Capítulo 56

Eu me aproximei dos dois tentando agir normalmente, como se não tivesse acabado de gozar gritando com o pau dele no meu cu e a boca da minha irmã na minha buceta. Percebi que Juju tava contando umas das maldades que fez comigo quando a gente era criança — aquela história da vez que ela trocou meu shampoo por tinta de cabelo e eu fiquei com o cabelo rosa manchado por um mês. Na hora eu fiz uma cara de zangada que foi suficiente pra os dois rirem mais ainda, e minha irmã tirar mais sarro da minha cara.

— Olha a cara dela, Pedro! Ainda fica vermelhinha igual quando tinha dez anos — disse Juju, rindo e dando um tapinha na minha coxa.

Eu revirei os olhos, mas acabei rindo também. Sentei na cadeira da mesa ainda enrolada na toalha, sentindo o cu latejar de leve toda vez que mexia. Pra minha surpresa, engatamos numa conversa que durou algumas horas. Falamos do passado, do nosso pai, detalhes de como entramos nessa vida de câmera. Pedro ouvia com calma, ele é do tipo de pessoa que mais ouve do que fala. O mais estranho que eu reparei nele, e gostei, é que ele não é dessas pessoas que dão conselho em tudo. Ele simplesmente ouvia.

— Pedro, você deveria ser psicólogo, tu é um bom ouvinte! — soltei, sincera.

Ele riu sem graça, coçando a nuca.

— Foi uma das coisas que eu quis fazer de faculdade, mas acredita que eu fiz economia?

— Economia?! — minha irmã repetiu a palavra, surpresa. — Como assim, economia? Nada a ver contigo.

— Ih, então ajuda a destrambelhada da minha irmã com as contas dela, por que essa daí não sabe guardar dinheiro — completei, apontando pra Juju.

E a briga voltou por mais uns minutos entre minha irmã e eu, até ele interromper com um risinho.

— Vocês têm cam hoje? Tá anoitecendo, que horas entram?

Minha irmã pegou o telefone, pensou um pouco. Ela era quem gerenciava isso.

— Daqui a umas duas horas. Eu entro, Ju vem, ficamos as duas meia horinha, eu saio e depois ficamos as duas. Sacou?

— Interessante. Vocês revezam pra não ficar muito tempo e ninguém se cansar, né?

— Exato! — falamos as duas juntas.

— Essa é uma das vantagens de ser irmã gêmea! — completou Juju, rindo e me dando um cutucão.

Eu deu uma risada meio torta, mas por dentro tava uma bagunça. Conversar assim, normal, depois de tudo que rolou... era estranho pra caralho. Meu corpo ainda lembrava de cada estocada, de cada gemido, da boca da Juju na minha, do pau dele me arrombando. A culpa martelava de leve no peito quando pensava no pai no hospital, nas contas que não paravam de subir. Mas ali, sentada naquela cadeira com a toalha enrolada, vendo os dois rirem, eu sentia uma coisa esquisita: alívio. Como se, por um momento, não estivéssemos sozinhas nessa merda toda.

Pedro olhou pro relógio e se levantou, começando procurar suas roupas que estavam jogadas em cima das coisas da sessão de fotos.

— Vou deixar vocês se arrumarem então. Aí qualquer coisa me chama que eu tô no grupo.

Quando ele falou isso, meu coração apertou. Eu não queria que ele fosse embora. Eu abri a boca querendo falar algo, mas minha voz não saiu, ficando presa. Minha irmã me olhou rápido e pareceu sacar tudo, e segurou ele pelo braço.

— Não, cara! Fica aí, a gente compra umas cervejas, fica se divertindo trabalhando e conversando, acho que dá uma vibe legal!

Ele olhou para o meu rosto, como se buscasse autorização, e quando se deu por satisfeito, falou meio relutante ainda.

— Pode ser, mas eu acho que vocês vão ficar presas, não?

— É só dar gim para essa daí que ela fica toda puta — disse minha irmã!

— Vou comprar cinco garrafas então! — disse Pedro na gargalhada.

Eu estendi o dedo do meio, gesto que eu nunca fazia, e fui pegar meu telefone para ver se tinha algum recado. Quando abri, emails e agora mensagens de número desconhecido dizendo sempre as mesmas coisas do tipo:

“Eu sei de você, eu vejo tudo, eu sei onde mora e sei onde trabalha.”

Eu fui passando os emails e mensagens enquanto os dois ainda riam e fui ficando mais nervosa, com o corpo gelado, sentindo minha pressão baixando levemente. Eu tinha recebido emails assim no trabalho e alguém ligou e ficou respirando no telefone, mas tanta coisa aconteceu e depois a Patricia disse que isso era normal de acontecer. Mas eu não me sentia bem com aquilo...

— Olha isso, gente!

Eu me sentei do lado da minha irmã, as duas de toalha, e chamei Pedro para ver, estendendo o telefone para ele. Ele pegou da minha mão e começou a ler todas as mensagens junto da minha irmã; os dois em silêncio.

— Você acha que isso é de alguém do site ou alguém que nos conhece? — perguntei para ele.

— Pode ser os dois, alguém descobriu nós duas por acidente, só pode — complementou a minha irmã.

Pedro franziu a testa, deslizando o dedo na tela devagar. O sorriso dele tinha sumido completamente. Ele leu tudo com calma, respirando fundo antes de falar.

— Olha... isso não é bom. Não é o tipo de mensagem aleatória de punheteiro frustrado. Tem detalhes demais. Ele fala do bairro, menciona o nome da clínica onde você trabalha, Ju. Isso não é só alguém que viu a live por acaso.

Meu estômago revirou. Senti um frio subir pela espinha e apertei a toalha contra o corpo. Juju se aproximou mais, encostando o ombro no meu, e pegou o celular da mão dele para ler de novo com calma. O rosto dela foi mudando conforme rolava as mensagens.

— Puta que pariu... — murmurou ela, a voz mais baixa. — Isso não é normal não, Ju. A Patricia falou que era só maluco comum, mas isso aqui tá parecendo... sei lá, obsessão.