Capítulo 40

O barulhinho desceu, fazendo um som constrangedor com um peidinho fino no final, parecendo que queria me provocar de propósito.

— Que nojo, sua garota porca! — falei rindo, já com os seios de fora, a blusa caindo no chão.

Ela deu uma risadinha do banheiro procurando papel para se limpar. E eu fiquei ali, de calcinha ainda, olhando pro espelho. Meu corpo refletido, a raiva derretendo aos poucos, virando uma coisa quente e boba no peito.

“Ela é impossível. Absurdamente impossível. E eu tô rindo feito idiota...”

Tirei a calcinha também, jogando junto com o resto da roupa. O ar da casa tocou minha pele nua, fresco, e eu me senti estranhamente leve. Ainda chateada, ainda confusa, mas com ela ali, pelada, debochada e viva daquele jeito... era difícil continuar brava.

Ela ligou o chuveiro enquanto eu a rendia no vaso, sentei para fazer xixi, sem perceber eu acho que eu estava apertada, ela terminou de prender os cabelos e ficou me olhando.

— O que foi? Você pode e eu não? — eu perguntei, revoltada!

— Não é isso...

Ela ficou com uma cara vazia por um segundo, um sorrisinho de fundo quase sem graça. Depois respirou fundo, o sorriso vivo voltando pro rosto.

— O que foi? Fala!

— É que você fica bonita até fazendo xixi — disse ela, como se fosse a coisa mais normal do mundo.

Eu levei a mão na cara e gritei, meio rindo, meio morta de vergonha:

— Eu não acredito no que eu ouvi! Você não é tipo tarada de xixi não, né?

Ela colocou um dedo na boca, olhando pro alto como se estivesse pensando sério, e falou:

— Num sei... deixa eu pensar... acho que rolou...

— Que nojo, garota! Você não mija em mim nem fodendo! Então a partir de hoje é xixi com porta fechada!

Lelê caiu na gargalhada, encostando na parede do box, o corpo pequeno tremendo de rir. Eu tentei ficar séria, mas o riso escapou junto, alto e nervoso. A raiva de antes ainda estava lá, bem no fundo, mas ela tava conseguindo empurrar pra longe com essa cara de pau toda.

Ela se aproximou devagar, ainda pelada, o sorriso safado de volta.

— Tá bom, porta fechada... mas só se você prometer não ficar brava comigo o resto do dia.

Eu cruzei os braços na frente dos seios, fingindo estar firme, mas sentindo o calor subir pelo pescoço.

— Depende do seu comportamento, Letícia.

Ela riu mais baixo agora, me puxando para dentro do box e falou

— Eu não vou me comportar...

E eu me deixei ser beijada por ela.

Lelê ligou o chuveiro com uma das mãos sem parar o beijo. A água quente caiu sobre nossos corpos unidos, escorrendo devagar pela pele. Nossos seios se apertavam um contra o outro, macios e quentes, e na hora só me veio um pensamento: isso não era só fogo na buceta. Não era meu corpo agora que estava excitado. Era meu coração. Eu sentia que estava no meu lugar, nos braços daquela pequena diaba que chegou infernizando a minha vida, abalando minhas estruturas tão rapidamente.

— Lelê... — tentei cortar o beijo pra falar o que eu pensava, mas ela não parava.

O beijo dela era quente, molhado, lento. A língua dela entrou devagar, macia e curiosa, roçando na minha com uma calma que me desmontava. A boca era tão macia, tão quente, que eu me perdi ali, sentindo o gosto dela misturado com a água que caía entre nossos lábios. Não era urgente. Era doce, quase carinhoso, como se ela quisesse me dizer algo sem usar palavras.

— Oi... — ela murmurou contra minha boca, sem afastar de verdade.

— Me desculpa? — consegui falar, a voz saindo baixa entre um beijo e outro.

— Ahn, foda-se... só me beija, porra.

Eu ri baixinho no meio do beijo, porque conhecia bem aquele jeito dela. A Lelê não guardava mágoa, não ficava remoendo as coisas. Talvez nem soubesse direito o quanto tinha me machucado meia hora atrás, nem o que eu disse que magoou ela na hora. Ou talvez tivesse esquecido. Com ela era sempre assim: tudo rápido, tudo leve, tudo pra frente.

A gente ficou ali, abraçadas debaixo da água quente, se beijando devagar. Sem pressa, sem aquela fome desesperada de antes. Só carinho. Os braços dela ao redor da minha cintura, as mãos subindo e descendo pelas minhas costas com calma, o corpo pequeno colado no meu. Eu passei os dedos no cabelo molhado dela, ajeitando o coque que já tinha desmanchado, e senti um aperto bom no peito.

“Essa menina é impossível... mas é minha impossível.”

A água caía, quente, lavando o resto da briga, e eu me entreguei ao beijo, ao abraço, ao calor dela. Por enquanto, era só isso que eu queria. Ser abraçada. Ser beijada. Ser dela, mesmo sem entender direito o que isso significava.

Eu não sei qual foi a mudança que houve, mas naquele beijo eu senti uma diferença estranha. Era como se antes só houvesse fogo, curiosidade... agora tinha um sentimento rolando. Pelo menos da minha parte.

E vocês acham que a coisa descambou pra uma transa sórdida? Ainda não.

Eu literalmente levei um banho. Lelê fez questão de lavar meus cabelos, esfregar meu corpo inteiro com a esponja numa espécie de banho turco, quase arrancando minha pele fora. A coisa emendou em cremes, esfoliação de pequenas foliculites, massagem nos pés e unhas, com direito a máscara facial com pepino no rosto.

Passamos a tarde inteira num spa improvisado. Peladas? Não. Nenhuma das duas conseguiu manter aquilo por muito tempo e fomos logo procurando umas camisas largas pra nos cobrir.

Eu juro que por vezes eu não prestava muita atenção quando ela falava. Tinha muito medo do jeito sincero dela. A última coisa que eu queria ouvir era ela falando da ex. Mas eu sou idiota... eu tinha vontade de falar sobre a Mara pra ela. Me sentia como se estivesse traindo ela de alguma forma. Mesmo que a gente nem tivesse um relacionamento. E só de pensar nisso meu coração doeu tanto que eu resolvi soltar.

— Lelê, a gente... — comecei, mas me arrependi no meio do caminho e travei.

— A gente o quê, caralho? — ela perguntou, com um pau de laranjeira na boca, empurrando a cutícula do meu pé enquanto estávamos na cama, o cheiro de acetona no ar me deixando meio zonza.