Capítulo 16

Ele continuava falando, mais calmo agora. Comentava das relações difíceis que teve, da dificuldade de confiar, de se entregar, de se manter por perto. E eu ouvia. Não interrompia. Parecia uma confissão. Eu sabia o que ele queria perguntar — aquilo estava pairando entre a gente como um vapor morno, úmido, inevitável. Mas ele não dizia. Talvez estivesse inseguro como eu. Ou só sabia jogar bem. Comia pelas beiradas como quem não quer ferir o centro.

E então ele pediu mais uma rodada.

E eu aceitei.

No quarto chope, ele se encostou na cadeira e me olhou com um sorrisinho torto.

— Mas… se te oferecessem… sei lá… quanto de dinheiro você cobraria?

A pergunta não veio seca, nem suja. Veio como quem pede um favor, um número qualquer. Mas era mais do que isso. Era ele testando limites. E eu, já um pouco mole, já meio quente por dentro, só pensei:

“Fala sério, Justine. Vai dar o puritana agora?”

Dei uma risadinha e olhei pro copo antes de responder. A cerveja já não estava mais tão gelada, mas eu também já não me importava.

— O problema é que… se eu não gostar da pessoa, não rola — falei, jogando a verdade nua na mesa como quem joga uma calcinha molhada.

Minha voz saiu mais leve, mais solta. Eu já estava mais saidinha, sem pensar direito. A culpa, que horas antes me rondava, parecia ter ido embora. Ou dormido. Ou simplesmente cansado de mim.

Mesmo antes de beber, se eu fosse honesta, já não pensava muito nela. Na culpa. No certo. No errado. Aquilo tudo parecia tão distante agora.

— E se fosse eu? — ele perguntou, com a voz mais baixa, inclinando o corpo levemente na minha direção.

A resposta na minha cabeça veio antes mesmo de eu pensar. Eu daria de graça. Ali mesmo, embaixo da mesa, se ele quisesse. Ele era lindo. Tinha uma voz gostosa, um cheiro absurdo, e aquele ar de homem que sabe o que tá fazendo. E, bom… eu já tinha visto o pau dele. E o pau era bonito.

Mas claro que eu não ia dar esse mole assim. De bandeja? Não. Isso aqui era jogo.

— Não faço ideia… quanto cobram num programa?

Ele sorriu de canto, sem se abalar.

— Depende da mulher. Da fama dela, do que ela faz ou deixa de fazer… se beija, se deixa filmar, se faz anal, se dorme junto…

— Tá… então me ajuda a precificar? — falei, me fazendo de sonsa. — Eu sou quase virgem, não sei fazer nada direito, sou desajeitada… minha calcinha tá com o bordado desfiando bem embaixo e as outras tão mais ou menos na mesma situação.

Ele se encostou na cadeira, fingiu uma expressão de análise profunda, teatral. Fez um “hmm” pensativo, franziu o cenho, levou a mão ao queixo como se fosse um avaliador de arte antiga. Quando eu fui interromper, ele levantou a mão, pedindo silêncio.

Eu ria, sem graça, fingindo me esconder atrás do copo.

Ele então tirou do bolso uma caneta dourada — que tipo de homem carrega uma caneta dourada no bolso, meu Deus? — e pegou um guardanapo. Escreveu algo com aquele ar concentrado de quem faz contratos. Não falou mais nada. Só virou o papel de cabeça pra baixo e empurrou na minha direção.

Coloquei a mão sobre o papel, ainda sem virar, e olhei nos olhos dele. Tentei ficar séria — o mais séria que consegui naquele momento. Uma tentativa de dominadora, com aquele tom teatral que não me pertencia, mas que eu usei mesmo assim, só pra ver até onde ele ia.

— Esse valor aqui… é o que você pagaria por uma noite de amor comigo?

Ele não sorriu. Manteve a pose de negócios, só franziu a testa, fazendo cara de quem ponderava uma proposta de investimento arriscado. A brincadeira continuava… mas já tinha peso. Eu sentia. Aquilo era uma encenação — mas tinha verdade ali. Eu sabia que ele tinha um valor. Que ele estava disposto a pagar pra me comer. E o mais maluco é que eu pensava: “eu daria de graça… então por que ele insiste nisso?”

— Pois bem, senhor — continuei, entrando no papel. — Vou analisar sua proposta.

Ele mordeu o lábio. O olhar dele brilhava. Safado, contido, elegante.

Virei o papel.

O número me paralisou. A brincadeira acabou ali.

Eu encarei. Pisquei. Pisquei de novo.

O valor era… sério. Ou podia ser. E se não fosse, era um jogo perigoso demais pra continuar fingindo.

— Vitor… tu pagaria tudo isso mesmo?

Ele não hesitou. Nem por um segundo.

— Pagaria.

A resposta dele veio seca. Firme. Crua.

O valor era um absurdo, o valor integral de uns cinco quase seis salários que eu ganhava como secretária na merda daquele dentista. Na hora, eu fiquei com medo, o álcool foi embora na mesma hora e sei lá eu só pensava que ele ia me levar para um canto e tirar meus rins for a. Eu fiquei meio que rindo abobalhada com uma reaçào indefinida.

— E pra te mostrar que eu tô falando sério… se você disser que sim, eu deposito agora. Sem truques.

Aquilo me travou. Eu sabia que ele podia cancelar depois, se quisesse. Mas também sabia que ele tinha grana — já tinha torrado uma boa nota no site pra me ver. Dinheiro não era o problema. O problema era outro.

— Posso… posso ir ao banheiro? — soltei de repente, quase atropelando a frase, como quem puxa o freio de emergência.

— Claro, vai lá — ele respondeu, calmo demais, como se já soubesse que eu ia voltar.

Levantei tentando parecer natural, mas meu corpo inteiro gritava. Entrei no corredor e já vinha num turbilhão. Eu precisava pensar. Pensar, porra. Pensar.

Ele não era um cara ruim. Sério mesmo. Lindo, cheiroso, gentil… eu daria pra ele. Fácil. A questão não era essa.

A questão era a maldita palavra: prostituição.

Cacete.

A Ju aceitaria isso num piscar de olhos. Pior — ela ia rir, me zoar, perguntar se ele queria com lubrificante ou sem. E se eu ligasse pra ela agora? Deus me livre. Ela comeria o meu cu mais rápido que ele.

“Aliás… será que ele vai querer comer o meu cu?”

Parei no corredor com essa pergunta batendo no meu cérebro. O pau dele era grosso. Grosso demais. Não ia passar nem rezando. E puta merda… minha calcinha tá descosturada. Desfiada no rego ainda por cima. Eu tô no shopping, prestes a virar puta por livre e espontânea burrice, e a porra da minha calcinha tá descosturada.

“Eu quero chorar.”

Ainda nem tinha chegado no banheiro. E minha cabeça já tinha vivido uma semana inteira em três minutos.