Capítulo 3

Eu não gozava de jeito nenhum naquela tarde. Eu nem sabia direito o que era um orgasmo de verdade, só tinha visto aquelas mulheres nos vídeos gritando exagerado, como se fosse o fim do mundo. Mas eu sentia, no fundo, que não tinha chegado lá. Não tinha curiosidade louca nem obsessão por isso ainda. Pra mim, aquilo tudo já era suficiente: mágico, gostoso demais, e, por que não dizer, divertido. Agora eu entendia direitinho por que meu irmão ficava horas trancado no quarto ou no banheiro. Fazia todo o sentido do mundo.

A sensação ia e vinha em ondas, e eu me amando de verdade ali, pela primeira vez. Me tocando sem pressa, me descobrindo, como se eu fosse a única pessoa que importava.

Toda vez que o prazer ficava forte demais, quando eu perdia o ar de vez, as mãos tremiam sem controle e vinha uma dorzinha insuportavelmente boa, quase demais pro corpo segurar, eu parava sem nem perceber. Tirava a mão, respirava fundo, esperava o tremor passar. Descansava um pouquinho e logo voltava, trocando de posição pra ver o que mudava: de barriga pra cima de novo, de lado com a perna dobrada em cima da outra, até de quatro, com o travesseiro apertado entre as coxas e rebolando devagar contra ele.

Eu ouvia meus gemidos baixinhos escapando e gostava. Era uma voz rouca, mole, que eu nem sabia que tinha. Me dava mais arrepio ainda.

E foi nesses vai e vem que uma coisa começou a se encaixar na minha cabeça, sem eu falar em voz alta: aquele prazer era o único lugar onde eu me sentia segura e completa. Onde o buraco que a separação dos meus pais abriu, o silêncio da casa quando o pai viajava, as palavras duras da mãe ecoando, tudo isso sumia. Quando eu estava ali me tocando, eu não era a menina quieta que ninguém nota, a filha que sobrou no meio do divórcio, a garota invisível. Eu era só sensação, só calor, só minha.

Aquilo para mim era alívio puro, amor que eu dava pra mim mesma quando ninguém mais dava. E isso foi se grudando no fundo da mente: prazer igual a escape, igual a ser inteira. Eu não sabia ainda o quanto isso ia mandar em mim depois.

E eu precisei parar.

O sol já tinha sumido há muito tempo, o quarto estava escuro, só com a luz fraca do abajur que eu nem lembro quando acendi. Meu irmão tinha mandado mensagem no celular algumas vezes, depois bateu na porta três vezes, chamando pra jantar. Eu respondia com voz baixa que já ia, mas não saía da cama.

Meu toque não era mais tão prazeroso. Começava a arder, a queimar, como se tudo ali embaixo estivesse em brasa, mas não de um jeito bom. Eu estava em carne viva, sensível demais, vermelha, inchada. Cada movimento doía um pouco agora, misturado com o resto do calor que não queria ir embora.

Eu não tinha me dado conta, mas tinha passado mais de seis, talvez oito horas ali. Fazendo pausas pra respirar, pra beber água, pra trocar de posição, mas voltando sempre. Era demais pro corpo aguentar de uma vez.

Resolvi parar. Mesmo não me sentindo totalmente satisfeita, com aquela inquietação ainda rodando no peito e na barriga, eu parei. Levantei devagar, as pernas moles, o meio das coxas ardendo quando andei. Fui pro banheiro, tomei um banho frio pra acalmar, passei um creme que tinha no armário, qualquer coisa pra aliviar.

Eu só queria me curar logo. Amanhã estaria melhor, a pele descansada, e eu poderia continuar. A ideia já me deixava ansiosa de um jeito quieto, como se o corpo soubesse que aquilo agora fazia parte de mim.

No espelho embaçado do banheiro, eu sorria pra menina que via no reflexo. Os dentes à mostra, um sorriso bobo, daqueles que a gente não controla. Eu me sentia feliz, orgulhosa até. Como se tivesse descobrido um segredo só meu, algo que me fazia melhor, mais viva.

Mas ao mesmo tempo vinham mais dúvidas. Mil perguntas rodando na cabeça. Eu queria muito conversar com alguém sobre tudo aquilo, entender se era normal sentir assim, se as outras meninas também faziam. Só que não tinha ninguém. Nem a mãe, nem uma amiga de verdade. Antes disso tudo, eu precisava pelo menos escovar os dentes e me vestir pra jantar.

Abri a gaveta de higiene, peguei a escova, e foi aí que meu olhar parou em uma coisa.

Um vidro. Um frasco de perfume que eu tinha ganhado de aniversário anos atrás e nunca usei. Era um cilindro longo, uns vinte centímetros, com aquelas pequenas pirâmides em toda a sua superfície por questões de estética, o vidro era algo cafona, barato. A circunferência não era muito grande, cabia fácil na palma. Eu peguei, só pra ver de perto.

No espelho, meu sorriso tinha sumido. Agora era só dúvida. Apertei o vidro texturizado entre os dedos, senti o peso frio, as pontinhas das pirâmides contra a pele da mão fechada. E, sem querer, imaginei como seria aquilo dentro de mim, na minha vagina.

“Dentro não está doendo…”, a frase saiu da minha boca sozinha, baixinho, como se eu estivesse respondendo a alguém que não estava ali.

Mas a voz da minha mãe veio na hora, forte na memória: a ameaça da inspeção, o medo de ela abrir minhas pernas um dia e ver que o hímen não estava mais lá, que eu tinha perdido a virgindade. Que eu era suja, pecadora, vagabunda. O coração acelerou de novo, mas dessa vez misturado com culpa, com medo de ser descoberta, de perder o pouco que ainda me ligava à ideia de filha boa.

Mesmo assim, as pernas já estavam me levando pro quarto. Eu corri pra cama quase sem pensar, sentei na beirada, ainda pelada do banho, o vidro frio na mão. Abri as pernas devagar, como na tarde inteira, e encostei a ponta dele ali, só pra sentir. Estava sensível ainda, ardendo um pouco da maratona de antes, mas o corpo respondeu na hora, ficando molhado de novo.

Eu respirei fundo, apertei os olhos e enfiei devagar. Primeiro só a ponta, sentindo o estiramento, a textura daquelas pequenas pirâmides roçando as paredes internas. Doía um pouquinho, uma pontada fina, mas era uma dor que se misturava com prazer, que fazia meu ventre contrair sozinho, como se o corpo inteiro respondesse de uma vez. Fui mais fundo, centímetro por centímetro, com cuidado, até onde eu aguentava, até sentir ele preenchendo tudo por dentro. Meu corpo tremeu inteiro, as pernas abrindo mais, os dedos dos pés se curvando no lençol.

Eu não parei pra pensar na mãe, no hímen, no pecado. Naquele momento só existia aquela sensação nova, cheia, profunda, que me fazia sentir ainda mais viva do que a tarde inteira. Comecei a mexer devagar, entrando e saindo, a mão firme no vidro frio que agora estava quente. Cada movimento trazia uma onda diferente, mais intensa que só os dedos ou o travesseiro. As pirâmides arranhavam de leve as paredes, mas de um jeito que acendia tudo por dentro, que fazia o calor subir rápido, concentrado ali no fundo.

Eu acelerei sem querer. O corpo já sabia o caminho. Deitei de costas na cama, joelhos dobrados e abertos, a outra mão voltando pro clitóris, circulando como antes. O vidro entrava mais fácil agora, molhado, deslizando fundo. Eu sentia tudo: o estiramento, o atrito, o peso preenchendo o vazio que eu carregava o dia todo. A respiração ficou curta, os gemidos baixinhos escapando sem controle. Era como se o prazer da tarde inteira tivesse se juntado ali, esperando só aquilo pra explodir.

Veio rápido. Muito rápido. Um calor subiu de repente do ventre pro peito, as coxas tremendo, o corpo inteiro apertando em volta do vidro. Eu gozei num segundo, intenso, quase sem aviso. Um gemido mais alto saiu, o ventre pulsando forte, ondas e ondas que me deixaram tonta, ofegante, com os olhos marejados de tanto sentir. Fiquei ali parada, sentindo os últimos tremores, o vidro ainda dentro, o corpo mole na cama como se tivesse derretido.

Eu sorri devagar, fraca, pensando que aquilo era o melhor que eu já tinha sentido na vida. Que agora eu sabia o que era gozar de verdade. Tirei o vidro com cuidado, sentindo o vazio depois, mas um vazio bom, satisfeito. Olhei pro teto, o quarto escuro. Meu irmão provavelmente jantando sozinho.

Mas aí eu vi. Um filete vermelho no vidro, fino, misturado com o molhado. Sangue. Não muito, mas o suficiente pra gelar minha barriga. Meu hímen. Eu tinha rompido. A ameaça da mãe veio na hora: a inspeção, o olhar dela vendo aquilo, chamando de vagabunda, de perdida. O medo apertou o peito, misturado com o resto do prazer que ainda rodava no corpo.

Eu limpei rápido, voltei com o vidro para a gaveta, deitei de lado abraçando o travesseiro. Amanhã eu ia ter que agir normal. Mas e se ela viesse no fim de semana? E se notasse algo diferente? O coração batia forte de novo, mas dessa vez não era prazer.

Era medo puro, mas estranhamente, eu não me sentia atingida por ele.