Capítulo 38
— Aí Violeta, comprei um negócio pra você! Vira e me dá a mão! — a voz da Lelê soou alta, debochada, cheia de empolgação.
Claro que eu sabia quem era. Abusada assim, quem mais poderia ser? Eu me virei devagar, o coração já acelerado, e lá estava ela com dois anéis na mão. Cafonas, coisinha mal feita de hippie, pareciam aqueles anéis de cocô, sabe? Amadeirados, grossos, meio tortos.
“Aí meu Deus...”
— Aqui, viado, estica o dedo? — ela disse, pegando minha mão sem esperar resposta.
— Isso é um pedido de noivado ou namoro? — falou uma das meninas que estava comigo, histérica, rindo alto.
Eu olhava pra Lelê empolgada colocando o anel no meu dedo sem entender absolutamente nada. O troço ia entrando, apertado, ridículo e... marcante.
“Será que ela tá me pedindo em namoro? Aqui? Na frente de todo mundo? Não... ela não teria coragem... ou teria?”
— Lelê, o que é isso? — perguntei de um jeito meio seco, a voz saindo mais baixa do que eu queria, o rosto queimando de vergonha.
— Porra, sapatão que se preza tem que usar anel de côco! — ela respondeu toda confiante, mostrando que também tinha um no dedo dela, balançando a mão com orgulho.
Na hora eu olhei pras meninas, cheia de vergonha. Elas mal sabiam meu nome e agora sabiam uma coisa que nem eu tinha certeza absoluta: que eu era sapatão. Aquilo me deu um vazio angustiante por dentro. Eu não sabia onde enfiar a minha cara. Não sabia se negava, se ria, se corria. Fiquei completamente sem reação, suando frio, o coração martelando.
“Lelê... por que você fez isso? Agora todo mundo sabe. E eu nem sei direito o que eu sou ainda...”
— Lelê... — comecei, olhando pro anel enquanto ela me mostrava o dela, mas não consegui terminar.
As meninas já tinham começado uma conversa paralela, empolgadas:
— Esses anéis são legais, vou comprar um pra mim... — disse uma.
— Eu queria um fininho pra usar dois, ou um grosso pro dedão. Deixa eu ver, Violeta?
Eu estiquei a mão pra elas meio automática, como se tivesse acabado de receber uma aliança com diamante enorme. As meninas pegaram meus dedos, virando minha mão de um lado pro outro, comentando o anel como se fosse a coisa mais linda do mundo.
Eu tava paralisada, sentindo o peso do anel, o olhar da Lelê em mim, o calor subindo pelo pescoço. Por dentro era um turbilhão: vergonha, confusão, vontade de sumir e vontade de puxar ela pra um canto e perguntar o que diabos isso significava.
“Ela me marcou na frente de todo mundo. Isso é declaração? Brincadeira? Ou as duas coisas? Caralho, Lelê... você vai me deixar louca.”
Eu olhava pra cara dela e era pura felicidade. Aquela empolgação toda, o sorrisinho orgulhoso... mesmo puta da vida, eu não tive coragem de falar na frente das meninas. Só chamei ela de lado, desconversando rápido.
— Lelê, vamos dar uma saídinha agora? Pra ver umas coisas da casa?
— Agora? Ver o quê?
— Mercado, farmácia... — eu olhei mais duro pra ela, tentando passar a mensagem — Vamos agora! Tá?
— Tá... — ela respondeu com cara de cachorro que não entendeu que fez merda.
Encurtamos o dia no campus e fomos pra casa. No caminho, quando a rua ficou mais vazia, eu comecei.
— Cara, o que esse anel significa pra você?
— É um anel de sapatão, pô, eu falei! Por quê?
— Só isso? Um anel de sapatão, Letícia?
— Ihhh cara, se não gostou beleza, não precisa me chamar pelo meu nome não. Eu fui comprar outro pra mim que quebrou e achei que você fosse gostar.
Eu respirei fundo. Ela realmente parecia não saber qual era o problema.
— Garota, você não pode ser tão sem noção assim... — falei, porque as palavras certas não vinham.
Lelê parou completamente na calçada, agora sem expressão nenhuma.
— O que foi que eu fiz?
Eu parei dois passos à frente dela. Não conseguia olhar nos olhos. Queria chorar, e tava difícil segurar as lágrimas e eu não queria fazer escândalo no meio da rua.
— Você acabou de falar pra todo mundo na faculdade que eu sou sapatão, cara...
— E não é?
— Lelê! Caralho! Nem eu sei, porra! Eu te contei tudo, cacete! Tudo! Você não parou um segundo pra pensar que isso tudo pode ser só eu com fogo na buceta?
Minhas palavras saíram duras. Elas traziam verdades, mas eu não tinha direito de soltar elas assim, do nada, no meio da rua.
— Pera... essa coisa toda nossa... foi só você com fogo na buceta? — disse ela, com a voz mudando, afinando e ficando mais alta.
— Ah caralho, não se faz de vítima não. Você acabou de me tirar do armário pra faculdade inteira no primeiro dia, sem falar comigo antes e sem eu saber o que eu realmente sinto.
— Ah, você já sabe. Para com isso. Você é sapatão pra um caralho. Se aceita, garota!
— Mas você não tinha esse direito.
A voz começava a ficar mais alta. Eu sentia o peito apertado, as lágrimas queimando nos olhos. “Por que você fez isso? Eu tava confusa, tava descobrindo as coisas no meu tempo... e você simplesmente anunciou pra todo mundo.”
Lelê ficou me olhando, a cara mudando de confusa pra magoada. Eu via que ela não tinha maldade, mas isso não diminuía a raiva que eu sentia. Nem a vergonha. Nem o medo de amanhã ter que encarar as meninas sabendo que agora todo mundo ia me olhar diferente.
“Eu nem sei direito quem eu sou... e você decidiu por mim.”
Fiquei ali, parada na calçada, o anel pesado no dedo, o coração doendo. E o pior era que uma partezinha de mim ainda queria ela perto. Queria o abraço, o riso, o “nome de flor”. Mas agora só conseguia sentir o vazio.
— Lelê... — murmurei, a voz saindo embargada.
E não soube o que falar depois.
