Capítulo 34
“Coitada da Lelê… imaginar ela mais nova, bêbada, sendo usada por quem dizia gostar dela… que merda pesada.”
— Vem cá… me conta mais se quiser. Ou não. Como você preferir — falei, mordendo o lábio, o coração apertadinho por ela.
— Não… deixa essa porra pra lá. Depois te conto umas paradas que ela fez comigo, pra tu passar raiva, mas hoje eu não tô afim.
— Tá bom, mas olha… tu vai andar nessa faculdade do meu lado. Se essa vagabunda olhar pra você, eu vou arrastar ela pelos cabelos escadaria abaixo, tu vai ver.
Ela riu do outro lado, aquele riso gostoso que me desarmou na hora.
A conversa virou pro meu lado de repente. Lelê começou a me perguntar sobre meus relacionamentos anteriores, toda curiosa, com aquele jeitinho petulante.
— Não acredito que eu fui a primeira mulher que tu transou de verdade, nome de flor. Vai, conta direito.
Fui explicando devagar, tentando ser sincera, soltando uns toques científicos de quem vai começar psicologia daqui a poucas horas. Falei dos caras que tive, de como nunca senti aquela conexão de verdade, da curiosidade que sempre existiu, mas que eu desconsiderava na hora. As horas foram passando, a voz dela me embalando, e eu nem vi o tempo voar.
Até que olhei pro relógio.
— Lelê, são três da manhã, caralho! Amanhã a gente tem que acordar cedo!
A gente se despediu entre risadas e bocejos. Desliguei a chamada com o peito quentinho, mas a cabeça ainda rodando com tudo que ela me contou.
Em vez de dormir, levantei e fui checar pela décima vez se estava tudo pronto: roupa separada, material na bolsa, celular recarregado. Fiz um lanchinho rápido na cozinha, comendo de pé, ainda pensando nela. No corpo molhado dela no banho pela tela, no jeito que gozou com aquele tentáculo, na história pesada da Nana…
“Coitada… e eu aqui me derretendo toda por ela. Tô me fodendo bonito nessa história.”
Só lá pras quase quatro e meia da manhã consegui deitar de novo. O corpo tava exausto, a buceta ainda meio sensível do dia inteiro de tesão, mas a cabeça não parava quieta. Amanhã era o primeiro dia de verdade. Faculdade, trote, Lelê pessoalmente…
Fechei os olhos, o sorriso bobo ainda grudado no rosto apesar do cansaço absurdo, e apaguei. Morri mesmo. Não lembro de ter sonhado com nada, nem com Lelê pelada, nem com Mara, nem com a faculdade, nem com nada. Quando o despertador tocou, já estava no milésimo toque, vibrando desesperado em cima da mesinha.
Sentei na cama meio zonza, esfregando os olhos embaçados. Olhei as horas.
“Caralho, dormi dez minutos a mais… mas ainda dá tempo.”
Levantei correndo, o corpo ainda meio mole da noite anterior. Pensei se precisava de outro banho, mas o de ontem à noite ainda tava fresco na pele. Escovei os dentes com calma, lavei o rosto, passei um creminho e me arrumei devagar. Coloquei a roupa que tinha separado — jeans justo, blusa básica que marcava um pouco os peitos, tênis confortável. Joguei a bolsa nas costas e senti o coração já batendo acelerado de ansiedade.
Primeiro dia de verdade.
Minha mãe ligou bem na hora que eu estava saindo. Atendi já sainda da vila.
— Acordou, filha? Não esquece de comer alguma coisa, hein. E cuidado com as amizades, fica longe de quem oferece coisa errada, estuda porque seu futuro depende disso… — o sermão veio completo, com pitadas claras do meu pai no meio.
Eu só ri baixinho e respondi “tá bom, mãe” pra tudo, ouvindo quieta. Sabia que era preocupação deles, mas minha cabeça já tava longe.
Na rua a cidade pequena tava um caos gostoso. Fogos de artifício estourando, gente gritando, um monte de calouro correndo pra todo lado como se fosse final de campeonato. Parecia Copa do Mundo. Eu era só mais uma no meio daquela loucura, coração disparado, sorriso nervoso no canto da boca.
E fui andando, sentindo o peso da bolsa nas costas, o sol batendo no rosto e aquela mistura estranha de medo e tesão pela vida nova que tava só começando. Principalmente por causa de uma sapatão bagunceira que não saía da minha cabeça, da Mara e esse sentimento todo de que agora é a minha vida que tá começando, parecia que antes eu vivi a vida que os meus pais me deram e agora eu estava por conta própria. Eu sei que isso é uma bobagem sem sentido, mas o sentimento era esse.
Na faculdade era um verdadeiro caos. Multidão na entrada, gente correndo pra todo lado levando trote, gritaria, risada alta, fogos estourando ao fundo. Parecia mais festa do que primeiro dia. Olhei no celular pra confirmar o prédio e a sala, respirei fundo e fui andando, olhando tudo ao redor com os olhos arregalados.
“Caralho, que loucura… isso aqui é muito maior do que eu imaginava.”
Meu prédio era o do meio, terceiro andar. Os corredores eram largos, bem iluminados, e tinha um monte de gente sentada no chão tomando sol, conversando, vagabundeando. Parecia confortável. Quem eu procurava, eu não estava encontrando, provavelmente ela tinha ficado no congestionamento ou simplesmente nem viria para o primeiro dia de aula, ela tinha dito que talvez faria isso.
"Será que na faculdade tem sinal tipo no colegial? Porra, Violeta, que pergunta idiota."
Encontrei minha sala, mas não entrei logo. Fiquei ali fora como as outras calouras, encostada na parede, observando. Umas meninas se aproximaram, eram da mesma sala, e a conversa logo virou sobre o trote que a gente tava morrendo de medo.
— Achei que a gente ia levar trote, cadê os veteranos? — uma delas perguntou.
— Então, pelo que eu sei, trote de pintar, pedir dinheiro tá proibido — respondeu a outra. — Mas parece que na segunda semana tem um evento pra levantar grana pra chopada. E o nosso curso não é dos mais badalados não… então amiga, pra nossa sorte, pode ser que nem role!
A gente riu junto. Realmente, psicologia não era exatamente o curso das pessoas mais extrovertidas e trend.
“Graças a Deus…”