Capítulo 27
Ela passou lubrificante nos dedos, esfregou devagar em mim. A ponta do brinquedo tocou minha entrada e meu corpo cedeu um pouco, como se lembrasse o caminho. O primeiro centímetro ardeu macio, o segundo fez um som molhado curto. Eu mordi o lábio. A posição me irritou.
— De quatro — falei, virando e me apoiando nos cotovelos.
Juju me segurou pela cintura, abriu minhas pernas com firmeza e encostou de novo. Eu sentia a textura lisa do silicone, a diferença de temperatura entre ele e meu calor. Quando entrou, entrou inteiro o bastante para roubar o ar. O colchão rangeu, o lençol grudou no meu joelho. Ela começou um ritmo compassado: empurrava, esperava, empurrava mais fundo. A cada estocada, um choque subia pela coluna, e eu sabia exatamente onde ia bater no próximo movimento.
Foi aí que Vitorino veio. A mesma posição. A mesma promessa de prazer. A lembrança entrou junto com o brinquedo: ele atrás de mim, apressado, sem olhar, sem mão na minha pele. O barulho seco do quadril batendo no meu, fora de ritmo, sem achar ângulo. O “tá bom?” frio, no meio do ato. Eu tinha fingido um orgasmo para acabar logo. Um gemido fabricado, garganta oca, nenhum tremor real nas pernas.
— Assim? — Juju perguntou baixo, presente, mão espalmada na minha lombar.
— Assim — respondi, e a palavra saiu como um sopro. — Assim…
Juju mudou o ângulo e acertou em cheio. Meu clitóris latejou por reflexo. Eu empinei mais, oferecendo o corpo ao golpe seguinte, e ela entendeu. A mão dela apertou minhas ancas e me trouxe de volta cada vez que eu fugia um centímetro. O som molhado ficou mais alto, o quarto inteiro parecia pulsar no mesmo compasso: ventilador, minha respiração, a cama rangendo.
A lembrança de Vitorino tentou se impor de novo: o cheiro do suor dele, forte demais, a pressa, a falta de presença. Eu vi a cena como uma foto mal tirada, estourada de flash. Nenhum toque no lugar certo, nenhum cuidado com meu tempo. Eu de quatro, esperando o momento passar. Eu fabricando a onda que não vinha.
Juju empurrou e segurou dentro, sem sair, só pressionando. Um calor espalhou pelo meu baixo-ventre, como água que subia além do osso do púbis. A pele por dentro parecia ganhar relevo, cada milímetro reconhecível. Eu conseguia mapear o caminho inteiro: borda, corredor, ponto, retorno. O prazer tinha direção, peso e temperatura. Não era uma ideia. Era corpo.
— Mais — pedi. — Não para.
— Isso cansa o pulso! — reclamou e eu só ignorei.
Ela obedeceu. Começou um vaivém profundo, regular, que me desmontou em tiras. A cada investida, eu soltava um som curto, quase um grunhido, e sentia o travesseiro raspar na boca. Minha mão foi sozinha para a frente, e Juju entendeu de novo: trouxe os dedos, tocou meu clitóris de leve, círculos mínimos, só provocando. A coisa se estreitou até virar uma vibração única entre a pressão dentro e o toque fora.
Vitorino tentou voltar. O “goza pra mim” que ele tinha exigido sem me dar motivo. Eu tinha obedecido com teatro, contraído o abdômen, arfado, tremido de mentira. Lembrei do vazio que veio depois, da sensação de corpo desperdiçado.
O presente me resgatou com força. Juju acertou o ponto de novo, o dedo dela sincronizado com a estocada. O calor virou faísca, depois corrente, depois urgência. Eu perdi a cadência da respiração. O ritmo dela me atravessou como se ajustasse uma engrenagem que sempre foi minha, só mal usada por outros. Não existia mais comparação, só contraste: ali tinha pulso, tinha escuta, tinha foco. Eu senti o orgasmo se construir sem pressa e sem falha, uma onda que pegava impulso de trás dos joelhos, subia as coxas, agarrava o ventre e deixava o peito oco de ar.
— Aí… aí… — foi tudo que saiu.
Eu quebrei em cima do colchão, joelhos cedendo, barriga apertando, garganta abrindo em um som que não dava para fingir. Gozei agarrando o lençol, perdendo a força nas mãos, deixando o corpo tremer. Juju manteve o dildo dentro, firme, e não tirou o dedo do meu clitóris até o último espasmo. Não havia pressa. Havia presença.
Quando o barulho do ventilador voltou a existir, eu ainda pulsava por dentro em ondas menores, como ecos. Vitorino ficou pequeno, distante, um borrão sem peso. O contraste era tão nítido que quase doía: lá tinha sido vazio, aqui era consistência. Lá eu tinha imitado um fim, aqui o fim me atravessava em camadas.
Juju tirou devagar, e a retirada era outro prazer, uma linha morna desenhada de dentro para fora. Eu respirei fundo, senti meu cheiro nos dedos, o plástico no ar, suor salgado na boca. Senti o beijo dela entre as minhas omoplatas. Calmo. Real. O corpo inteiro respondeu com mais um tremor curto, satisfeito, como quem finalmente arquivava a cena certa por cima da errada.
Caí deitada na cama.
— Eu preciso fazer xixi — a voz dela saiu sem graça.
— Vai… mas não liga a luz.
Eu não queria luz. Sabia que a luz trazia a verdade, e a verdade doía. Fiquei imóvel, corpo em frangalhos, uma moleza boa que tremia sozinha por baixo da pele. O ventilador batia agora preso contra a parede jogando o ar para outro lado, eu teria que levantar e socar ele para fazer com que girasse novamente. Passei a mão pelas coxas e senti a pele úmida até o joelho. Toquei o lençol e entendi o estrago: encharcado, como se eu tivesse feito xixi ali. Era gozo, suor, lubrificante, tudo misturado, um cheiro meu espesso no ar.
O estalo da porta do banheiro entregou a descarga. Depois, metal de registro girando e a água abrindo no box. O barulho do chuveiro me disse que o sexo tinha acabado por agora. Eu fiquei escutando a água cair no azulejo enquanto as dores boas apareciam: ardência leve por dentro, um peso satisfeito no baixo-ventre, os músculos das coxas tremendo quando eu mudava um centímetro de posição. Cada espasmo pequeno me lembrava do que tinha passado por mim.
Eu pensei na luz acesa quando ela voltasse. Em como eu olharia para o rosto dela depois do que meu corpo tinha feito nas mãos dela. Eu quis esconder meu jeito de depois: suada, aberta, mole. Afundei o rosto no travesseiro suado e respirei fundo, tentando guardar o quarto do jeito que estava: escuro, cheirando a sexo, com o som da água ao fundo como um manto.
O chuveiro parou. O barulho do vidro correndo. Um silêncio curto. Meus mamilos arrepiaram de novo sem motivo, só pelo eco do toque. Eu segurei o lençol com a ponta dos dedos e aguardei o seu retorno.
Quando ela voltou, parecia feliz. Enfiou o dedo no interruptor e acendeu a luz me cegando no processo. Ria com a boca inteira, tagarela, já falando do xampu antigo que finalmente tinha acabado e de como agora ia poder usar o novo. Eu lembrava da briga quando ela comprou, o preço atravessado na garganta dela por dias.
Sentou na cama, toalha pequena esfregando o cabelo, outra maior enrolada no corpo. A pele ainda brilhava de banho.
— Final de semana a gente vai gravar vídeo e tirar fotos, tá? Tem como você fazer um salão?
Olhei minhas unhas sem graça, crescidas, sem ver uma profissional há meses. Meu corpo ainda vibrava baixinho.
— Eu posso tentar. Tô sem tempo. Tá corrido demais — falei pro teto, evitando a luz.
— Marca pra sexta. Eu fico com o pai e chamo uma menina da make pra fazer nós duas no sábado de manhã. Cabelo e make.
Virei o rosto. Ela parecia ter um organograma inteiro pronto. O assunto soava fora de lugar. Meu corpo ainda morava no antes, pedindo mais, latejando em ondas pequenas que vinham e iam sem pedir licença.
— Quem vai tirar as fotos?
— A Patrícia.
— A gente vai fazer vídeos?
— Vai, mas é coisinha vanilla. Ela vai dirigir a gente.
Assenti no automático. A luz branca esfregava a verdade em mim, e eu queria o escuro de volta. O quarto tinha mudado de cheiro: menos sexo, mais sabonete. Mesmo assim, quando ela jogou a cabeça pra frente e a toalha bateu na nuca, o perfume simples do condicionador atravessou a distância e cutucou minha pele. O corpo respondeu antes do pensamento. Um espasmo pequeno subiu da base da coluna. Mordi por dentro da bochecha para não pedir.
Ela se inclinou pra pegar o celular no criado e a toalha abriu um pouco. Vi a linha oblíqua do seio, a sombra da clavícula, uma gota de água escorrendo e sumindo entre os peitos. O ruído do ventilador voltou a ser manto, mas agora trazia junto o som da minha própria respiração, curta.
— A gente precisa de três looks — ela continuou, contando nos dedos. — Cabelo preso, cabelo solto, e uma coisa assim mais desgrenhada sabe? A Patrícia disse que vai trazer coisas para a gente.
— Desliga a luz — pedi baixo.
Ela me olhou, sorriso torto, dedo ainda no celular.
— Agora?
— Agora.
Fingi dormir, o banheiro poderia ficar para depois, lá havia um espelho ao qual eu não queria me ver nele nem por acidente.

