Capítulo 33
Quando o cliente escreveu “ok, perfeito” e a notificação final soou, deixei o ar sair como quem despressuriza. Desligamos o vibrador. O zumbido sumiu e o silêncio ficou grande demais por um momento. Minhas pernas tremiam um pouco. O coração batia no ouvido. Juju jogou o cabelo para trás, pegou um lenço e passou na pele. Eu fiquei olhando para as mãos dela, tentando entender por que eu conhecia cada gesto e, ainda assim, tudo ali parecia novo.
— Foi bom — ela disse, sem olhar muito. Profissional.
— Foi — respondi, e minha voz saiu diferente. Mais baixa.
Ela fechou a janela do privado, a tela voltou para o geral, e as mensagens comuns começaram a pipocar outra vez. A gente não entrou. Ficamos lado a lado, sentadas no tapete, respirando. O ring light começou a piscar de forma etérea desviando a minha atenção. Do corredor vinha um ar mais frio. O vibrador, quieto, estava abandonado ao alcance da minha mão. Eu toquei sem ligar, só para sentir o peso.
— Você mentiu bem — falei, finalmente.
Ela riu curto, sem humor. — Sobre o quê?
— Sobre não ter gozado.
O tempo parou um instante. Ela virou o rosto devagar. Os olhos dela ainda tinham aquele brilho fosco de depois. Não era vergonha, não era triunfo. Era consciência.
— Trabalho é trabalho — disse, quase automática. E desviou. — Você não?
— Não. Fiquei ali perto. Quase. — Eu respirei. — Acho que te assistindo.
Ela mordeu o lábio e olhou para o chão, como se a pilha de fios no rodapé tivesse virado assunto. Eu entendi um pouco do medo dela. Não era medo do público. Era de mim. Do que aquilo acendia. Do que podia virar quando a câmera apagava.
Levantei devagar, fui até a bancada, peguei água e bebi em goles curtos. O gosto de metal voltou à língua. O corpo ainda vibrava em lugares estranhos, como se um eco ficasse andando por baixo da pele. Voltei, sentei perto, encostei meu ombro no dela. Ela não afastou.
— Hoje sem extra — disse, encerrando a sessão com um clique. — Chega.
— Chega.
A luz do ring foi ficando incômoda e desligamos. A sala escureceu na medida certa para ver contornos e não ver detalhes. O silêncio cresceu de novo, mas não doía. Eu não sabia onde guardar tudo que tinha acontecido. Em que prateleira do corpo se coloca um beijo que começa como cena e termina como lembrança que não quer ir embora? Onde arquiva o tremor que a mão do outro provoca na hora certa, no ponto certo, do jeito certo? E o que fazer com a certeza de que eu vi algo que era só meu para ver — ela gozando e escondendo de todo mundo?
— Amanhã a gente decide se entra de novo — ela disse, já no automático de quem fecha o dia.
— Tá.
Ficamos mais um pouco ali, sem pressa de levantar. Eu ainda sentia o cheiro do lubrificante nos dedos e, no fundo, uma vontade teimosa de ter ido até o fim só para não guardar o quase. Ao mesmo tempo, tinha algo bom em ter parado onde parei. Como se o corpo tivesse me dado um tempo para entender. Era isso: eu precisava entender.
Levantei por último. Recolhi o brinquedo, o lenço, as calcinhas abandonadas no pé do sofá. Juju foi ao banheiro lavar o rosto. Eu fiquei na porta, vendo a água correr e ouvindo o barulho da torneira como se fosse música. Quando ela me percebeu ali, perguntou, sem olhar:
— Você tá bem?
— Tô. Só… — procurei a palavra certa e encontrei uma simples. — Acordada.
Ela assentiu, fechou a torneira, secou o rosto e passou por mim. O ombro roçou no meu. Eu senti de novo a mesma faísca que tinha sentido lá no começo, no primeiro beijo. Era pequena e insistente. Não era teatro. Era presente.
A gente apagou as luzes da sala. O apartamento ficou na penumbra que eu mais gosto, aquela que não esconde e também não expõe. No quarto, deitei e ouvi, de longe, a porta do banheiro abrindo e fechando, passos leves pelo corredor, a cama dela cedendo peso. Fechei os olhos. O corpo foi acalmando por fora. Por dentro, não. Por dentro, a cena ainda rodava, e eu sabia que, no dia seguinte, o problema não seria o valor no canto da tela. Seria o que a gente ia fazer com aquilo que o dinheiro não compra: o que a gente sentiu.
— Juju?
— Oi, coisa chata…
— Você acha que a gente podia procurar um psicólogo?
O quarto tava escuro, mas eu sentia o medo dela no ar, pesado, grudando na pele igual umidade. Eu sentia o meu também.
— Qual o seu problema, hein, esquisita? — a voz dela veio cortante, ela se sentou na cama de uma vez, o colchão rangendo. — É o quê? Você quer namorar sua irmã agora?
Eu engoli em seco. Ela nunca dizia o que sentia de verdade. Quando explodia assim, era o único jeito que eu tinha de ouvir o que tava acontecendo lá dentro dela. Era como se a raiva fosse a única linguagem que ela ainda soubesse usar sem travar.
— Eu só… eu tô com medo, Juju. Medo do que a gente tá virando.
Silêncio. Respiração pesada do outro lado do quarto.
— Então para — ela respondeu seca, voz tremendo um pouco. — Para de olhar pra mim desse jeito. Para de falar como se isso fosse mais que grana. É só trabalho, Ju. Só isso.
Mas a voz dela falhou no final, tipo um rachinho que ela tentou esconder, mas eu ouvi. Eu sempre ouço essas merdas nela, porque a gente é igual, caralho, espelho quebrado um do outro.
— Eu… posso falar como eu me sinto?
Eu me sentei na cama devagar, puxando os joelhos pro peito, o lençol frio roçando na pele das coxas ainda sensível da live, aquela umidade traiçoeira que não secava nunca, grudando na calcinha como lembrete indecente. O ventilador zumbia alto, girando louco, jogando ar gelado na minha nuca. Eu me sentei não pra ficar confortável, mas pra me defender se ela viesse pra cima de novo, porque ela ficava violenta quando encurralada, socava parede, gritava, agarrava cabelo, e eu precisava desesperadamente conversar com alguém sobre isso, sobre nós, antes que eu explodisse por dentro, antes que a culpa me comesse viva.
— Meu Deus! URGGGGGHhhh!!!! — ela colocou as mãos no rosto, ganindo como se doesse físico a coisa, os dedos tremendo, o corpo todo encolhido na beira da cama, os ombros subindo e descendo rápido. — Vai, fala logo e acaba logo com isso, garota! Que inferno, você… quem devia estar morrendo no hospital era você e não nosso pai! Meu Deus!
As palavras bateram como tapa na cara, afiadas pra caralho, meu coração apertou tanto que doeu no peito, tipo uma mão esmagando tudo lá dentro, a respiração travando na garganta seca, boca salivando de nervoso. Eu senti toda a miséria do mundo caindo em cima de mim, pesada, sufocante, o quarto pequeno demais pro peso disso tudo, o cheiro de nós duas ainda no ar, suor misturado com lubrificante e gim, subindo pro nariz e me deixando tonta. Uma lágrima travou no canto do olho, queimando, inchada, presa ali sem cair, porque eu me contive com toda força, mordendo o lábio por dentro até sentir gosto de sangue, eu queria ser mais forte, porra, não chorar como a certinha fraca que eu sempre fui, não desabar na frente dela e virar mais um peso.
— Não fala assim, Juju… por favor! — choraminguei antes de continuar, a voz saindo fina, quebrada, as coxas tremendo por dentro. — O papai não vai morrer.
Ela saltou pra beirada da cama, posição desafiadora com os pés no chão e dedo em riste, pronta pra me agarrar pelos cabelos, os olhos brilhando no escuro, o peito subindo rápido. Eu temia a força dela, mesmo tendo o mesmo tamanho e corpo, Juju era mais briguenta que eu, mais selvagem, e eu sentia o calor subindo da barriga só de imaginar ela vindo pra cima, misturado com medo e aquela excitação doida que eu odiava.
— Cara, essa coisa não é pra se divertir, eu odeio ter que fazer isso com você, garota, aliás — ela fez uma pausa grande, anunciando uma grande ironia, a voz tremendo no final — eu odeio qualquer coisa assim, porque eu não gosto de mulher e é esquisito ficar beijando minha irmã na boca, sabia?
Eu fiquei olhando pra ela no escuro, o coração martelando.
— Irmã, eu tou me sentindo esquisita, por que eu tou gostando — pronto confessei e quando soltei essa frase ela congelou e eu não consegui parar — Eu tou gostando, eu fico excitada querendo mais que nem uma vadia, e isso tá me matando.
E veio.
O Silêncio que precede o esporro.

