Capítulo 37
Tentei deixar isso de lado um pouco e comecei a me esforçar pra prestar atenção. Mara falava com aquela voz grave e calma, explicando a ementa, os trabalhos, o jeito que ela avaliava. Cada palavra parecia ter um peso diferente agora. Eu olhava pra boca dela e lembrava do gosto que tinha ficado na minha língua depois. Olhava pros dedos dela segurando o marcador e lembrava onde aqueles mesmos dedos tinham estado.
Mas Deus quer sempre provar o bom o Cristão.
Do lado de fora do auditório veio um grito feminino, escandaloso, cortando o ar como uma sirene:
— Maroooocaaaaaaaa!!!!!
Eu vi a máscara de seriedade da Mara se quebrar em segundos. O sorriso profissional sumiu, os olhos dela se arregalaram de surpresa e algo mais... carinho? Reconhecimento? Meu estômago revirou.
A dona da voz era a Lelê. Loirinha baixa, cabelo loiro descolorido e bagunçado com pontas manchadas de rosa e roxo, piercings na orelha, camisa de flanela quadriculada, saia que parecia saia de bailarina com paetês e um All Star absurdamente alto. Era de um tremendo mal gosto, mas confesso que tinha estilo. Ela era assim: caótica e linda ao mesmo tempo.
— Eu não acredito que é você quem vai me dar aula, Maroca! — Lelê gritou, rindo alto enquanto entrava.
— Só tem eu nessa cadeira, tonta. Se achou que seria quem, Letícia? — Mara respondeu, voz mais leve, quase carinhosa.
As duas se abraçaram rapidinho, daqueles abraços apertados de quem se conhece há tempo, seguidos de beijos no rosto. Intimidade demais. Alguém no fundo fez uma piada sobre puxa-saco e outra pessoa reclamou que estavam atrapalhando a aula. Meu coração tava disparado, um misto de choque e um ciúme quente subindo pelo peito.
“Maroca? Ela chama a professora de Maroca? Porra, Violeta... elas se conhecem. E se conhecem bem.”
Quando terminaram, Mara se voltou pro quadro, tentando retomar a seriedade, o rosto ainda com um sorrisinho traidor. Lelê veio andando entre as carteiras e se jogou na cadeira do meu lado, o joelho encostando no meu de novo, o cheiro dela que eu já conhecia, sabonete e um leve perfume doce, me acertaram forte.
— E aí, nome de flor? — ela sussurrou, virando o rosto pra mim com aquele sorriso petulante, como se nada tivesse acontecido.
Eu forcei um sorriso, mas por dentro tava um caos. “Ela chama a Mara de Maroca. Elas se abraçaram. Beijaram. E eu... eu comi a Mara ontem. E agora as duas tão aqui, na mesma sala, e eu no meio.”
Senti a calcinha molhada de novo. Eu não vou mentir, estar sentada entre duas pessoas que eu tinha transado... assim, desse jeito... Meu corpo não relaxava. O coração batia forte, a pele quente, um formigamento insistente descendo pela barriga. Na minha cabeça vinha um monte de perguntas, uma confusão enorme, mas mesmo assim a excitação não ia embora. Que coisa esquisita.
— Lelê, você conhece a Mara de onde? — sussurrei bem baixinho, inclinando o corpo pra ela, tentando não chamar atenção.
Lelê veio mais pra perto, o joelho dela pressionando o meu com força, o cheiro dela me invadindo. Ela prometeu confidência com aquele sorrisinho safado e falou no meu ouvido:
— Pô, ela é figurinha carimbada no bar das sapatão. O povo diz que é a maior papadora de girina daquele brejo.
Eu engoli seco. “Maior papadora de girina...” A frase ficou martelando na minha cabeça. Se isso era verdade, eu fui mais uma. Mais uma novata que caiu na lábia e foi parar pelada no sofá dela.
Tentei prestar atenção na aula de novo, mas era impossível. Toda vez que Mara falava, minha mente voltava pro sofá dela. Toda vez que Lelê mexia a perna encostando na minha, eu imaginava as duas juntas... e eu no meio.
“Vai ser um semestre do caralho. E eu tô ferrada... ”
O primeiro dia correu mais ou menos assim: gente perdida, professores com cara de quem já tava cansado antes de começar, listas e mais listas de cópias, livros caros pra porra e a tristeza de ver quanto aquela faculdade ia me custar logo no primeiro semestre. Do meu lado a Lelê que se não fosse o fato de ela ficar no telefone quase o tempo todo, eu diria que era até uma boa aluna. Mas qualquer coisinha tirava a atenção dela — uma mensagem, uma notificação, um olhar pra porta.
A aula acabou mais cedo porque o professor que cobriria depois do intervalo não apareceu. Todo mundo ficou meio perdido, mas ninguém reclamou. Lelê se levantou rapidinho, murmurou um “já volto” e simplesmente sumiu no meio da multidão do campus. Eu fiquei com as meninas que estavam sentadas perto de mim, aquelas que eu tinha trocado umas palavras durante a aula. A gente saiu vagabundeando pelo campus, conhecendo os lugares estratégicos: a cantina que cheirava a óleo sujo, a copiadora lotada, a reitoria com fila enorme, o banheiro que todo mundo avisava que era melhor evitar depois das dez da manhã.
Eu tentava prestar atenção nas conversas, ria das piadas, apontava pros prédios, mas minha cabeça não parava quieta. Eu estava muito incomodada. Queria que a Lelê estivesse ali do meu lado, encostando o joelho no meu, sussurrando safadeza no meu ouvido, me fazendo companhia. Queria perguntar mais sobre como ela conheceu a Mara. Queria saber os detalhes, mesmo sabendo que isso ia me deixar ainda mais confusa.
“Será que ela pegou a Mara também? Caralho, Violeta, para de imaginar isso... mas... e se pegou? Elas pareciam bem íntimas. Abraço apertado, beijinho, ‘Maroca’... Será que a Mara e ela se apaixonaram?”
Senti um aperto no peito, ciúme misturado com uma excitação esquisita que me deixava sem entender o que eu sentia. O sol batia quente no campus, o corpo suando levemente por baixo da blusa, e eu só conseguia pensar nas duas.
Uma das meninas me chamou pra ver o mapa do campus e eu forcei um sorriso, já andando na direção dele quando senti alguém me abraçando por trás. Um abraço apertado, quente, cheiro conhecido. Meu corpo inteiro arrepiou.
