícia, pô. Esqueceu que meu pai é delegado, caralho? — ela respondeu, vestindo uma blusa larga e se jogando na cama pra continuar falando.

— Então ela e a amiga foram pra delegacia, mas não deu em nada. Os pais dela ainda proibiram ela de me ver... e eu vivia na casa dela, né? Me tratam como se a culpada fosse eu.

Fiquei em silêncio, olhando pra tela. Meu coração apertou forte.

"Puta que pariu... coitada da Lelê."

Imaginei ela mais nova, confusa, bêbada, sendo usada daquele jeito por quem deveria cuidar. Aquela menina petulante, bagunceira, que agora ria de tudo... tinha passado por isso. Senti uma pena enorme, daquelas que aperta a garganta e dá vontade de abraçar forte. Queria passar a mão no cabelo dela, falar que não foi culpa dela, que aquela vadia da Nana que era o lixo. Mas só consegui ficar ali, com o peito doendo por ela.

— Lelê... — murmurei baixinho, a voz saindo mais suave que o normal. — Que merda pesada, garota. Sinto muito que você passou por isso.

Ela deu de ombros na tela, tentando fazer cara de que não ligava, mas eu vi o olhar fugir um pouco.

“Porra, Violeta... agora entendi por que a Nana ainda aparece tanto na conversa dela. Trauma do caralho.”

Fiquei ali, nua debaixo do lençol, o corpo ainda quente do banho e do tesão de antes, mas o clima tinha mudado completamente. Queria proteger ela. Queria apagar aquela história da cabeça dela. E, ao mesmo tempo, uma vozinha no fundo da minha cabeça sussurrava: “cuidado, Violeta... você tá se apegando demais”.

Mas a pena era maior. Muito maior.