Capítulo 17

Quando entrei no banheiro, fiquei ali parada, com a mão embaixo da torneira e o olhar perdido no espelho. A água corria sem propósito, igual minha cabeça naquele momento. As mulheres que estavam por ali provavelmente pensaram que eu era alguma sapatona surtada ou largada pelo date — parada daquele jeito, tremendo levemente, encarando meu próprio reflexo como se ele fosse me dar alguma resposta.

Uma delas, uma moça simpática com voz doce, me tirou do transe:

— Amiga, você tá bem?

— Dia difícil só… vou ficar bem — respondi com um sorrisinho idiota no rosto, tentando disfarçar a bagunça que era meu cérebro.

— Vai melhorar, querida. Força! — ela disse, com aquele jeitinho meio materno que só mulheres em banheiro público sabem ter.

Agradeci com um aceno discreto, respirei fundo e deixei a água correr mais um pouco, como se pudesse lavar também os pensamentos que ferviam. Eu queria ligar pra minha irmã, mas sabia que ela não ia atender. Provavelmente estava em live a essa hora. E mesmo que atendesse… a Juju tinha menos juízo que eu. E a Patrícia, que tecnicamente parecia ter mais juízo e experiência, não tinha intimidade nenhuma comigo. E se falasse com a Juju? Pior ainda. Ia virar piada.

Sozinha.

Era isso. Eu ia ter que decidir sozinha.

Terminei de fazer o que precisava, me enxuguei, ajeitei o cabelo e olhei uma última vez no espelho, tentando encontrar um traço de coragem dentro de mim. Dei dois passos pra trás, respirei fundo, e fui. Voltei pra mesa com um sorriso forçado no rosto — desses que a gente ensaia antes de abrir a porta de casa quando não quer que ninguém perceba que a alma tá tremendo.

Ele estava ali, sentado como se nada tivesse acontecido. Assim que me viu, abriu um sorriso gentil.

— Pedi uma sobremesa pra gente — disse ele, apontando pro cardápio. — Fiquei com vontade de comer… esse pudim aqui parece bom.

Pudim. Como se minutos atrás ele não tivesse me oferecido dinheiro pra transar com ele. Como se aquele número no guardanapo não tivesse atravessado minha cabeça feito um raio.

Eu olhei pro pudim, dei um aceno aprovando, e fui direto ao ponto.

— Vitor, eu não fiquei chateada pela oferta, sabe? Não foi isso. Eu meio que… esperava que um dia alguém fosse me fazer essa proposta. Então eu estava, sei lá, preparada. Só que… eu não me sinto bem com a ideia. Não consigo.

Ele não mudou de expressão. Respirou devagar, sorriu de leve e falou com uma calma que eu não esperava.

— Não, imagina. Eu te respeito. Talvez eu não tenha sido legal em te oferecer isso desse jeito. Foi direto demais, talvez. Ou fora de hora.

Quando percebi que a proposta estava realmente escorrendo pelo ralo, indo embora, foi aí que me deu o baque. Aquela grana… aquele valor absurdo ia resolver meu mês inteiro. E eu não ia nem precisar tocar no salário da clínica. Eu senti o arrependimento crescer devagar, como se tivesse um peso novo nos meus ombros.

— É que… era muito dinheiro, Vitor — confessei, olhando pro pudim, sem coragem de encará-lo de novo. — Aquilo daria pra você alugar uma namorada por um ano inteiro. Sabe? Eu sei que fui eu quem te perguntou quanto custa um programa, mas agora eu fiquei curiosa. Em média… quanto você costuma gastar?

Ele pensou por uns segundos, o olhar mais sério agora, como se pesasse as palavras.

— Depende. Do tempo, da proposta, da mulher. Digamos… cento e cinquenta a duzentos e cinquenta. Pode ser mais caro se tiver que incluir local, transporte, essas coisas. Mas já paguei bem mais que isso, viu? Depende. Sempre depende.

O pudim chegou na mesa como se não fosse nada demais. O garçom, atencioso demais, retirou os pratos com educação, agradeceu sorrindo e sumiu, nos deixando ali de novo naquele universo suspenso onde sobremesa e tensão dividiam espaço na mesma mesa. Eu pegava a colher, distraída, quando senti o olhar dele. Vitor me observava com uma intensidade quase clínica, como se quisesse me decifrar pedaço por pedaço.

Ele respirou fundo, se ajeitou na cadeira e falou com a voz baixa, firme:

— Olha, Justine… eu odeio parecer cafajeste. De verdade. Mas eu quero isso. E quero melhorar a proposta um pouco mais.

Na hora, meu estômago virou. Meu cérebro pensou mais rápido do que meu coração: “Mais dinheiro? Eu não valho tanto.”

Antes que eu pudesse falar qualquer coisa, ele continuou:

— Você disse que tava com problema com seu pai. Eu entendi isso. E sei que se eu simplesmente te oferecer a grana, você não vai aceitar. Certo?

— É… eu não aceitaria — menti, com a maior cara de pau. A verdade é que eu aceitaria, sim. Por ele, pelo meu pai, pelo medo de perdê-lo, eu aceitaria qualquer coisa. Mas existe uma regra invisível, uma etiqueta social: a gente precisa fingir orgulho, mesmo quando tudo dentro da gente está implorando por ajuda.

Ele assentiu, como se já soubesse.

— Eu sei que você gostou de mim — disse, e ali fez uma pausa. Parecia que aquela frase custou caro pra sair. — Talvez, se fosse de outro jeito, eu conseguiria o que eu quero… sem precisar disso tudo.

Eu continuei calada, mas meus olhos estavam nele. O argumento não era exatamente bom. Mas de algum jeito… eu queria que ele me convencesse.

Ele entendeu meu silêncio e apertou um pouco mais o passo.

— Então é isso… a proposta: você aceita o dinheiro. E a gente tenta. Se rolar, rolou. Se não rolar, você me devolve. Nenhuma pressão. Nenhuma obrigação. Só… uma chance.

Eu pisquei devagar. A colher parada, afundada no pudim sem que eu tivesse dado a primeira colherada. Minha mente rodava, e de repente um estalo veio — uma voz interna, debochada, que escapou sem filtro.

— Vitor, eu entendi. Você não quer pagar por um programa. Você quer me corromper. É isso? Um experimento moral? Sei lá… cadê a câmera escondida?

Ele riu. Um riso leve, mas cansado.

— Não tem câmera nenhuma. Só eu. E você. E uma proposta feita.

Ele se recostou de novo na cadeira com aquele sorrisinho de quem já sabia que tinha ganhado. Mas eu? Eu já tinha aceitado. Não tinha dito “sim” com todas as letras, mas o meu sorriso nervoso, a forma como minha mão ainda tremia em volta da colher do pudim, tudo me entregava. A verdade era que eu já tinha me entregado por dentro — o corpo inteiro gritava isso, só a boca que ainda tentava se segurar em alguma dignidade.

Ninguém podia saber. Nunca. Aquilo ia ser o nosso segredo. E só de pensar nisso, o frio na barriga aumentava. Era como se eu estivesse fazendo algo proibido, errado, sujo… e era justamente isso que tornava tudo tão excitante.

Começaram a vir as questões práticas. A mente voltando a funcionar no modo “Justine chata”.

— Tá, mas… eu tenho exigências! — falei tentando parecer firme, mas minha voz saiu mais fina do que eu esperava.

— Parece que estamos negociando agora? — ele riu, divertido, como se achasse tudo fofo.

— Camisinha. Sempre. Nunca sem, tá?

— Concordo plenamente. Eu nunca transo sem — ele respondeu sem nem hesitar, com aquele ar responsável que me dava mais confiança ainda.

— E… eu sou normal, tá? Não sou atriz pornô, não sei fazer essas posições malucas, não fico gritando igual louca. Eu sou… sei lá, básica.

— Isso é ótimo. Eu gosto de mulher real. Posso te ensinar umas coisinhas — disse rindo de leve, com um charme que me fez apertar as coxas de nervoso embaixo da mesa.

— E nada de comer minha bunda, hein. Eu vi teu pinto… não vai entrar nem com reza braba — completei quase num sussurro, com um meio riso, mas firme.

Ele arregalou os olhos e levou a mão ao peito, teatral.

— Vamos precisar reduzir o valor então…

— Nem vem — revirei os olhos, mas ri junto, o nervosismo meio que se dissolvendo com o bom humor.

Mas aí veio a dúvida final. A mais difícil de todas.

— E o tempo? Como funciona? A gente não falou disso ainda.

Ele ficou pensativo. Tenho certeza que, na cabeça dele, o “mercado” ditava regras: duas horas, uma gozada, tchau. Mas aquele valor… aquilo que ele tinha oferecido não era um valor de tabela. Era outra coisa. Outro tipo de negociação.

— Você fica… até quando se sentir bem, ok?

Aquela resposta me desmontou.

E por mais que eu soubesse que tudo aquilo era errado, errado pra cacete, no fundo… era exatamente isso que eu queria ouvir.

— E quando você quer? — perguntei, quase como quem testa uma ideia em voz alta.

— Agora. Você quer agora? — ele rebateu com calma.

— Agora… tipo, saindo daqui? — minha voz saiu fina.

— Sim. Agora. A gente vai pra minha casa, pra sua, pra um motel, sei lá… você escolhe.

Eu respirei fundo. Minha casa estava fora de cogitação — um quarto só, roupa suja no chão, minha irmã talvez em live. Motel me dava um ranço antigo. Aqueles lugares me traziam uma lembrança amarga de noites baratas, lençóis ásperos e espelhos sujos. Saber onde ele morava, como ele vivia, me pareceu mais íntimo… mais seguro, talvez.

— Pode ser sua casa?

— Pode, claro. Eu pago a conta e a gente vai.

— Mas… você não mora com sua mãe, né?

Ele soltou uma risada leve.

— Não. Moro sozinho. E lá tem tudo o que você precisa.

Tudo o que eu preciso. Aquilo ecoou na minha cabeça.

Fiquei olhando pra ele em silêncio por uns segundos. Tinha um detalhe que ainda me incomodava, algo pequeno, mas insistente, e eu precisava dizer.

— Vitor, eu saí de casa hoje sem pensar em encontrar ninguém. Nem me arrumei pra isso. Será que não pode ser amanhã?

Eu não sabia se era o medo querendo me proteger ou a culpa tentando dar o último grito antes de se calar de vez.

Ele me olhou com aquele ar debochado e respondeu tentando soar sério:

— Só se amanhã você prometer estar com uma calcinha puída também. O valor que ofereci… perdão, mas nem é por você. É pela calcinha. Fetiche!

Eu ri. Baixo, cúmplice. Ri porque a tensão precisava sair por algum lugar. Porque a situação era absurda, ridícula e deliciosa. Ele chamou o garçom, pagou a conta como se estivesse comprando um café.

E eu fui me prostituir.