Capítulo 19

Eu sempre fui envergonhada. Não uma santinha como todos acham — longe disso. Mas envergonhada. Do tipo que cora fácil, que fica sem saber onde pôr as mãos. E ali estava eu, parada na frente dele, com o coração batendo forte no peito, enquanto ele me olhava sentado, abrindo devagar os botões da camisa social. O sorriso no rosto dele era de pura expectativa, como se esperasse um show, um espetáculo privado — coisa que eu, honestamente, não sabia se conseguiria entregar.

— Você quer tipo… um strip tease? Algo sexy? — perguntei, tentando entender o papel que ele esperava que eu desempenhasse.

Ele riu. Um riso curto, tranquilo.

— Eu não acho que você vai conseguir — falou sem maldade, só com uma sinceridade desarmada. — Não combina com você. Eu só quero ver você.

Aquilo, de algum jeito estranho, me deu força. Porque era verdade. Eu não saberia sensualizar como uma atriz pornô faria. Mas eu podia ser eu. Só isso.

Soltei a alça do vestido com dedos trêmulos. Meu rosto já devia estar mais vermelho que um tomate maduro. Aproveitei pra arrumar o cabelo, puxando algumas mechas que tinham escapado. Depois ergui o vestido pra alcançar o fecho nas costas, e com algum esforço, soltei o zíper. O som baixinho do zíper descendo me deu um arrepio. Rebolei um pouco, tentando fazer o vestido deslizar pelas minhas pernas — e ele caiu aos meus pés num suspiro de tecido, deixando meu corpo só de lingerie.

O gesto não foi sexy. Foi meio atrapalhado. Mas eu tentei sorrir, fingir que estava no controle.

Quando olhei pra ele, esperando alguma reação, encontrei um silêncio absoluto. Ele não piscava. O olhar congelado, como se absorvesse cada detalhe, cada curva. Era um tipo de atenção que mexia com a gente. O tipo de olhar que qualquer mulher gostaria de receber. Mas vindo de alguém que mal me conhecia… me dava um arrepio que misturava tesão com desconforto.

E eu fiquei ali, de pé, tentando fingir que não estava completamente exposta por dentro também.

— Continua — ele ordenou, já de pé, desfazendo-se da camisa enquanto caminhava até a cama atrás de si.

Meus olhos seguiram o corpo dele como se estivessem presos. Eu estava esperando a atenção voltar pra mim, o foco, o olhar. Mas ele se sentou na beira da cama com naturalidade, e começou a se livrar da calça, dos sapatos, das meias.

— Não para. Eu mandei continuar, mandei ou não mandei? — O tom veio um pouco mais firme. Ainda sem agressividade, mas menos doce. Me pegou de surpresa.

Eu ri, num reflexo nervoso.

Ajeitei as alças do sutiã nos ombros, como sempre fazia — era automático. Um jeitinho meu. Puxei o bojo pra baixo, ajeitando no lugar, só pra depois alcançar o fecho atrás sem virar pra frente, como a maioria faz. Era um sutiã simples, com alças finas e elástico estreito, de modelo meio adolescente, quase sem enchimento. Eu sabia que ele não era sexy no sentido tradicional, mas ele ficava bonito no meu corpo. Firme sem apertar. Suave. Era o que me deixava confortável.

E conforto pra mim era tudo.

O que me diferenciava da minha irmã começava exatamente ali. A Juju detestava esse meu gosto por roupas de algodão. Ela dizia que calcinha tem que apertar, tem que levantar a bunda, valorizar a raba. Eu achava que calcinha tem que deixar a gente esquecer que tá usando. A minha era dessas, básica, de algodão macio, estampa de bichinho — uns gatinhos espaçados no tecido claro. Fofa até demais pra ocasião, talvez, mas era a minha preferida. A única que eu escolhia sem pensar.

Sutiã, a gente até dividia. Mas ela vivia subindo a alça nos ajustes, querendo os peitos juntos e altos. Dizia que ficavam mais bonitos. Eu odiava. Me deixava sufocada. Ela buscava a estética; eu, o sossego.

Soltei o fecho e senti o alívio instantâneo, aquele suspiro de pele quando o elástico se desfaz e o corpo pode relaxar. Os seios caíram no lugar com naturalidade, livres. Eu não cobri, não escondi. Deixei estar. A vergonha ainda estava ali, é claro — como sempre esteve. Mas ela não era mais forte do que eu.

E então, devagar, deixei o sutiã escorregar pelos braços até que caísse por completo. Fiquei ali, parada, de pé, vestida só com minha calcinha de gatinhos — aquela que tinha um rasguinho no elástico, bem no quadril, quase imperceptível. Só se olhasse de perto, e ele estava olhando de perto. A luz do abajur jogava sombras escuras na parede, e o quarto parecia mais caro ainda naquele silêncio.

Ele continuava se despindo com a mesma calma de antes. Tirou os sapatos e as meias com cuidado, como se fosse um ritual. Colocou-os alinhados no canto da cama. A camisa e a calça, ele pendurou com uma precisão quase estranha na arandela ao lado, como se estivesse em casa de visita ou preparando roupa pra passar. A cena, tão disciplinada, me deu um leve constrangimento. Olhei pro meu vestido, largado no chão como se eu tivesse arrancado sem pensar. Me senti desleixada. Sei que é ridículo pensar isso no meio do sexo, mas eu pensei. Me abaixei discretamente, peguei o vestido e fui pendurar ao lado das roupas dele. Era um gesto pequeno, mas me dava uma sensação tola de equilíbrio. De estar me igualando, talvez.

Quando voltei o olhar pra ele, ele já estava tirando a última peça — a cueca. Fez aquilo com um certo cuidado, dobrando como se fosse roupa de cama boa, e a colocou em cima da mesa de cabeceira, ocupando o centro da cama como se fosse um personagem à parte.

E ali estava ele. Nu.

Sentou-se no colchão, ajeitou o corpo, e então fez aquilo que todo homem faz quando se vê exposto: puxou o pau pra cima, depois pra baixo, esticou com uma leve tensão nos dedos, como se testasse elasticidade. Um gesto quase automático. Mas em mim causou um efeito esquisito — não de excitação imediata, mas de fascínio meio desconcertado. Era bonito. Gordinho, sim. A pele esticada com aquela leveza de quem tá semi-duro. A cabeça era pequena, proporcional talvez, mas parecia tímida em relação ao resto. E ele tinha uma curvatura pra cima que fazia parecer mais vivo, mais pronto. Um corpo esperando resposta.

Meus olhos ficaram presos ali, quietos.

Foi quando ele percebeu. E o rosto dele se transformou num sorriso contido — não debochado, mas satisfeito. Do tipo que sabe que está sendo visto, desejado, admirado.

Ali, vendo ele deitado na cama, nu, se ajeitando com aquele jeito confortável e certo de si, me bateu um estalo esquisito. Lembrei que eu era a puta naquela equação. Ele tinha me pagado. E aquilo, de alguma forma, exigia uma entrega. Uma performance, talvez. Um papel que eu mesma aceitei, mesmo sem saber direito como interpretar.

É estranho, porque sim — eu já tinha transado na vida, claro. Mas isso era diferente. Não era só dar. Era representar. Ser uma mulher desejável, profissional, alguém que sabe exatamente o que fazer. E eu… eu não sabia. Me faltava o roteiro. Me faltava a coragem.

Então, meio sem pensar, busquei nas lembranças o que já tinha feito nas nas lives. Aqueles trechos onde a gente fazia charme, brincava com o corpo. Resolvi, na cara dura, cometer o ridículo ao vivo.

Sorri sem graça. Aquele sorriso que você dá quando tá sem saber se tá sendo sexy ou patética. Levei as mãos devagar até os meus seios — pequenos, redondinhos, sensíveis demais. Acariciei de leve com a ponta dos dedos, meio sem jeito, apertando suavemente como se tentasse provocar algo em mim que ainda não tinha acordado. Passei os polegares sobre os mamilos, um de cada vez, sentindo o arrepio subir da pele e se espalhar.

Desci as mãos devagar pelo meu próprio corpo, roçando de leve pela barriga, contornando o umbigo, tocando minhas curvas como se fossem novas pra mim. Era como encenar o desejo. Como desenhar com os dedos o que eu achava que ele queria ver.

E ele queria ver.

Estava sentado, meio reclinado na cabeceira da cama, com aquele sorrisinho satisfeito de quem assiste algo exclusivo. A mão dele já estava no pau, se masturbando devagar, num ritmo tranquilo, quase contemplativo, como se meu corpo fosse uma paisagem calma. A respiração dele era firme, os olhos cravados em mim — me vendo inteira, me comendo com o olhar.

E mesmo com toda a insegurança, mesmo com o medo de estar fazendo feio, eu continuei.