Capitulo 33
Eu saí pelo corredor com o corpo quente, quase febril. Tinha acabado de marcar uma transa com um cara bem na frente do meu marido e ele parecia gostar daquilo. Pior: eu estava gostando disso. A cada passo que eu dava, a mesma frase martelava na minha cabeça: Tá, eu gosto do Junior, mas ele é um inútil. Eu que sustento ele, eu que pago as contas, eu que carrego tudo nas costas. Por que eu não posso fazer o que eu quiser?
Eu sabia que isso tinha limites. Sabia que estava pisando em terreno perigoso. Mas o que mais me confundia era o fato dele parecer gostar. Essa porra toda tava mexendo com a minha cabeça e me deixando doida. Então eu decidi que ia deixar rolar. Se desse problema, eu me mudava de casa e deixava ele à própria sorte.
Fui no caminho toda nervosa, o corpo arrepiado só de pensar no que ia acontecer mais tarde. O carinha que eu ia me encontrar era o mesmo do ménage maluco com a Manu. Nossa, eu fiquei muito doida aquela vez. Só de lembrar, a calcinha já encharcava de novo. A buceta latejava, quente, molhada, como se o corpo tivesse memória própria.
E ainda tinha isso: a Manu. Vejam só, eu depois de velha virei sapatona, pode isso? Eu nunca tive muita coisa além de curiosidade com mulher, mas quando rolou com ela eu gostei pra caralho. Confesso que por muitas vezes eu pensei em perguntar se ela não toparia um relacionamento de verdade. Acho que uma coisa entre duas mulheres seria de convivência bem mais fácil. Sem esse jogo de poder, sem humilhação, sem ficar sustentando um homem que virou sombra. Só nós duas, sem essa bagunça toda.
Mas não dava pra pensar nisso agora. Foi só eu colocar o pé no escritório que a Manu já me recebeu quase na porta, tirando a bolsa da minha mão e trocando por um pacote de documentos e um copo de café quente. O ar condicionado gelado batia no meu rosto, o cheiro de café e papel recém-impresso tomava conta, e o burburinho baixo das teclas e das vozes preenchia o ambiente. Tudo parecia normal, mas eu sentia a tensão no ar, aquela eletricidade silenciosa de quem sabe que a guerra está acontecendo debaixo dos panos.
— Fernando tá te esperando já — falou ela torcendo a cara pra mim, como se soubesse que o dia ia ser uma merda.
Eu torci a cara de volta em sinal de bom dia e segui pro corredor ouvindo a Clara soltar da mesa dela, alta o suficiente pra eu escutar:
— Mas é muito puxa-saco, hein!
No escritório eu tinha a Manu como minha secretária direta, a Clara na mesa ao lado e o Fernando, que era doido pra tomar o meu cargo e nem se dava ao trabalho de fingir que não estava tentando me derrubar. Ele era esperto, calculista. Eu já via os movimentos dele de longe: mandava e-mails pra diretoria com cópia oculta pra mim, inflava números nos relatórios pra depois apontar falhas minhas, marcava reuniões paralelas com o chefe sem me avisar, plantava sementinhas de dúvida sobre minha liderança. Coisa fina, coisa de quem joga xadrez enquanto eu ainda tava tentando entender o tabuleiro. Eu era mais experiente, conhecia esse jogo há anos, mas mesmo assim sentia o peso. Um erro meu e ele estaria pronto pra dar o bote.
Entrei na sala de reunião com o estômago embrulhado. Era dia da apresentação dele, aquela que eu precisava aprovar. O problema era entender o que ele estava escondendo e onde exatamente ele ia armar o golpe pra tentar me derrubar depois. Eu já imaginava: números maquiados, uma lacuna estratégica no relatório, um comentário “inocente” pra diretoria sobre como “algumas decisões recentes” estavam prejudicando os resultados. Ele era bom nisso. Mas eu era melhor. E hoje, com a cabeça cheia de pau, buceta molhada e confusão emocional, eu precisava estar ainda mais afiada.
Sentei na cadeira da sala de reunião, cruzei as pernas devagar e forcei a cara de chefe. Por fora eu parecia calma, concentrada. Por dentro, só conseguia pensar no cara me fodendo mais tarde, na Manu rindo enquanto me chupava e no Junior dormindo no chão sujo de porra.
— Bom dia, Fernando. Pode começar, por favor… — falei sem muita vontade.
Aquela apresentação era puro teatro. Fernando era muito bom no que fazia e eu tinha acompanhado todo o processo de construção do projeto com ele. Aquilo não passava de uma formalidade. E ele sabia disso.
— O que houve, chefe? Problemas com o Júnior? — ele se sentou como se fosse um amigo na mesa, e na verdade até certo ponto era, tirando as coisas do trabalho. — Ele nunca aparece quando a gente chama, né?
— Ele gosta de ficar no mundinho dele.
— Vocês tão se separando, não é? Fiquei sabendo…
Eu estava com os olhos no papel quando ele soltou isso. Tentei fingir naturalidade, mas senti um frio subir pela espinha. As únicas pessoas que sabiam disso eram o Junior, a Manu e o cara que me comia. Muito provavelmente ele só estava jogando verde, algo que ele ou a Clara tinham ouvido eu conversando com a Manu. Eu precisava dar algum drama menor pra ele morder e não querer ir atrás de algo maior.
— Não é bem assim, separar não. A gente se ama. Mas, sabe Fernando, me incomoda um pouco o fato dele ser tão parado na vida.
— Eu consigo alocar ele no projeto, ele não aceitaria?
Esse era o tipo de golpe que o Fernando aprontava sempre. Se eu colocasse meu marido no projeto, logo ele correria pra diretoria dizendo que eu estava favorecendo o marido em cargos estratégicos e deixaria bem claro que era contra isso.
— Não, Fernando. Você sabe que não pode, meu querido — respondi no melhor tom de megera fria.
Fernando só riu, sem disfarçar, reconhecendo que o golpe infantil tinha falhado. Ele se recostou na cadeira, ainda com aquele sorrisinho de quem não desistiu, só mudou de estratégia.
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