Capítulo 39
O caminho de volta pra casa foi lento. Eu pensava em tudo ao mesmo tempo, um turbilhão que me deixou emocionalmente cansada. Não tinha problema das pessoas saberem que eu gostava de mulheres. O problema seria se meus pais soubessem pela boca dos outros. Mas a questão maior era que eu não sabia se eu era, ou se eu queria aquilo de verdade. Eu sei lá... só sentia tesão. Antes disso tudo eu nunca fui de ficar olhando pra menina, no máximo achava bonito e pronto.
“Será que é só tesão? Só curiosidade? Ou tem mais? Por que eu não consigo ter certeza de nada?”
Lelê ia andando perto de mim, com aquela bolsa enorme nas costas que parecia maior que ela, falando pelos cotovelos alguma fofoca que tinha ouvido na faculdade. Ela corria, subia em tudo que era lugar mais alto, como se estivesse num pique alto. Eu olhava de soslaio às vezes, rindo meio torto, concordando com a cabeça, mas sem falar muito.
“Ela tá ali, toda leve, toda feliz... e eu aqui me sentindo uma merda. Como consegue?”
Eu não tava a fim de conversa. E não podia arrumar problema com ela. Teria pelo menos um semestre inteiro de contrato de aluguel pra conviver, e a casa só tinha um quarto. Brigar agora seria viver em um inferno.
Quando chegamos, Lelê largou a bolsa enorme na pequena mesa de centro, fazendo barulho. Assim que eu fechei a porta, ela começou a tirar as botas de cano longo e o casaquinho de flanela, jogando tudo de qualquer jeito no sofá vermelho. Eu coloquei meu material no outro sofá e fui até a cozinha pegar um pouco de água. Tava desidratada do choro que não veio.
“Preciso de um minuto. Só um minuto pra respirar.”
Bebi a água devagar, encostada na pia, sentindo o frio descer pela garganta. Pelo canto do olho via a Lelê andando pela sala de meias, bagunçando o cabelo, agindo como se nada tivesse acontecido. Como se ela não tivesse acabado de me jogar no meio do furacão.
Fiquei ali parada mais um tempo, o copo na mão, olhando pro nada. O peso do anel ainda no dedo. O peso daquilo tudo no peito.
“E agora? Como eu vou olhar pra ela sem querer brigar e ao mesmo tempo sem querer ficar longe?”
Respirei fundo, tentando organizar a bagunça dentro de mim. Não ia ser fácil. Nada disso ia ser fácil.
— Pô, sabe o que você precisa? — a voz dela veio da sala, naquele tom leve de sempre.
— O quê? — respondi sorumbática, quase no automático.
— Um banho e uma massagem.
Eu ri torto, por dentro. Como se uma massagem fosse resolver a raiva que eu tava sentindo. Ela nem tinha pedido desculpa direito e ainda tentou se fazer de vítima. Respirei fundo, me virei pra voltar pra sala com mais energia pra sentar e tentar explicar o óbvio.
Mas quando cheguei na porta da cozinha, parei no meio do caminho.
Lelê já tinha tirado a blusa. Estava despida da cintura para cima com as mãos descendo pro short. O corpo pequeno, a pele clara, os seios médios empinadinhos com o piercing brilhando de leve. Ela tirou o short devagar, sem pressa, e depois a calcinha, dobrando tudo com cuidado em cima da mesa.
Eu esqueci o que ia dizer.
Ela se virou de costas por um segundo, me dando a visão da bunda redonda e lisa, depois virou de frente de novo, pernas meio cruzadas, braços abertos, sorrindo daquele jeito que desarma.
— Vamo? — perguntou, como se fosse a coisa mais natural do mundo.
— O que? Por que você tá pelada na sala? — consegui falar, a voz saindo mais baixa do que eu queria.
— Ahn! Só tem nós duas, faz diferença eu estar pelada na sala, no banheiro ou no quarto?
Eu ri, sem graça. Realmente só tinha nós duas.
Ela deu um passo pra mais perto, ainda sorrindo, o corpo todo exposto, natural, como se quisesse me lembrar que a gente já tinha passado por isso. O ar da sala pareceu mais quente de repente. Meu coração acelerou, a raiva ainda ali, mas misturada com outra coisa que eu não queria sentir agora.
— Tou pronta — ela disse, virando de lado devagar, mostrando a curva da cintura, a bundinha empinada. — Me faz companhia?
Fiquei parada, olhando, o copo de água ainda na mão. Queria continuar brava. Queria brigar. Mas o corpo dela ali, tão perto, tão desinibido... estava tornando tudo muito mais difícil.
— Lelê... — murmurei, sem saber se era pra reclamar ou pra pedir que ela parasse.
Ela só sorriu mais, estendendo a mão pra mim, o corpo pequeno todo exposto, sem vergonha nenhuma.
— Olha, hoje é segunda, vamos instituir a primeira regra da nossa república: todas as segundas-feiras ninguém pode andar de roupa aqui.
Eu ri da idiotice, mas entrei na brincadeira apesar da raiva ainda latejando no peito.
— E se eu estiver menstruada?
— Chucha algodão na perseguida.
— Eu não vou usar ob, eu não gosto.
— E se a gente tiver visita? — desafiei, cruzando os braços.
— Vai ter que ficar pelada também, ora! Regras são pra todos!
— Tá, e se for homem? — falei fazendo uma carinha de nojo.
— Viu sua cara? Depois reclama quando eu saio por aí dizendo que tu é sapatão.
Eu não acreditei no que ouvi. Só consegui rir, uma risada nervosa, desesperada e frustrante por não conseguir me comunicar direito com ela. Então, sei lá, parei de pensar. Comecei a tirar a roupa devagar, rindo enquanto ela ia pro banheiro.
— Eu não tenho cara de sapatão. Já você? — estendi a mão aberta apontando pro espelho da sala que refletia nós duas. — Olha isso. Muito sapatão.
Lelê riu alto, já dentro do banheiro, levantando a tábua do vaso e sentando.
— A gente poderia ter outra regra, Lelê.
— Qual?
— Mijar de porta fechada.
— Ah, para de frescura. Se liga no barulhinho que gostoso... xixizão booomm!!!

