Capítulo 2
Já era tarde, o quarto escurecendo devagar, só a luz amarelada do abajur jogando sombras moles nas paredes. A gente tentava falar de outra coisa — música, série, qualquer bobagem —, mas o beijo voltava sempre, pairando no ar como cheiro de pipoca queimada. Risinhos nervosos escapavam, olhares rápidos de canto de olho, rosto quente só de lembrar.
Até que eu não aguentei mais. Soltei sem pensar, voz baixa, quase sussurrando:
— A gente podia fazer de novo… mas agora fazendo direito sabe?
Gisela nem piscou. Sentou de frente pra mim na cama, joelhos quase encostando nos meus, o colchão afundando um pouco. Ela se inclinou devagar, cabelo caindo no rosto, cheiro de shampoo misturado com o calor do corpo dela. Nossos lábios se tocaram de novo, dessa vez sem tanta pressa, sem tanta zoação.
No começo ainda era desajeitado. Abríamos a boca demais, como se quiséssemos engolir uma à outra. Línguas batendo rápido, sem ritmo, tropeçando uma na outra. Ríamos abafado entre os beijos, tentando acertar, ajustando o ângulo da cabeça, o jeito da boca. Parecia uma dança que ninguém sabia os passos.
— Vem cá, minha fêmea — ela murmurou, puxando minha cintura com as duas mãos.
Era para ser brincadeira.
As risadas morreram. O silêncio caiu pesado, quente. O beijo ficou lento, quase estudado. Cada movimento de língua era uma descoberta: o gosto dela, o calor úmido da boca, o hálito doce misturando com o meu. Meu corpo inteiro acordou. Um arrepio subiu pela nuca, desceu pela espinha, parou na barriga. Lá embaixo, uma quentura crescia, latejando devagar, insistente. Apertei as coxas uma contra a outra, sentindo a calcinha já úmida, escorregadia, colando na pele. Os biquinhos duros roçavam na blusa fina a cada respiração, mandando choquinhos gostosos pros peitos.
Ela também sentia. O jeito que se mexia, sutil, roçando o corpo no meu, o quadril se aproximando um pouquinho mais a cada beijo. Nossas respirações ficavam mais pesadas, mais rápidas, enchendo o quarto. Quinze minutos que pareceram horas. O tempo parou, só existia o calor da pele dela na minha, o gosto salgado dos lábios, a umidade que escorria devagar entre minhas pernas.
De repente uma risada nervosa escapou — não sei de quem. O feitiço quebrou. A gente se separou rápido, ofegante, rosto queimando. Corri pro banheiro, ela pro outro. Fechei a porta, encostei na pia fria, olhei no espelho: rosto vermelho, lábios inchados e brilhando, olhos grandes demais. Meu peito subia e descia rápido, a calcinha grudada, molhada, quente.
Pensei, olhando pra mim mesma: “O que diabos tá acontecendo comigo?”
Naquela época eu ainda não me masturbava de verdade, sabe? Tipo, nunca tinha feito de propósito, nunca tinha chegado lá. Mas às vezes, sem querer, os toques saíam bons. Uma carícia leve, tímida, só roçando de leve, e já vinha aquele arrepio gostoso subindo pela barriga, fazendo a pele arrepiar toda.
Aquele dia, depois do beijo com a Gisela, eu sentei no vaso pra fazer xixi. A calcinha ainda tava úmida, grudando na pele, quente. Sem pensar direito, deixei a ponta dos dedos escorregar por entre os pelinhos. Foi devagar, quase sem querer. O calor subiu na hora, como se alguém tivesse acendido uma luzinha lá dentro. Um arrepio forte correu do ventre até a nuca, minha respiração ficou curta, tremendo. Meu corpo inteiro acordou. Eu queria mais.
Toquei de novo, dessa vez com mais força, pressionando um pouquinho. Senti o pulsar ali, quente, insistente, como se meu corpo estivesse chamando por algo que eu nem sabia o nome. Meu quadril mexeu sozinho, um movimento pequeno, pra frente, pra trás, como se procurasse um encaixe que eu nem conhecia ainda. O prazer crescia devagar, subia, subia… mas sempre parava no mesmo lugar. Chegava perto, bem perto de explodir, e aí vinha o medo. Um frio gelado na barriga, o corpo travando todo. Eu prendia o fôlego, apertava as coxas, e parava. Parava tudo.
Colocar dedo dentro? Nem pensar. Só de imaginar já me dava pânico. Via a cena na cabeça: cadeira fria do consultório, pernas abertas no estribo, o médico olhando atento, e depois contando pra minha mãe que eu não era mais virgem. Meu coração disparava só de pensar. No banho eu lavava tudo com tanto cuidado, como se minha menininha fosse de porcelana fina, que qualquer toque errado ia quebrar pra sempre.
Na minha cabeça tava tudo resolvido. Se um dia eu resolvesse transar com algum menino antes da hora certa, só tinha um jeito: daria só atrás. A virgindade intacta, imaculada, guardada até os dezoito. Não, dezoito não… dezessete. Aos dezessete e sete meses, exatamente. Como se o desejo seguisse calendário, como se eu pudesse marcar na agenda “perder a virgindade” e pronto.
Coitada de mim.
Se você ainda é nova, leitorinha, presta atenção nisso: a gente faz planos, jura pro corpo “vai ser assim e assado”, traça regras, datas, promessas. Mas a carne não liga pra agenda. A pele pede, o corpo tem pressa, e a vida… ah, a vida ri da gente na cara.
Mas deixa eu parar com esses devaneios. Vamos continuar a história.
Passou o dia, a tia que cuidava da casa foi embora e a noite já tinha caído. O ar dentro de casa tava parado, quente, só um cheiro de miojo no ar, aquele tempero artificial. E aquela refeição mega nutritiva foi a nossa janta. Comemos sentadas na mesa da cozinha, rindo de besteiras. Brincamos de Dama e o Vagabundo, puxando o macarrão com a boca até nossos lábios se encostarem no meio, molhados de caldo. Nojento e nada romântico. Duas idiotas babando, se sujando toda, rindo sem parar. Não mais que isso, mas eu lembro disso com total clareza e guardo essa cena com muito carinho, nada haver com a história, mas eu só quis contar.
Continua.
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