Capítulo 25

Os homens adoram dizer que a gente é complicada. Não somos. A gente só é mais consciente das coisas, não fica tentando empurrar tudo pra debaixo do tapete como vocês homens fazem. Às vezes a gente sente coisas que não entende direito, e aí só resta terapia ou sofrimento mesmo. Eu não queria nada do que eu estava fazendo. Gostava? Gostava, claro. Meu corpo respondia, minha buceta acendia, meus gemidos saíam sem eu mandar. Mas necessidade? Não tinha. Era só um vazio que eu tentava tapar com carne alheia porque o buraco que o Junior abriu dentro de mim era grande demais pra ignorar.

Se ele fosse um homem de verdade — nem falo de grana, nem de performance de pornô, nem de pau gigante —, eu estaria em casa agora, sorrindo, feliz, transando com vontade, cozinhando pra ele sem raiva, dormindo grudada sem sentir nojo. Podia ser mediano na cama, podia ser preguiçoso às vezes, podia até roncar. Eu aceitava. Aceitava tudo. O que eu não aceitava era a indiferença. Aquele vazio de quem já desistiu de tentar. Aquele “tanto faz” que ele jogava em cima de mim todo dia como se fosse normal.

Depois de tudo que aconteceu no motel eu desabei de vez.

Fisicamente destruída: o cu ardendo, latejando, ainda sangrando um pouco quando eu limpava, as coxas tremendo de tanto esforço, a garganta rouca de tanto gritar e engolir gemido. Emocionalmente um caco. Chorei no banheiro do motel até a água ficar fria, chorei no carro voltando, chorei parada no sinal vermelho com o retrovisor me devolvendo uma cara que eu mal reconhecia.

Não dava pra ir pra casa.

Junior ia fazer um monte de perguntas. Ia farejar o cheiro de sexo, ver os olhos inchados, perguntar mil vezes “o que aconteceu?”, “por que você tá assim?”, “você chorou?”. Eu estava vazia, cheia de tesão, eufórica e ao mesmo tempo completamente vazia. Se abrisse a boca, ia sair tudo de uma vez, e ele não ia conseguir entender nada e eu simplesmente ia começar a gritar até perder a voz.

Então, o carinha, que devo dizer, fui muito paciente e calmo comigo me dando todo o tempo do mundo para eu acalmar me levou direto pra casa da Manu.

Sempre ela.

Cheguei sem avisar, toquei a campainha com a testa encostada na porta, como se precisasse de permissão pra desabar. Quando ela abriu, nem precisou perguntar. Viu minha cara, viu a postura curvada, viu o jeito que eu tremia segurando a bolsa contra o peito. Só me puxou pra dentro, fechou a porta e me abraçou forte, sem falar nada por uns bons minutos.

Eu chorei no ombro dela até não ter mais lágrima.

E ela só ficou ali, me balançando devagar, como quem acalma criança depois de pesadelo.

— Quer tomar banho? — perguntou baixinho quando eu finalmente parei de soluçar.

— Quero… mas não consigo ficar sozinha agora.

— Então vem comigo.

Ela me levou pro banheiro, tirou minha roupa com cuidado — sem malícia nenhuma dessa vez —, ligou o chuveiro quente e entrou comigo. Não foi sexo. Foi cuidado. Lavou meu cabelo, esfregou minhas costas, passou sabonete nas coxas com uma delicadeza que eu nem sabia que ainda existia no mundo. Quando a água começou a levar embora tudo que eu vi naquela noite, eu finalmente consegui respirar sem sentir que ia quebrar.

Saí do banho embrulhada na toalha dela, sentei na beirada da cama e soltei a frase que estava entalada desde que pisei fora do motel:

— Caramba, como pode eu estar me sentindo tão bem e tão mal ao mesmo tempo?

Manu sentou do meu lado, pegou minha mão e apertou forte.

— Chefe, tá tudo bem, mas você precisa de terapia pra organizar essa cabeça.

Devolvi um olhar triste. Ali com ela eu me sentia melhor, pelo menos um pouco.

— Eu não tenho tempo pra isso. Terapia demora demais e minha vida tá correndo rápido demais.

Ela riu com aquela cara de amiga sapeca que eu conheço bem, e por um segundo fiquei na dúvida se vinha brincadeira ou se ela ia cruzar alguma linha.

— Então eu vou ser sua terapeuta e vou dizer o que tá acontecendo.

— Vai, então me diz, porque eu mesma não sei.

— O que tá acontecendo é que você gosta do Junior e tá frustrada porque ele é um bosta. Isso é a primeira coisa. A outra é que você tá perdida, porque ele começou a melhorar depois que começou… tudo isso, sabe?

— Faz sentido… — sussurrei, reconhecendo que o ponto batia forte.

— Essa piranhagem toda que você tá vivendo é só o seu eu sexual falando alto, aquele que você reprimiu por anos. É só dar tempo ao tempo e não ir tão rápido.

Virei pra ela, sentindo o peito apertar de novo.

— Será que se eu me livrar logo do Junior é a melhor coisa a ser feita?

Fiz uma pausa longa, sentindo as lágrimas voltarem quentes nos olhos.

— Caralho, Manu, eu não sou a mãe dele, cacete.

— Olha amiga, eu vou falar o que você já sabe: vocês têm os acordos de vocês dois, mas ele tem família. Você acha mesmo que ela vai deixar ele na rua?

Fiquei muda um tempo pensando. Eu sabia que não.

— Manu, sabe qual a coisa mais bizarra nisso tudo? Eu nem acredito que vou falar isso em voz alta: ele gosta de ser corno e ser humilhado, e eu estou gostando. E eu não sou essa pessoa que humilha as pessoas.

Minha cara era pura descrença comigo mesma, mas continuei.

— E sabe, ao mesmo tempo que eu gosto, eu me sinto muito mal por tudo. Pelo fim, pela foda maravilhosa, por me exibir desse jeito. É tudo muito confuso.

Manu riu, percebendo minha epifania, e preferiu não continuar no assunto.

— É, mas me dá seu celular que eu vou ligar pro Junior e pro homem que você roubou de mim para avisar que você está bem.

— Eu roubei de você?

— Sim senhora, o seu era o chato do bar que foi embora, esqueceu?

Eu ri. Era verdade.

— Ahn, mas você ficou comigo de prêmio de consolação.

— Prêmio principal você quis dizer.

E ela me deu um beijo gostoso.

O beijo de Manu era algo delicioso, macio, delicado e ao mesmo tempo quente. Que mulher pra beijar molhado! Meu Deus, meu corpo inteiro esquentou na hora que ela encostou nos meus lábios e a língua correu devagar, explorando, enrolando na minha com uma lentidão que fazia tudo pulsar. Era um beijo que começava suave, quase tímido, mas logo virava fome. A boca dela era macia, quente, tinha gosto de pasta de dente de menta. A língua dela deslizava na minha, pressionava de leve, depois recuava só pra voltar mais fundo, e eu sentia o calor subindo do peito pro pescoço, pros braços, pras coxas. Meu corpo inteiro respondeu na hora: os mamilos endureceram contra a toalha, a barriga contraiu, a buceta deu aquela pulsada forte de quem acorda de repente. Eu me entreguei, segurei o rosto dela com as duas mãos, aprofundei o beijo, sentindo o fogo crescer rápido demais, o tesão subindo como uma onda que não dava pra segurar.

Aí veio a travada.

Quando o corpo inteiro se incendiou e eu quis apertar as pernas, puxar ela pra cima de mim, senti uma fisgada aguda subir pela espinha. O cu, que já estava ardendo antes, agora gritava. Uma dor quente, latejante, que subiu das nádegas até a nuca num segundo. Soltei um “ai” abafado travado em sua boca e me afastei de repente, os olhos arregalados.

Manu parou na hora, confusa, mas já rindo.

— Que foi? Machuquei você?

Eu ri também, meio sem graça, meio desesperada, apertando a toalha contra o corpo.

— Não foi você… é o cu. Tá pegando fogo de verdade. Acho que rasgou mesmo.

Ela arregalou os olhos por um segundo, depois caiu na gargalhada, jogando a cabeça pra trás.

— Meu Deus, chefe… sério?

Eu fiz careta, ainda rindo, mas com dor.

— Sério. Tá doendo pra caralho. Me ajuda a olhar?

Manu levantou as mãos, fingindo horror, mas já se aproximando.

— Eu nunca imaginei que ia precisar estudar tanto pra um dia ver se o cu da minha chefe tá inteiro. Isso não tava no manual de RH.

Eu ri alto, mesmo com a dor, e me virei de lado na cama, abrindo a toalha só o suficiente.

— Vai, doutora Manu, examina logo antes que eu precise ir pro pronto-socorro e explicar pro médico que foi anal com corno assistindo.

Ela se ajoelhou na cama, ainda rindo, e deu uma olhada cuidadosa, tentando não gargalhar mais.

— Tá vermelho pra caralho, amiga… tem umas veias saltadas e uns roxos, mas não é nada rasgado feio. Só inflamou. Vai precisar de pomada, gelo e uns dias de folga do pau alheio.

Eu suspirei, aliviada e morrendo de rir ao mesmo tempo.

— Meu Deus… que vida.

Manu pegou a toalha de novo, me cobriu com cuidado e me deu um beijo leve na testa.

— Relaxa. Eu cuido de você. Mas da próxima vez avisa antes de virar atriz pornô, tá? Assim eu preparo o kit primeiros socorros.