Capitulo 3

Depois de comer e lavar as coisas, a gente se jogou no sofá, pernas emboladas uma na outra como se já fosse normal ficar assim, e era, a gente era amiga desde o maternal, e nossas mães diziam que era muito engraçado o jeito que a gente dormia emboladas uma com a outra.

E foi assim, o silêncio caiu gostoso, a TV estava ligada, mas nenhuma das duas olhava pra tela da televisão, cada uma com seu celular na mão.

— Vem cá… — eu falei baixinho, virando o rosto pra ela.

Ela me olhou. Eu engoli em seco quando eu vi as bilhas verdes dela me que pareciam me devorar.

— Tu ficou excitada me beijando?

Gisela nem pensou. Um risinho apareceu no canto da boca dela.

— Por quê tu quer saber? — provocou, apertando os olhos. — Você ficou que eu sei, senti o cheiro da sua xereca pegando fogo de longe!

A resposta agressiva dela deixou óbvio. Eu tinha ficado e ela também. Dava pra ver no jeito que ela desviou o olhar rapidinho, no riso nervoso que escapou, no rosto que ficou mais vermelho.

A gente passou duas horas inteiras deitadas ali, pernas ainda entrelaçadas, celulares na mão, caçando tudo no Google como se o celular fosse salvar a gente do climão. “Reação biológica”, dizia um site. “Só estímulo físico”, falava outro. A gente respirava aliviada, tipo cientistas de laboratório, achando que a ciência tinha dado o veredito: tava tudo normal, a gente continuava hétero.

Tranquilas com a nossa “prova científica” e pela internet não dizer que éramos duas viadas, a gente resolveu fazer outro experimento em forma de um joguinho.

O jogo era simples: uma ficava deitada, imóvel, sem reagir e a outra beijava. Só podia encostar os lábios, sem língua, sem mão, sem nada. A gente chamava de “exercício de controle”. Na real, era só mais uma desculpa pra sentir de novo sem ter que admitir o que tava rolando dentro da gente, a gente queria era se beijar logo sem frescura.

Ela quis começar. Eu me deitei de barriga pra cima, ajeitei a cabeça na almofada do sofá e fiquei esperando, coração batendo forte no peito. Risinhos abafados escapavam, um ajuste no cabelo, outro no travesseiro, até que ela se inclinou sobre mim.

Antes dos lábios dela encostarem nos meus, eu puxei a coberta por cima da cintura pra baixo. Encolhi as pernas, deixando um espacinho escondido entre as coxas. Se eu quisesse apertar ali, roçar só um pouquinho, ninguém ia saber. Nem ela.

Ela veio devagar, pairando bem em cima de mim. Senti primeiro o calor da respiração dela roçando minha boca. Meu corpo inteiro enrijeceu. O primeiro toque foi leve, só um roçar quente, que arrepiou cada pedacinho da minha pele. Depois vieram beijinhos curtos, um atrás do outro, espalhados pelos cantos da boca, cada um deixando um rastro de formigamento que descia até a barriga.

Quando ela chupou meu lábio de baixo e passou a língua ali, eu perdi o ar. Minha mão desceu sozinha, escapou por baixo da coberta, encontrou o calor entre as pernas. Apertei por cima do pijama, os dedos fazendo círculos leves, segurando aquele prazer como quem guarda um segredo que não pode contar pra ninguém.

A mão dela pousou no meu peito. Não apertou, não se mexeu… só ficou ali. E aquela espera queimava mais do que qualquer coisa. Eu queria que ela apertasse, que o polegar roçasse o biquinho, mas ela não fazia nada. Eu me tremia inteira de nervosa, presa entre o medo e uma vontade que não tinha nome.

Era errado, né? Meu peito apertava, não só de tesão, mas de um pavor gelado. Eu não podia gostar daquilo. Não dela. Não da minha amiga que era a pessoa que eu mais amava no mundo e tinha mais medo de perder.

— Sua vez agora! — ela disse, limpando a boca com o dorso da mão, os olhos brilhando de um jeito diferente.

Eu abri a boca pra responder, mas fechei logo em seguida. Engoli em seco.

— Acho que… não quero. Amanhã a gente continua.

O sorriso dela murchou na hora.

O peso no meu peito ficou ainda maior. Eu não queria deixar ela chateada, não queria perder minha amiga. Mas e se minha mãe descobrisse? E se isso tudo estivesse indo longe demais? A culpa queimava por dentro, não só pelo que a gente tinha feito, mas porque, se pudesse escolher, eu ficaria ali pra sempre, repetindo aquele beijo até o fim dos tempos.

— Ah, você tá de sacanagem? Que cara é essa? — ela perguntou, rindo nervosa.

— Nada… Hmm. Você não acha que a gente tá indo longe demais?

Ela deu uma risadinha amarela, mas o riso saiu forçado.

— Porra, tá dando a maior vontade de te pegar no beijo agora. — confessou, jogando o corpo pra trás no sofá, tentando fingir que tava tranquila.

A frase escapou antes que ela conseguisse segurar. Eu baixei os olhos. O silêncio caiu pesado entre nós duas.

— Por mim eu toco o foda-se… — ela continuou, voz mais baixa. — Só que se ficar nessa enrolação, a gente nunca vai sair disso.

Como sempre, ela jogou a bola pro meu lado.

Na minha cabeça eu já tinha montando novas regras, tentando deixar tudo certinho, controlado. Mas aquelas regras estavam rachando devagar, sem eu conseguir segurar. Eu sentia que o mundo ia se desvanecendo ao me redor e eu ia caindo, perdida sem saber o que fazer.

Eu agi sem nem pensar.

Eu puxei ela pra mim e mossas bocas se encontraram de novo. Dessa vez o beijo veio diferente, mais urgente. A gente tava colada, peito com peito, e o calor entre nós ficava mais denso, quase sufocante. Eu abraçava ela forte, mas os braços dela estavam esticados pra frente e pra baixo, como se não soubesse se retribuía ou se fugia. Eu achei estranho ela não me abraçar de volta.

Abraço e beijinho entre amigas sempre foi normal. Nunca teve nada de sexual… até agora. Com a Gisela era tudo diferente. Tinha uma intensidade nela, uma coisa que pulsava e me puxava pra perto sem eu entender direito o porquê.

Uma vez ela me contou sobre uma experiência que teve. Falou de um cheiro, disse que era acre e doce ao mesmo tempo. Na hora eu não entendi. Mas ali, abraçadas no sofá, aquele cheiro invadiu meu nariz pela primeira vez. Meus peitos arrepiaram inteiros, os biquinhos endureceram num segundo, um frio subiu pelo estômago e meu corpo inteiro entrou em alerta.

Quando eu endtendi, eu não soube lidar. Não soube o que fazer com aquilo.

Então eu gritei.

— Que cheiro de xereca é esse subindo no meu nariz? — perguntei, franzindo o nariz todo.

— Pô, foi mal, tá coçando pra caralho. Deve ser gonorreia! — ela riu, sacudindo os dedos no ar.

— Isso é sífilis, sua porca — respondi, apertando os olhos, provocativa.

— Eu nunca dei, garota!

— Pegou em agulha suja ou herdou do viado do teu pai.

Eu era boa em ofender.

Depois disso a baixaria desceu tanto que nem entre a gente fazia sentido, só ofensa gratuita disfarçada de brincadeira. A gente sabia um monte de coisa sobre doenças venéreas, mas mesmo assim abriu o celular e ficou fuçando imagens: pústulas, verrugas, feridas abertas. Excelente jeito de matar qualquer tesão. Nenhum fogo sobrevive àquilo.

A verdade, que eu só descobri depois, é que a Gisela tava se tocando enquanto me beijava.