Capítulo 18
Entramos no carro dele — um carrão preto, com cara de blindado executivo. O tipo de carro que parece ser mais inteligente do que quem dirige. Era espaçoso, silencioso por dentro, e o ar gelado batia de um jeito que dava vontade de morar ali mesmo. Tudo ali exalava conforto, tecnologia, poder. Eu encostei no banco como quem pousa numa nuvem e me peguei pensando: “Com certeza tem um botão nesse painel que faz café expresso.”
Seguimos em direção à casa dele. Pra minha surpresa, era no mesmo bairro que eu morava, mas num canto escondido, tipo um sub-bairro chique, um condomínio de casas antigas, discretas. Nada de ostentação espalhafatosa. Eram casas de quem tem dinheiro há tanto tempo que nem precisa provar nada pra ninguém. Heranças velhas. Famílias que já nasceram no topo da pirâmide.
Quando paramos em frente à casa, ele apertou um controle e o portão da garagem se abriu com um clique suave. Eu virei o rosto pra olhar em volta, tentando não parecer deslumbrada. A casa era grande. Alta. Imponente, mas com um ar silencioso, quase melancólico. Assim que descemos, ele comentou:
— Meus pais moraram aqui por muito tempo. A casa ainda tem muita coisa deles. Móveis antigos… eu gosto disso, sabe?
Assenti, sem saber o que responder de imediato. Dava pra ver que tudo ali tinha história. Os detalhes da varanda, as molduras das janelas, até o cheiro no ar tinha uma memória. E aquilo me deu um friozinho no estômago. Eu estava entrando na casa de um homem que eu mal conhecia — por vontade própria. E testava perdendo o juízo.
Dentro a sala er maior que minha casa inteira, tinha ambientes, um piano, uma candelabro no teto enorme, tudo que tinha de tecnologico parecia estar escondido ou em cantos que não chamassem muito atenção. Ele me ofereceu algo para beber. Eu aceitei e ele saiu para a cozinha mas antes falou, ali tem um lavabo, se quiser usar.
— Obrigada!
Enquanto ele foi pra cozinha — provavelmente preparar alguma coisa ou fingir que me dava tempo —, eu aproveitei pra ir ao banheiro. Assim que fechei a porta, puxei meu telefone do bolso e escrevi uma mensagem pra Juju.
“Como tá a live? Peguei um cinema com uma amiga, depois vou pra casa dela. Esse é o endereço, volto às dez! Beijo, irmã!”
Anexei a localização e deixei claro a hora do retorno. Se algo desse errado, ela ia me procurar — disso eu não podia reclamar. Juju era toda errada em muitas coisas, mas quando o assunto era me proteger, ela virava uma onça. Do jeito dela, claro. Mas virava.
Me olhei no espelho. O reflexo parecia cansado, meio tonto, mas ainda com um traço de vaidade. Passei a mão no rosto e falei baixinho, só pra mim.
— Tá. É só dar pro cara, fingir que tá agradando e ir embora. Simples.
Eu conversava comigo mesma como quem ensaia um papel — um papel que não era meu, mas que eu tinha aceitado vestir. Só que antes que eu pudesse terminar meu teatrinho, o telefone vibrou de novo na minha mão.
— Ué, Juju respondeu?
Olhei rápido, mas não era ela. Era o aplicativo do banco.
No começo achei que fosse propaganda, algum alerta de boleto vencido — já era quase fim de mês. Mas aí li com mais atenção: “Depósito recebido”.
O estômago revirou.
Abri o aplicativo e lá estava. Nítido, sem erro. Dez mil reais. Dez mil.
Na minha conta.
Por algo que, sendo sincera… talvez eu tivesse feito de graça. Ou melhor: dez mil reais pra oficializar o que, até então, era só uma brincadeira perigosa. Dez mil reais pelo meu novo título não declarado — puta profissional.
Saí do banheiro ainda atordoada, tentando parecer calma. Ele estava na base da escada que levava ao andar de cima, com duas garrafas nas mãos.
— Desculpa, eu não sabia o que você queria beber. Tenho esse rosé e um porto aqui. O que acha?
— Rosé pra mim é ótimo. Eu adoro — respondi, meio sem graça, tentando sorrir, tentando entrar na personagem que eu mesma tinha inventado pra aguentar aquilo.
Ele sorriu de volta e começou a subir. Aquilo era um convite. A coisa ia acontecer lá em cima.
— Vem, vamos lá. Vou te mostrar os quartos.
Subi atrás dele com o coração acelerado. Lá em cima parecia outra casa — um ambiente mais moderno, mais jovem. Um lounge bonito, silencioso. Ele foi me mostrando tudo: duas suítes vazias, um quarto de hóspedes, um escritório pequeno. E, por fim, o dele.
O quarto era enorme. A decoração era escura, elegante, com toques mais modernos do que o resto da casa. Tinha um closet médio, um banheiro lindo, e um canto que ele usava como escritório improvisado. Tudo ali dizia que ele passava bastante tempo naquele espaço. Era masculino, discreto, confortável.
Ele foi até o canto do quarto, serviu os copos e voltou com um deles na mão. Sentou-se numa poltrona aos pés da cama e me convidou para sentar-me ao meu lado, e me estendeu o vinho.
Aceitei. Respirei fundo como quem tá prestes a pular de um penhasco.
— E agora? — perguntei, tentando quebrar o nervosismo que fervia por dentro. Eu já ficava assim só de transar com desconhecido, imagina agora, com ele pagando? — Eu… sei lá. Danço? Ajoelho? Te chupo primeiro?
A verdade é que eu sentia tesão nele. Achava ele bonito, interessante, cheiroso. Mas sempre fui do tipo que só se entregava por amor. Mesmo sabendo que esse tipo de romantismo barato já não devia morar mais em mim. Eu sabia que um dia ia dar só por dar. Não era isso que me deixava estranha. Era o peso da situação. A consciência de estar ali como uma transação. Não pensem que eu não queria. Eu queria. Mas…
— Não precisa. Essa não é você — ele disse, se afastando um pouco, os olhos me analisando com calma, como se lesse além da pele. — Ou é, e eu tô interpretando errado?
Soltei uma risada curta, meio envergonhada.
— Olha… eu não sou santinha também, viu? Tenho os meus pecados.
— Ah, tem? — ele ergueu uma sobrancelha com aquele ar provocador. — Me conta um.
— Nem pensar. Eu morro de vergonha.
— Então faz um comigo.
O jeito como ele disse isso, com aquele sorrisinho cafajeste e voz baixa, me pegou em cheio. Eu senti meu corpo inteiro dar uma resposta, quente, direta, sem pedir permissão.
Olhei pra ele, agora um pouco menos tímida, um pouco mais entregue.
— Você pagou por isso, né… — saiu da minha boca sem filtro, e assim que falei, percebi o peso daquela frase. Mas ele não se incomodou.
Ele só sorriu de leve, quase com ternura. Pegou a taça da minha mão com calma, colocou no chão. Depois, a mão dele voltou ao meu rosto, os dedos quentes acariciando minha bochecha com gentileza. O toque era suave, sem pressa, como se ele estivesse me preparando pra esquecer que aquilo tinha um preço.
Foi se aproximando devagar, os olhos nos meus, e quando os lábios dele finalmente tocaram os meus, foi como se o mundo todo ficasse pequenininho só para aquele momento.
O beijo não veio como ataque, nem como cobrança. Foi um beijo lento, cheio de intenção e cuidado. Os lábios dele se moveram nos meus como se me reconhecessem, como se soubessem exatamente a medida que eu precisava. Quente, úmido, íntimo. A língua dele apareceu só depois, tímida, buscando espaço, pedindo permissão — e eu deixei. Abri a boca e deixei ele entrar.
O beijo era gostoso.
Meu corpo foi esquentando aos poucos, como se cada parte minha fosse sendo aquecida de dentro pra fora. Eu sentia que estava ficando vermelha, dava pra perceber pelo calor nas bochechas e pelo jeito que minha pele parecia mais sensível ao toque dele. Um suorzinho começou a brotar na base do pescoço, na curva dos seios, e eu nem tentava disfarçar — era nervoso, era excitação, era tudo ao mesmo tempo. E eu gostava. Gostava daquele momento mais do que eu deveria.
Ele sorriu no meio do beijo, sem pressa, e me puxou devagar pro colo dele. Meu corpo foi sem resistência, manso, como se já soubesse o caminho. Me encaixei ali com naturalidade, como se fosse a namorada dele, uma coisa íntima, cotidiana. O jeito como ele me segurava era doce. Um carinho mudo. Ele ajeitava meu cabelo atrás da orelha, passava o polegar no meu queixo com suavidade, como se estivesse me lendo com os dedos. Nem parecia que eu era uma mulher que ele tinha acabado de comprar.
Eu sentia o volume dele entre as pernas, ainda preso pela calça. Era gordinho. E mesmo assim, eu me sentia segura, calma, quase confortável demais. Se ele me pedisse ali, eu diria sim sem hesitar. E talvez fosse isso que mais me assustava: o quanto aquilo já não parecia errado.
Então ele afastou os lábios dos meus, ainda sorrindo de leve, os olhos fixos nos meus. A voz saiu baixa, firme.
— Vem. Levanta.
Me ajudou a descer do colo com cuidado, sem soltar minha mão. Quando fiquei de pé na frente dele, ele ajeitou o próprio corpo, sentade de forma ereta, as pernas levemente abertas, o olhar mais escuro.
— Tira sua roupa — disse, como se dissesse “fica à vontade”. Com uma pontada de autoritarismo e carregada de desejo.
E eu fiquei ali parada, olhando pra ele, com o coração acelerado e a cabeça gritando em desespero, eu esperava que fosse pior e ele estava fazendo do jeitinho que eu gostava.

