Capítulo 1

Você quer mesmo que eu comece me apresentando? Tá bom…

Meu nome é Nicole. E eu sou… sei lá, uma pessoa comum. Bem normal. Do tipo que passa despercebida em qualquer lugar.

Eu nunca liguei muito pra me arrumar, não. Jeans largo, camiseta velha, moletom quando tá frio, tênis surrado — isso sempre foi o suficiente pra mim. Só mais recentemente, tipo depois dos dezessete, que eu comecei a usar vestido de vez em quando. E nem foi por querer ficar mais bonita, não. Foi prático. Vestido facilita… facilita transar, sabe? Levanta e pronto.

Eu sou quieta. Sempre fui. Falo pouco, olho pouco pros outros, prefiro ficar na minha. Sobre amigas… eu tive duas, mais ou menos. A gente trocava mensagem, às vezes marcava um rolê. Mas aí elas pararam de falar comigo. Diziam que era por causa da minha “fama”, mas eu sei que não era isso. Elas nunca foram minhas amigas de verdade. Só queriam ir pro condomínio do meu pai, tomar piscina, ficar com os garotos de lá. Eu era só o pretexto, a ponte. Uma amizade por interesse mesmo.

Você quer que eu continue falando da minha família? Tá… eu falo.

Meus pais são separados há uns dois anos. Eu não sei direito se isso é bom ou ruim. Às vezes acho que é melhor do que ouvir eles brigando por dinheiro o tempo todo, às vezes sinto falta de uma casa que parece casa de verdade.

Meu pai é… sei lá, gerente de logística, alguma coisa assim. Ganha bem, mora num condomínio daqueles fechados, com piscina, academia, tudo bonitinho. Mas ele viaja o tempo todo. Quando tá em casa, me tolera. Não briga, não grita, só… existe do lado. Acho que ele me mantém lá porque não pode me botar na rua mesmo, né? Lei, custódia, essas coisas.

Minha mãe é auxiliar de enfermagem. Aquelas bem duronas, que trabalham dobrado e ainda dão metade do salário pra igreja. Ela é muito católica, muito mesmo. E ela… ela não gosta de mim. Já me chamou de vagabunda, de sem vergonha, de um monte de coisa pior. Às vezes na cara, às vezes gritando no telefone. Acho que ela vê em mim tudo que ela acha errado no mundo.

Os dois, no fundo, não gostam muito de mim. Eu sinto isso. Não é que me batam ou me abandonem de verdade, mas… eu sou o peso que sobrou depois do divórcio, ou sei lá, que causou o divórcio.

E tem meu irmão. Dois anos mais novo, mas parece que veio de outro planeta. Bonito, inteligente, cheio de amigo, extrovertido pra caramba. Todo mundo gosta dele. A gente se dá… normal. Às vezes brigamos feio, às vezes rimos junto, depende do dia, da lua, sei lá. Ele é o oposto de mim em tudo. E às vezes eu invejo isso. Tem momento que eu só queria que alguém na família olhasse pra mim como se eu valesse alguma coisa além de ser o elefante branco no canto da sala.

Você quer saber da parte da ninfomania, né? Eu sei que é isso que todo mundo tá esperando. Tá bom… eu falo. Ninfomaníaca. É isso que você quer ouvir… É a coisa sobre mim que mais causa curiosidade nas pessoas.

Na verdade, esse termo nem existe mais. Os médicos falam “transtorno de hipersexualidade”, ou sei lá mais o quê. Pra mim tanto faz. O nome não muda o que eu sinto. Eles dizem que eu sou uma pessoa com a hipersexualidade muito alta e… super fodida da cabeça. É isso.

Eu tentei me tratar. Fui em psicólogo, psiquiatra, tomei um monte de remédio. Aqueles que matam o desejo, que deixam a gente dopada, sem vontade de nada. Só que eles acabavam comigo. Me deixavam pior. Eu não comia, não dormia, ficava um fantasma. Tentei me matar um monte de vezes. Não deu certo. E um dia eu simplesmente toquei o foda-se. Parei com tudo. E, de um jeito torto, melhorou. Pelo menos eu voltei a sentir alguma coisa.

Antes dos quinze, minha vida era tranquila. Eu era a menina mais comum que vocês podem imaginar. Ia pra escola, tirava nota boa sem esforço, ia muito pra igreja com a minha mãe — ela me levava todo domingo, catequese, missa, grupo de jovens. Eu era bem controlada, usava aquelas roupas largas, saia abaixo do joelho, nada de maquiagem. E acho que até os quinze eu era feliz, de verdade. Não tinha vazio, não tinha essa fome o tempo todo

Eu posso contar do meu primeiro beijo? Eu gosto dessa história, não tem nada demais.

Meu primeiro beijo foi exatamente no dia que eu fiz quinze anos. Parece roteiro de filme ruim, né? Foi com um menino contratado para ser o príncipe — daqueles bailes de debutante que a igreja organizava. Ele me deu uns amassos no fundo da escola, atrás do ginásio. Hoje eu rio disso. Eu lembro que não senti nada. Nada mesmo. Só tremia inteira, suando embaixo daquele vestido enorme, de várias camadas, maquiagem pesada que a minha mãe tinha passado em mim. Minha amiga Clarice ficava de vigia no canto, pra ninguém ver a gente ali no escurinho. Eu achava que era pra sentir fogos de artifício, borboletas no estômago, sei lá. Mas não senti coisa nenhuma. Só medo de ser pega e um vazio esquisito depois. E foi aí, mais ou menos, que as coisas começaram a mudar. Devagarinho. Mas mudaram.

Voltando para a ninfomania…

Como a coisa da ninfomania começou, eu não sei muito bem, mas eu tenho uma ideia. Não foi por causa do beijo no menino, não sei direito o que foi ao certo até hoje, mas eu tenho uma ideia. Acho que começou mesmo no ponto alto da separação dos meus pais. Meu irmão e eu éramos usados de escudo humano quando convinha e empurrados de um lado para o outro. Meus pais eram ausentes: minha mãe, quando estava presente fisicamente, a cabeça sempre estava em algo da igreja; e meu pai, em uma promessa de ascensão na carreira, viajava o tempo todo.

Meu irmão achou o máximo aquela liberdade toda depois da separação. Ele se jogou, fez amigos novos, saía mais, parecia que o mundo tinha ficado maior pra ele. Já eu… eu afundei. Fiquei muito mal. Na merda mesmo. Chorava o dia inteiro, trancada no quarto, me sentindo culpada por tudo — achava que a separação era culpa minha, por não ser uma filha boa, por não ser perfeita como minha mãe queria.

Foi mais ou menos nessa época que eu comecei a fuçar coisas na internet. Eu, que só tinha beijado um menino na vida, dei de cara com vídeos e posts sobre masturbação. Uma influenciadora que eu seguia, falava que era super normal, que ajudava a relaxar, aliviava o estresse, ajudava a dormir melhor. E o melhor: não precisava enfiar nada, não perdia a virgindade. Perfeito pra mim! Eu ainda queria casar de branco na igreja, ser a noiva certinha que minha mãe sonhava.

Siririca era proibido em casa. Expressamente. Minha mãe vivia dizendo que, se eu sentisse essas vontades, era pra rezar, ajoelhar e pedir perdão. Me lembrava o tempo todo da vergonha que eu ia passar na confissão, contando pro padre. “Imagina ter que falar isso pra um homem de Deus, Nicole?” Ela repetia isso como um mantra para grudar na minha cabeça, e conseguiu.

Engraçado… hoje eu vou na igreja toda semana, entro no confessionário e conto tudo. Todas as transas, todos os lugares, todos os detalhes. E, olha, virou o meu dia favorito da semana. Falo baixinho, sinto aquele arrepio, e saio de lá com o corpo leve. Às vezes até mais molhada do que quando entrei.

Eu vou contar da minha primeira tentativa de masturbação de verdade, mas antes vocês precisam entender como era a minha cabeça naquela fase.

Eu gostava de meninos, tá? Sentia atração, ficava olhando alguns na escola, achava bonitinho quando um sorria pra mim. Mas não era tesão. Não era essa urgência que faz a gente perder o ar, que ocupa a cabeça o dia todo. Minha sexualidade simplesmente não tinha acordado ainda. Eu não pensava nisso. Sexo era uma coisa de gente grande, de filme, de conversa alheia.

Eu sabia que se eu me tocasse o corpo respondia, que era bom. Mas toda vez que eu pensava em tentar, a culpa batia forte. A voz da minha mãe ecoando: pecado, vergonha, confissão, padre. E o medo de ser pega, de virar uma pessoa suja, de perder minha virgindade para meus dedos. Eu travava. Sempre travava.

Até uma tarde qualquer — eu nem lembro o dia exato, nem a data, só que era um dia comum, pai viajando, irmão na rua, casa vazia. Eu chamo essa tarde de dia zero. O dia em que tudo começou pra valer.

E aí… no próximo capítulo eu conto o que rolou de verdade.

Prometo.