Preciso contar isso direitinho pra vocês entenderem, meninas. Naquela época eu era só uma garotinha ainda, provando a vida aos pouquinhos, sem nem saber direito o que tava provando. Tinha rolado um beijo com um menino na escola, numa brincadeira boba que acabou com risadinha nervosa e mão suada grudando na minha. Depois disso eu fugia dele pelos corredores, morrendo de vergonha toda vez que via a cara dele. Fora isso, eu tinha certeza que não curtia menina. Era tipo regra na minha cabeça: selinho nas amigas, dormir embolada na mesma cama, tomar banho junto era normal, sem nada estranho passando pela mente.
A Gisela era uma das minhas melhores. Loira, uns dez centímetros mais alta que eu, com aquela risada que enchia o quarto inteiro. Ela exagerava em tudo, fazia qualquer coisinha virar aventura gigante. Contou uma vez, toda cheia de pose, que tinha metido a língua num menino na rua. “Ele apertou minha bunda, juro! E eu ainda olhei pra ele com cara de safada!” — falou com os olhos brilhando, como se tivesse ganhado troféu. Na real ela não tinha feito nada demais ainda, mas contava como se fosse a mais vadia do mundo.
Todo fim de semana era igual: uma dormia na casa da outra. Dividíamos a cama, pernas emboladas, cobertor jogado de qualquer jeito. Às vezes tomávamos banho juntas, rindo alto, conversando bobagem enquanto a água caía quente nas costas. Apertávamos os peitinhos uma da outra só de zoação, tipo “olha como tá crescendo!”, sem maldade nenhuma. A gente se achava hétero total, irmãs de alma, sem espaço pra nada diferente.
Aí num sábado qualquer meus pais resolveram ir pro sítio do nada. Sem aviso, cataram meu irmão mais novo e foram. Só pegaram a chave do carro e falaram “qualquer coisa liga”. Pronto: casa vazia, duas adolescentes idiotas soltas, liberdade pura. Os gatos saem, os ratos fazem a festa.
Seria uma festa completa, mas claro que minha mãe tinha uma pessoa para vigiar nós duas, sempre tinha. A gente fica trancada no quarto o dia inteiro e ter uma pessoa na casa ou não, não fazia a menor diferença, mas na nossa cabeça, fazia muita.
A gente tava jogada na cama, pernas emboladas no lençol amassado, a luz do meio-dia entrando pela cortina fina e deixando tudo dourado e quente. O ventilador zumbia baixo, jogando ar morno que cheirava a shampoo de morango misturado com suor de menina adolescente. Risadas soltas escapavam sem motivo, o papo pulando de música pra menino pra fofoca de menina da sala, tudo fluindo fácil, sem vergonha, como sempre entre a gente.
De repente Gisela virou de lado, apoiou o queixo na mão e me olhou com aquela faísca nos olhos verdes que eu já conhecia — sinal de que vinha provocação na certa.
— Me diz uma coisa… — ela começou, sorrindo de canto, voz baixa e maliciosa.
— Sabe uma parada que a gente podia fazer? Mas se eu falar tu não pode ficar bolada, tá? — Ela já tava rindo antes de soltar, como quem sabe que vai jogar uma bomba.
— O quê? — perguntei, franzindo a testa na hora, já prevendo alguma ideia idiota.
— A gente podia dar uns beijos de língua… só na broderagem, só pra praticar, hein?
Eu quase engasguei com o próprio ar. Meu rosto queimou na mesma hora.
— Tá maluca? — A resposta saiu misturada com choque, nojo fingido e uma risada nervosa que não consegui segurar. Empurrei o ombro dela com força. — Sai daqui, sua sapatona!
E vocês acham mesmo que o que sentíamos uma pela outra era só amizade?
A gargalhada veio forte, as duas rolando na cama, barriga doendo de rir. Depois que o fôlego voltou, a gente sentou de novo, ofegante, e resolveu botar regra — porque na minha cabeça tudo precisava de regra pra não virar bagunça.
— Primeira coisa: ninguém pode se apaixonar! — ela decretou, erguendo o dedo como se fosse juíza, cara de superioridade cômica. — Se rolar, o problema é teu, não meu.
Revirei os olhos, mas deixei passar.
— Sem apalpar também, porque somos moças respeitáveis, né? — completei, tentando ficar séria, mas o riso já escapava de novo.
— Isso aí! — Ela bateu palma, animada. — E pelo amor de Deus, sem chorar por baixo!
“Chorar por baixo”. A frase saiu tão idiota que a gente desabou rindo outra vez, quase caindo da cama, lágrimas nos olhos de tanto gargalhar.
Aí ficamos deitadas do jeito que tava, olhando pro teto, o silêncio voltando devagar. Tentamos começar, mas virava palhaçada na hora: riso nervoso, uma arrumando o cabelo, a outra dizendo que precisava pegar água na cozinha, qualquer coisa servia pra adiar. A verdade era que faltava coragem. Mas no fundo… eu queria. Queria sim.
Até que rolou. No susto. Nossas bocas se encostaram de repente, sem aviso, e por uns segundos ninguém sabia o que fazer. A língua dela entrou tímida, procurando caminho, quente e molhada. Quando a minha encontrou a dela, um arrepio subiu devagar pela espinha, arrepiando a nuca, os braços. Era esquisito. Era bom. Era quente demais.
O beijo durou um minuto inteiro — pareceu uma eternidade. Meu corpo reagiu sozinho: os biquinhos endureceram debaixo da blusinha fina, roçando no tecido e mandando um frisson gostoso pros peitos. Lá embaixo, uma quentura lenta começou a se espalhar, uma sensação que eu já conhecia do banho sozinha, mas nunca imaginei sentir com ela ali, colada em mim.
E parou por aí. Não fomos além. O resto da manhã foi a gente deitada, debatendo técnica de beijo como se fosse aula de educação física, abrindo o celular e procurando “dicas profissionais” no Google. Inventávamos história de “uma amiga que fez isso” pra fingir que sabíamos do que tava falando, rindo baixo, coradas, o coração ainda acelerado.
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